Caderno de Debate # 3
A resistência e a luta das classes exploradas
Notas
Bibliografia
"Se envia capital para o exterior, isso não ocorre porque ele não poderia ser empregado no próprio país. Ocorre porque ele pode ser empregado no exterior a uma taxa de lucro mais elevada." (MARX, O Capital. S. Paulo: Abril Cultural, livro 3. t. 1 p. 193).
O
presidente Fernando Henrique declarou à revista “República”,
no. 40, de fevereiro de 2000, que entramos na “era do pós-imperialismo”.
E o que significa isso? Significa que superamos o imperialismo? Superamos o
capitalismo do qual o imperialismo é a etapa superior e final?
Hoje, qualquer observador mais ou menos informado sabe que a crise do imperialismo
se aprofunda, poderíamos dizer, se constitui numa crise estrutural e
que, em decorrência desta crise, o Brasil vai reconvertendo sua inserção
na economia mundial, adequando-se a esta crise, expressa sob a denominação
de globalização, reconversão que leva a economia nacional
progressivamente a uma situação colonial na qual o Estado nacional
[1] vai perdendo o comando do processo econômico interno.
Flutuamos ao sabor da crise do imperialismo, das marés do capital financeiro
internacional, o que a imprensa capitalista chama de capitais globais (o capital
financeiro é composto dominantemente por capitais dos países imperialistas,
mas também por capitais nas mãos do setor financeiro da classe
dominante brasileira) - esta é uma novidade importante – e ambos
se comportam pelos mesmos critérios: a busca exclusiva e obsessiva de
maiores taxas de lucro independentemente de métodos ou país em
que seu capital se aplica.
A política econômica do Estado brasileiro de forma obsessiva, dominante
e quase exclusiva, atende aos interesses do imperialismo e da grande burguesia
nacional ansiosa por se proteger da crise dolarizando sua riqueza. O governo
de FHC dedica-se a contrarrestar a crise da economia capitalista mundial, criando
condições de aplicação e remuneração
satisfatórias ao capital financeiro internacional, tanto mantendo o Brasil
no topo do ranking mundial de juros reais - 36% de taxa de juro nominal o que
representa uma taxa de juro real por volta de 25% ao ano (Delfim Netto, Carta
Capital, no.122, 10/05/2000) - batendo de longe a Indonésia, que fica
em segundo lugar, como entregando o setor produtivo nacional aonde se vislumbre
uma perspectiva de taxas de lucro satisfatórias ao capital externo.
1. De Fernando I a Fernando II.
Desde
o governo Collor - um trailer interrompido da política que está
sendo aplicada por Fernando Henrique Cardoso – que a economia nacional
e o mercado interno foi sendo aberto aos capitais externos e às importações,
mesmo que a importação se fizesse de forma limitada pela disponibilidade
de divisas. A partir do Plano Real, o governo, encenando a farsa do controle
da inflação, agarrou-se à idéia fixa de tudo fazer
para remunerar o capital externo. Era evidente que havia uma inflação
de miséria, de que seria necessário aumentar a exploração
da classe operária e de todo o povo para garantir a remuneração
do capital e para isto reduzir serviços como saúde, educação,
etc., que o Estado capitalista oferecia às classes dominadas.
Mesmo vendo por todo lado agravar-se a miséria, o governo brasileiro
já com FHC à frente manteve-se inabalável na política
de garantir lucros ao capital imperialista e, assim, colaborar em contrarrestar
sua crise. Com a corrida para cá de dólares, em busca de lucro
fácil, o Brasil resultou “estabilizado”; quanto mais o capital
financeiro internacional entrava no Brasil mais se esforçava o governo
em garantir sua taxa de lucro:
Primeiro, fez subir as taxas de juros e eliminou gradativamente
o controle sobre a entrada e a aplicação de capitais, para atrair
o capital financeiro garantindo-lhes, não só absoluta liberdade
como remuneração elevada;
Segundo, com as divisas acumuladas pela entrada de
capitais atraídos pelos elevados ganhos nos juros e nas bolsas o que
nos dava “saldo” para adquirir os bens que ele mesmo produzia lá
fora decretou o mais escrachado “laissez-faire, laissez-passer”
nas importações, adquiridas com uma moeda sobrevalorizada, inundando
o país inteiro de quinquilharia e baboseiras, escancarando o mercado
interno à importação de bens que antes eram fabricados
aqui, forçando para baixo seus preços, quebrando o setor produtivo
nacional;
Terceiro, cedendo-lhes lugar nos setores produtivos,
estatal ou privado, no setor de serviços e no sistema financeiro, onde
houvesse possibilidade de lucros; ofereceu as empresas estatais e privadas nacionais,
bancos e empresas do setor financeiro, barateadas pela crise, ao capital financeiro
internacional a preço de banana quando não subsidiou sua compra.
Em outubro de 1997, a ciranda financeira sofreu uma pane no sudeste da Ásia
e os capitais começaram a fugir do Brasil. Na obsessão de assegurar
ao capital externo de que sua convicção de manter-lhes o lucro
era inabalável, o governo FHC aumentou ainda mais as taxas de juros e
adotou 51 medidas com o objetivo de cortar despesas do Estado, por mais essenciais
que fossem, e assim garantir sua remuneração.
Em setembro de 1998, a moratória russa provocou uma nova fuga de capitais,
apesar de nova elevação da taxa de juros, de novo pacote fiscal
e da intervenção do FMI, diante da evidente fragilidade da máquina
montada por Fernando Henrique para garantir a remuneração dos
capitais internacionais a qualquer custo.
Daí porque a crise prosseguiu nos últimos meses de 1998 e início
de 1999 e resultou na desvalorização do real frente ao dólar
e para compensá-la na absoluta desregulamentação dos fluxos
de capital externo.
A subserviência do Brasil ao capital financeiro internacional ficou demonstrada
no ano de 1999. Oscilando entre o medo e a voracidade, os capitais externos
entraram e fugiram do Brasil e o governo brasileiro fez-lhes sucessivas concessões
entre o aumento da remuneração, de garantias e a desregulamentação
do mercado.
Hoje, o governo brasileiro só tem um objetivo: garantir a remuneração
do capital imperialista diante da crise estrutural em que vive a economia mundial
desde o início da década de 70, crise que se agrava a cada crise
conjuntural e que põe em evidência a quebra do sistema. Crise estrutural
do imperialismo que levou a seguidas reestruturações da economia
mundial, da qual a política neoliberal, a globalização
e a fascistização, são os elementos mais evidentes, fascistização
que no Brasil se expressa na acentuação de tendências históricas
como o autoritarismo, o obscurantismo, e a radical separação de
classes que se materializa na fabricação de um exército
de “excluídos”.
Hoje, o Brasil vem aumentando seu endividamento externo e, conseqüentemente,
o pagamento de juros vem crescendo ano a ano. Só entre 1999 e 2000 a
despesa com juros deve passar de US$15,2 bilhões para US$17,1 bilhões.
Acrescente-se a isto o crescimento com a remessa de lucros e dividendos resultado
dos investimentos diretos, principalmente para a compra de empresas estatais
ou privadas e que vão elevar as despesas com as remessas de US$4,1 bilhões
em 1999 para US$ 5 bilhões este ano.
Da mesma forma cresce as despesas com viagens internacionais que devem superar
os US$1,4 bilhão gastos em 1999 e atingir US$2 bilhões. Soma-se
a isso o déficit da balança comercial que nos três primeiros
meses do ano já acumulava um déficit de US$88 milhões.
De outro lado, está claro um projeto continuísta de poder para
as classes dominantes que, diante de sua opção clara, doutrinária,
de submissão consciente aos interesses do grande capital internacional
que, para contrarrestar sua crise, tem que radicalizar a exploração
sobre a classe operária e o conjunto dos trabalhadores e, consequentemente,
radicalizar a repressão modificando sua estratégia diante das
manifestações de insatisfação do povo, utilizando
maciçamente a imprensa para fabricar confrontos, mistificar os movimentos
reivindicatórios, satanizar organizações, como o MST, caminhando
para a Fujimorização, para o fascismo.
2. A crise do imperialismo
Podemos dizer que a crise estrutural do imperialismo se inicia no final dos anos 60, início dos anos 70, com a sobreacumulação de capitais nas mãos dos bancos europeus, os eurodólares, e vai se manifestar na crise de 1973-74, que resulta na política de empréstimos aos países dominados, segundo o economista Dércio Garcia Munhoz, a política mais bem elaborada e executada pelo imperialismo para contrarrestar sua crise.
“O comportamento observado constitui um dos episódios de maior racionalidade das economias hegemônicas até agora registrado, ...” (Dércio Garcia Munhoz, Dívida Externa. A crise rediscutida, p. 26).
A
crise de 1982-1983 com as moratórias do Brasil e do México vai
mostrar os limites da política de endividamento forçado dos países
dominados como forma de se contrapor a crise, gerando, a partir de 1985, a necessidade
de uma nova reestruturação da economia mundial, a política
neoliberal e a globalização.
É verdade que por todo esse período, o Brasil sempre esteve à
frente dos que se ofereciam ao sacrifício para garantir a remuneração
do capital financeiro. Também é verdade que as sucessivas concessões
e reestruturações impostas à economia nacional quebraram
o que alguns teóricos da esquerda classificavam como “desenvolvimento
associado e dependente”, reduzido agora a desenvolvimento só para
as classes dominantes, enquanto que para o povo, para a classe operária,
para os trabalhadores, para as camadas médias, o médio e pequeno
empresariado, só resta o sacrifício de garantir a taxa de lucro
do capital internacional.
E o que queremos dizer com isso? Queremos dizer que a crise estrutural e conjuntural
da economia capitalista mundial, no momento em que triunfou provisoriamente
sobre as experiências de construção do socialismo, vem agravando
o conjunto de suas principais contradições e, em primeiro lugar,
a contradição entre o imperialismo e os países dominados.
É de fundamental importância que analisemos esta questão,
que analisemos a fase que hoje atravessa o imperialismo, a fase que atravessa
a economia capitalista mundial estruturada por essas contradições,
suas relações e a hierarquia que se estabelece entre elas, seu
desenvolvimento, para que possamos determinar como se dá a crise e o
ajuste que esta determina na inserção dos países dominados
nesta etapa do desenvolvimento da economia capitalista mundial.
Porém, a nós parece necessário levantar primeiro uma questão
acerca da compreensão da fase imperialista da economia capitalista. E
para fazer isso precisaríamos tratar das classes, da luta de classes,
dos monopólios, da concorrência, do Estado, etc. etc., um círculo,
já que para falar do imperialismo precisaríamos falar de tudo
ao mesmo tempo, das classes, da luta de classes, do monopólio, do Estado,
etc., porque na realidade as coisas funcionam juntas, relacionadas umas às
outras. Assim, os limites deste trabalho e a necessidade de adotarmos uma ordem
de exposição nos obriga a trabalhar com determinados conceitos
sem que nos seja possível precisá-los.
Quando no início do século Lenin assinala a passagem do capitalismo
de livre concorrência, do mercado mundial, para a constituição
de uma economia capitalista mundial, passagem para o que vai denominar de etapa
imperialista do capitalismo, constatava que o desenvolvimento do capitalismo
tinha estabelecido no mundo um “sistema universal”:
“o capitalismo transformou-se num sistema universal de subjugação colonial e de estrangulamento financeiro da imensa maioria da população do planeta por um punhado de países ‘adiantados’” (Lenin, O Imperialismo, fase superior do capitalismo, p.23),
Uma totalidade orgânica (Marx, 1977, Contribuição, 217), uma unidade real, porque não resulta da soma de partes nem uma abstração derivada dos interesses dominantes. Isto quer dizer que o imperialismo constituía por todo o mundo uma totalidade unificada, uma “empresa capitalista mundial”, como diz Lenin referindo-se a expansão do capital financeiro.
“Estes dados permitem ver a rapidez com que cresce a espessa rede de canais que abarca todo o país, centraliza todos os capitais e receitas monetárias, converte milhares e milhares de empresas dispersas numa empresa capitalista única, nacional a princípio e mundial depois” (Lenin, O Imperialismo fase superior do capitalismo, p.48).
Nunca
é demais acentuar esta característica, este traço constitutivo
central do imperialismo.
Discutindo, no último capitulo do “Imperialismo...”,
“O lugar do imperialismo na história” Lenin vai dizer que
“o imperialismo é, pela sua essência econômica,
o capitalismo monopolista” (Lenin, O Imperialismo fase superior do
capitalismo, p. 143). Para concluir adiante,
“A oligarquia financeira, que estabelece uma densa rede de relações de dependência entre todas as instituições econômicas e políticas da sociedade burguesa contemporânea sem exceção: eis a manifestação mais evidente deste monopólio” (Lenin, O Imperialismo fase superior do capitalismo, p. 144).
E mais adiante,
“Neste sentido, é extremamente instrutiva a circunstância de os termos mais usuais que os economistas burgueses empregam ao descrever o capitalista moderno serem ‘entrelaçamento’, ‘ausência de isolamento’, etc.; ... Que significa então esta palavra ‘entrelaçamento’? ... o que constitui a base do referido entrelaçamento, o que se encontra por trás dele, são as relações sociais de produção submetidas a uma mudança contínua” (Lenin, O Imperialismo fase superior do capitalismo, p. 146-147).
E
poderíamos acrescentar, hoje, que esse entrelaçamento se expressa
como “globalização”, “mundialização”,
etc.
A verdade é que o imperialismo construiu uma economia mundial onde o
desenvolvimento de cada formação econômico-social é,
em parte, condicionada pelas relações mundiais de produção,
uma economia mundial onde se combinam de diversas formas e posições
as diversas economias nacionais que são parte dessa totalidade complexa,
constituída pela economia mundial imperialista.
O fato de que a economia mundial expresse uma totalidade não deve induzir
a que se confunda a economia mundial, enquanto totalidade, com suas partes constitutivas,
as diversas formações econômico-sociais, dominantes e dominadas,
que a compõem.
A questão, de fato, consiste em definir que tipo de contradições
constituem e definem essa totalidade e como determinam a forma pela qual nela
se inserem as diversas formações sociais que a constituem. Ora,
da mesma forma que na totalidade representada por uma formação
econômico-social concreta, é essa totalidade - a formação
econômico-social - a realidade concreta que possibilita a determinação
específica de cada contradição particular e, da mesma feita,
são suas contradições que determinam a totalidade.
Por exemplo, a contradição capital e trabalho, contradição
própria do sistema capitalista, se determina especificamente no Brasil
na articulação do conjunto de contradições que compõem
nossa formação econômico-social no mesmo processo que a
determina enquanto contradição fundamental. Na totalidade concreta
representada pela formação econômico-social brasileira,
a posição da burguesia brasileira não é exatamente
a mesma posição da burguesia norte-americana nos EUA. Da mesma
forma, a classe operária brasileira apresenta características
próprias que a individualizam dentro do proletariado internacional, apesar
de que a contradição entre a burguesia e a classe operária
exista tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos [3].
Assim, esquecer o específico a cada realidade concreta, esquecer que
o capitalismo se desenvolveu no Brasil, que a burguesia brasileira se formou
quando o imperialismo já se encontrava constituído, não
representa um erro desprezível.
Aqui, de passagem, vale lembrar um texto de Lenin singularmente “esquecido”
por muitos daqueles que se esforçaram por compreender, analisar e transformar
o Brasil e é singular nos dois sentidos. Primeiro, porque em seu primeiro
parágrafo nos dá uma pista para vislumbrar, talvez, as razões
do “esquecimento”; segundo, porque em seu parágrafo seguinte
soa tão claro que nos permite avaliar o grau de miopia que a incompreensão,
a não-compreensão, da teoria provoca.
“Entendemos
por crítica do imperialismo, no sentido amplo da palavra, a atitude das
diferentes classes da sociedade perante a política do imperialismo, em
consonância com a ideologia geral das mesmas.
As proporções gigantescas do capital financeiro, concentrado em
poucas mãos, que deu origem a uma rede extraordinariamente vasta e densa
de relações e vínculos, e que subordinou à sua férula,
não só a generalidade dos capitalistas e patrões médios
e pequenos, mas também os mais insignificantes, por um lado, e a exacerbação,
por outro lado, da luta contra outros grupos nacional-estatais e financeiros
pela partilha do mundo e pelo domínio sobre outros países, tudo
isto origina a passagem em bloco de todas as classes possuidoras para o lado
do imperialismo. O sinal do nosso tempo é o entusiasmo ‘geral’
pelas perspectivas do imperialismo, a defesa furiosa do mesmo, o seu embelezamento
por todos os meios”.
O que Lenin quer nos dizer quando fala em “crítica do imperialismo”
em conformidade, acordo, com “a atitude das diferentes classes da
sociedade perante a política do imperialismo, em consonância com
a ideologia das mesmas” (Lenin, O Imperialismo fase superior do capitalismo,
p.129)? Quer nos dizer que a partir de uma posição de classe,
da ideologia em consonância com esta posição temos posições
críticas distintas perante o imperialismo? Quer nos dizer que de uma
posição de classe, de sua ideologia, podemos assumir “a
defesa furiosa” do imperialismo e seu embelezamento por todos os
meios sem que sejamos capazes de lhe fazer a crítica científica?
Quer nos dizer que a crítica científica do imperialismo só
é possível de uma posição de classe?
Isto talvez possa explicar porque não levamos em conta a afirmação
de Lenin de que “tudo isto origina a passagem em bloco de todas as
classes possuidoras para o lado do imperialismo” (Lenin, O Imperialismo
fase superior do capitalismo, p.129).
Daí a razão porque Lenin insistia na análise concreta da
situação concreta. As contradições sociais concretas,
isto é, com os traços característicos que ostentam, resultantes
de conjunturas concretas, o entrelaçamento específico dessas contradições
nesta conjuntura, nada tem de desprezível porque expressam o real concreto
dessa formação social, a situação concreta enquanto
totalidade.
De fato, se a formação econômico-social se constitui como
expressão do conjunto das determinações do complexo de
suas contradições com sua contradição dominante,
em sua inter-relação mútua e desenvolvimento incessante
essa formação econômico-social, da mesma forma, é
o condicionante que determina a maneira específica pelas quais suas contradições,
se apresentam. Essa, por assim dizer, penetração recíproca,
no complexo de contradições com sua contradição
dominante que constituem uma totalidade, é que lhe dá a feição
concreta que apresenta, feição que reverte sobre cada uma de suas
contradições particulares condicionando-as em seu processo específico.
Ou, dizendo de outro modo, é a articulação de suas contradições
- fundamental, principal, secundárias, etc. - em sua especificidade concreta
que forja a totalidade, no mesmo processo em que esta define as condições
concretas em que suas contradições se apresentam e seu desenvolvimento.
Assim, o imperialismo, a economia mundial, não constitui um mero agregado
aleatório, uma mera soma de economias nacionais, de formações
econômico-sociais, mas uma economia mundial, “sistema universal”
determinado por um conjunto de contradições – fundamental,
principal, etc. - em constante processo dialético de determinar e ser
determinada. O que queremos dizer é que as contradições
sociais só existem articuladas em uma totalidade, por isso mesmo nenhuma
delas pode ser tomada em abstrato, independente da totalidade na qual tem existência
concreta, ao contrário, só existe na concretude e condicionada
pela totalidade social da qual faz parte, determinada pelas demais contradições
que compõem aquela totalidade, razão porque é impossível
que se repita uma situação concreta.
Assim, a tentativa de transferir, de decalcar, a análise de uma fase
do imperialismo para outra, de uma formação social para outra,
resulta numa elucubração metafísica ao retirar do materialismo
dialético e do materialismo histórico a fonte mesma de sua vida;
a análise concreta da situação concreta. Restará
um esquema vazio de escassa significação objetiva, capaz de levar
a imensos e dolorosos equívocos.
É esta a prática que temos de radicalmente recusar para assumir
a posição científica, a única científica
possível, a posição de classe, o ponto de vista do proletariado.
É desta “atitude ... de ... classe ... perante
a política do imperialismo, em consonância com a ideologia geral...
da ... mesma” classe, o proletariado, deste método, que
devemos analisar a crise do imperialismo e a agudização de suas
grandes contradições:
1) a contradição fundamental do sistema capitalista,
a contradição entre capital e trabalho, expressa na agudização
da contradição entre a burguesia e o proletariado por todo o mundo;
2) a contradição entre o capitalismo e o socialismo;
3) a contradição interimperialista;
4) a contradição entre países imperialistas
e países dominados.
Ora, a crise estrutural do imperialismo é profunda e generalizada e se
torna mais aguda ao golpe de cada crise conjuntural. Poderíamos dizer
parodiando o “Manifesto” que, além do fantasma do comunismo,
outro fantasma percorre a economia capitalista mundial, a sobreacumulação
de capital e a superprodução de mercadorias, levando a crise aos
mercados financeiros e ao setor produtivo agudizando, principalmente, a contradição
entre o imperialismo e os países dominados.
Primeiro, porque o desenvolvimento do imperialismo
vem resultando, desde o fim dos anos 60, numa sobreacumulação
de capitais e na diminuição das possibilidades de aplicação
desses capitais no setor produtivo mantendo-se a taxa de lucro, levando a que
esses capitais lutando por manter a taxa de lucro se refugiem no mercado financeiro
ou busquem aplicação, compulsoriamente, lucrativa nos países
dominados.
Segundo, porque há uma superprodução
de mercadorias, expressão da sobreacumulação de capitais
e limite à sua aplicação no setor produtivo e, pressionados
pela superprodução de mercadorias, pelos limites de seu próprio
mercado e do mercado externo, os monopólios – que não podem
eliminar a concorrência [2] - tendem a fazer cair seus preços,
disputando entre si uma parte maior dos mercados e, principalmente, constrangendo
os países dominados, em sua área de influência, a consumir
seus produtos.
Terceiro, porque pressionado pela sobreacumulação
de capital e pela dificuldade generalizada de sustentar a taxa de lucro no setor
produtivo e ganhos e juros correspondentes nos mercados financeiros dos países
dominantes, o imperialismo vem constrangendo os países dominados a criar
mecanismos de remuneração de seus capitais tanto no setor produtivo
como financeiro.
Assim, e de forma ainda mais perversa - como resultado do progressivo agravamento
estrutural de sua crise - o imperialismo procura encontrar no aumento da exploração
dos países dominados a solução para sua crise.
E onde está a razão da crise econômica atual? Sabemos que
nem toda soma de valor é capital, para isso é condição
essencial que o valor seja investido de forma que a ele se acrescente uma quantidade
determinada de valor, a mais-valia.
Podemos dizer assim, repetindo Marx, que a razão da existência
do capital é sua reprodução ampliada: “O processo
de produção capitalista é essencialmente processo de acumulação”
(Marx. O Capital, v.3, t.1, p. 167), e só a partir deste ponto podemos
analisá-lo. Ao investir o capital, o capitalista não tem, nem
pode ter, nenhum outro objetivo senão o de reproduzi-lo de forma ampliada,
acumulá-lo, obter uma quantidade de valor que passará a se incorporar
ao capital inicial, pouco importando onde ou como se investe, desde que isso
lhe garanta uma taxa crescente de lucros. Da mesma forma, Lenin aponta esta
característica central do capital, a necessidade incontornável
de sua valorização, quando analisa a característica do
imperialismo a exportar capital:
“exportación de capital = “exportación del valor destinado a producir plusvalía en el extranjero” (LENIN, Obras completas, t.28, p. 343).
A
crise é justamente a crise dessa acumulação. Para contrarrestar
sua crise atual e aumentar a taxa de lucro o capital apela para a elevação
do grau de exploração do trabalho, tanto pela mais-valia absoluta,
conjugando a extensão da jornada de trabalho com a redução
da remuneração da força de trabalho abaixo de seu valor,
recorrendo à redução do salário e ao corte de salários
indiretos (como contribuições à saúde, à
aposentadoria, etc.), quanto pela mais-valia relativa com a crescente elevação
da produtividade do trabalho pela introdução de novas tecnologias,
resultando não só na ampliação da superpopulação
relativa como no alargamento da esfera do pauperismo.
Assim se dá a constituição de uma superpopulação
relativa que chega a corresponder de 30% a mais de 50% da população
dos países dominados e a mais de 10% na comunidade econômica européia
e no Japão, com a característica de que cada vez se torna maior
o tempo em que essa população se mantém fora da produção
e, consequentemente, se torna maior a camada incapaz de retornar à produção
industrial e a qualquer atividade produtiva. Isso que a imprensa chama de “excluídos”,
já que o recurso ao mercado externo está limitado por sua divisão
entre os países imperialistas. Instala-se a contradição,
como diz Marx, “a taxa de lucro não cai porque o trabalho se
torna mais improdutivo, mas porque se torna mais produtivo” (MARX,
Capital, livro 3, t.1, p.182).
O capitalismo não pode superar suas contradições, a massa
de lucros cresce, a taxa de lucro cai, a riqueza se acumula nas mãos
de um número cada vez menor de capitalistas e a miséria cresce
no mundo todo, mesmo nos quintais dos países imperialistas.
Segundo dados do “US Census Bureau, International Briefs: World Population
Profile: 1996”, reproduzidos por “LAFIS, Pesquisa e Investimento
em Ações na América Latina”, em artigo publicado
na Carta Capital, nº 123, de 24 de maio de 2000, sob o título “Globalização
V S. Excluídos cada ano sai pior” é cada vez maior
a concentração de renda: 20% da população mais rica
do mundo tem renda 74 vezes maior que a dos 20% mais pobres enquanto em 1960
essa proporção era de 30 vezes e, nos fins do século XIX,
de 7 vezes.
A concentração e a centralização da riqueza é
brutal: a fortuna de 358 pessoas, as mais ricas do mundo, mais US$ 1 trilhão
de dólares, ultrapassa a soma dos PIBs de um conjunto de países
pobres e dominados que reúnem 2,7 bilhões de pessoas; 45% da população
do planeta. A fortuna de 2 ou 3 dos homens mais ricos do mundo supera os PIBs
somados dos 43 países mais pobres; só entre 90 e 94 o consumo
de calorias por pessoa cresceu 3,2% nos países imperialista, como diz
a revista “entre os povos que buscam desesperadamente perder peso”,
enquanto o consumo de calorias nos países dominados caía 4,5%,
como diz a “LAFIS”, “entre os que lutam para
não morrer de fome”, enquanto a expectativa de vida na África
Negra caminha rumo à “pré-história”
Com a generalização da miséria, o mais característico
produto do capitalismo, os capitais superacumulados não têm aonde
investir. O setor produtivo se paralisa diante das mercadorias que se acumulam
sem ter quem as compre, seus preços caem seguidamente. Os mercados financeiros
para onde esses capitais correm quebram e, assim, se bloqueia a acumulação,
instala-se a crise.
No início dos anos 70 havia-se acumulado capitais de tal forma nas mãos
dos países imperialistas, já capitaneados pelos Estados Unidos,
que, aberta a crise em 1973, o imperialismo se viu obrigado a enfrentá-la
através da política de endividamento dos países dominados,
mesmo tendo que queimar capitais emprestando-os a juros negativos, como mostra
Celso Furtado:
“A disponibilidade de recursos financeiros era de tal ordem que em 1973 as taxas médias de juros reais foram de 2% negativas, e em 1974 passaram de 6% negativas. Até o final do decênio dos 70 as taxas de juros reais não superaram 2%” (Celso Furtado, ABC da dívida externa, p. 23).
Os
países dominados passaram a valorizar o capital imperialista através
dos empréstimos, sua dívida externa aumentou de US$ 86 bilhões,
em 1971, para US$ 586 bilhões em 1982, e a realizar as mercadorias sobreproduzidas;
as vinte e três principais economias dos países dominados, treze
da OPEP e as dez principais economias da Ásia e da América Latina,
que representavam 22,7% do comércio mundial em 1973 passam a representar
30,8% em 1981. Portanto, contribuem tanto para garantir a reprodução
ampliada do capital, remunerando-o através do pagamento dos juros do
empréstimo, como utilizando o capital emprestado para consumir as mercadorias
produzidas pelos emprestadores.
A partir de 1982, a saída encontrada pelo imperialismo começa
a ruir. O México declara moratória, seguido pelo Brasil e pela
Argentina. Diante da quebra do sistema de endividamento construído pelo
imperialismo para contrarrestar sua crise é necessário de novo
reestruturar a economia mundial, reestruturação facilitada pela
crise que se faz evidente nos países que buscavam construir o socialismo
e que vai levar ao fim essas experiências e pela hegemonia econômica,
política e militar que os Estados Unidos vão assumindo na economia
mundial.
Usando essa hegemonia e o fato de serem detentores da moeda universal, os Estados
Unidos vão desencadear um longo período de expansão do
mercado mundial a partir de déficits crescentes em sua balança
comercial e de uma dívida pública que passou de US$658 bilhões
em 1979 para US$3.392 bilhões em 1993, ou seja, de 26,7% para 53,5 %
do PIB, o que vai beneficiar os demais blocos imperialistas, principalmente
o Japão à frente do bloco asiático.
A partir de 1996, os Estados Unidos aceleram a reorganização de
seu setor produtivo com o objetivo de garantir sua supremacia técnico-científica
e econômica e, assim, manter sua posição hegemônica
na economia mundial, conseqüentemente, sua hegemonia política e
militar. Com a queda das exportações para os Estados Unidos abre-se
as condições para a crise que se instala nos Tigres Asiáticos
e, em seguida, no Japão.
Novamente, os países imperialistas colocam nos ombros dos países
dominados a carga de contrarrestar a crise, encontrar novas formas de valorizar
o capital imperialista, seja através da importação dos
bens que produzem, do inútil ao supérfluo, seja oferecendo-lhes
novas oportunidades de investimento produtivo, seja valorizando o capital financeiro
através de juros pagos com atração de novos capitais a
troco de maiores juros. O modelo atual para contrarrestar a crise, aceito entusiasticamente
pela fração da classe dominante brasileira no poder, sofre de
um defeito estrutural: impõe um déficit permanente e crescente
na balança de pagamentos.
Primeiro, porque os países dominados são
obrigados a absorver as exportações dos países imperialistas,
resultando na quebra do setor produtivo nacional, sufocado pelo similar estrangeiro,
quase sempre de pior qualidade, porém mais barato, resultando na quebra
do setor produtivo, na queda das exportação de manufaturados,
como vem acontecendo na maioria dos países dominados, degradando sua
balança comercial, transferindo riqueza para o capital externo.
Segundo, porque também se instala um déficit
permanente na balança de serviços, setor sobre o qual o capital
externo avança com voracidade na ânsia de garantir sua remuneração,
deslocando o Estado da prestação de serviços como educação,
saúde, previdência social para a classe dominante e para as camadas
médias capazes de pagar por eles, o que também significa transferência
de capitais para o exterior.
Terceiro, porque também se aumenta a transferência
de recursos, já que aumenta a presença do capital externo no mercado
interno tanto pela privatização do setor estatal na economia,
pela compra dos setores produtivos de maior lucratividade nas mãos do
capital privado, como pelo estabelecimento do capital externo no chamado setor
de serviços e, principalmente, com o crescente controle do sistema financeiro
nacional que hoje melhor seria classificar como sistema financeiro interno,
com a conseqüente remessa de amortizações, juros, lucros,
royaltys, etc., e os inevitáveis subfaturamentos e superfaturamentos
entre matriz externa e filial, “brasileira”.
Quarto, por fim, pelo pagamento da engrenagem da ciranda
financeira, de amortizações, juros, etc. que garante o funcionamento
da máquina de valorização do capital financeiro investido
na Bolsa, em empréstimos, investimentos diretos, etc.
Desta forma, o déficit da balança de pagamentos obriga, como única
forma de manter funcionando a engrenagem de valorização do capital
externo, a atração de novos capitais através de vantagens
e juros sempre maiores. E este é afinal o objetivo da “nova economia”.
Os países dominados devem continuar garantindo não só a
realização dos bens superproduzidos nas economias imperialistas,
como também, remunerar seus capitais sobreacumulados e, para isto, só
existe uma política possível: primeiro e, principalmente, aumentar
a exploração dos países dominados, o que não quer
dizer que não se aumente a exploração sobre o conjunto
do proletariado, tanto nos países dominados como nos países dominantes
e que não se aguce a contradição entre as grandes potências
imperialistas na disputa de mercados e se avance na política de destruir
o que resta da construção do socialismo.
É fundamental para os povos dos países dominados compreender esta
conjuntura da crise do imperialismo, levar em conta que a contradição
principal, no conjunto de contradições que compõem a economia
capitalista mundial, a contradição que mais se agrava, se antagoniza,
é a contradição entre o imperialismo e os povos dos países
dominados, e a dominação.
Ora, é da maior importância que se compreenda como a crise do imperialismo,
com a queda da taxa de lucro resultando no agravamento de todas as suas contradições,
centralmente de sua contradição fundamental, a contradição
entre a burguesia e a classe operária, leva a contradição
entre o imperialismo e os países dominados à posição
de contradição principal, gradualmente agravando seu antagonismo.
É evidente que a crise do imperialismo agudiza todas as suas contradições,
centralmente sua contradição fundamental, como também é
evidente que a contradição entre a burguesia e a classe operária
se agrava tanto nos países imperialista como nos países dominados.
Contudo, objetivamente, dentro das condições da luta de classes
na conjuntura concreta de hoje, o imperialismo enfrenta, uma reação
menor, ao tentar resolver sua crise elevando a exploração da classe
operária e do conjunto do povo dos países dominados do que elevando
a exploração de sua própria classe operária.
Da mesma forma que enfrenta menos obstáculos ao resolver a crise sobre
os países dominados do que se tiver que levar à guerra sua disputa
por esferas de valorização do capital com os demais países
imperialistas, a contradição interimperialista.
O que não quer dizer que realidade econômica concreta da economia
mundial não determine aos países imperialistas que aprofundem
até onde lhe for possível a exploração do povo de
seu país e de sua classe operária, e de que não disputem
de todas as formas, inclusive pela violência, as áreas de valorização
do capital, os mercados, e tentem destruir as experiências de construção
do socialismo.
Se a crise do imperialismo impõe a este o aumento da exploração,
a luta de classes impõe limites a esta. A ampliação da
exploração da classe operária nos países imperialistas
tem de se enfrentar com níveis muito mais elevados de organização
e consciência e um patamar também elevado de conquistas, resultantes
da luta de classes, expressa em condições de trabalho, salário
e vida. Nos países dominados, a classe operária, os trabalhadores
e o povo vêm de uma história de dominação sob o colonialismo,
que transfere sua herança de sujeição ao imperialismo,
sujeição partilhada pela classe dominante em sua subserviência
aos interesses dos dominadores.
Assim, para contrarrestar sua crise e, consequentemente, o agravamento de sua
contradição fundamental, o imperialismo agudiza e torna principal,
nesta conjuntura, a contradição que opõe os países
imperialistas aos países dominados. Como afirma o “Dr. Pedro Parente”,
então Secretário Executivo do Ministério da Fazenda: “Wall
Street quer sangue” (Citado em entrevista de Mendonça de Barros
ao jornal Valor de 22/05/00. p. A12.). O que quer dizer que o imperialismo quer
contrarrestar a queda da taxa de lucro, custe o que custar do sangue das classes
dominadas, de preferência, das classes dominadas dos países dominados.
Por enquanto, para contornar a crise, o imperialismo faz regredir o conjunto
dos países dominados à situação colonial, eleva
ao auge a exploração de sua classe operária, de seu povo,
suprimindo todas as conquistas sociais alcançadas pelos trabalhadores
desses países em décadas de luta. Cria nos países dominados
massas de população privadas do mínimo vital, organiza
a pilhagem de sua riqueza pela constituição de uma máquina,
a médio prazo insustentável, para valorizar o capital.
Ora, o que dizemos é que quanto mais se agrava a crise estrutural do
imperialismo, mais este agrava a exploração dos países
dominados, fazendo com que a contradição que os opõe aos
países dominantes se agudize cada vez mais, levando a que esta contradição
assuma o lugar de contradição principal, contradição
que vai determinar a forma e a velocidade do agravamento das outras contradições.
Assim, depois de concentrar forças diante do inimigo comum - o socialismo
e seus aliados - para destruí-lo, o imperialismo faz convergir suas forças
em reordenar as relações de exploração dos países
dominados, com os Estados Unidos utilizando sua supremacia militar e sua hegemonia
sobre o sistema capitalista para garantir as novas condições de
exploração: intervenção no Iraque, Iugoslávia
e a crescente intervenção nos países da América
Latina, México, Colômbia, Peru, etc., ao mesmo tempo que usa as
novas condições de exploração para reforçar
sua hegemonia econômica e militar.
Com a continuação da crise, a contradição com a
classe operária nos países desenvolvidos vai se agravando, levando
à constituição de verdadeiros “terceiros mundos”
internos, como também se agrava a contradição interimperialista
na disputa por mercados e matérias primas. Contudo, a contradição
interimperialista se mantém ainda em segundo plano enquanto for possível
resolver a crise sobre os países dominados.
Primeiro porque, os Estados Unidos, detém larga
hegemonia econômica e militar entre os países imperialistas, usando
esta hegemonia para policiar o sistema e contornar suas crises através
de órgãos ditos internacionais, como o FMI, Banco Mundial, etc.
e a própria ONU, determinando o lugar dos demais países imperialistas
na economia mundial.
Segundo, porque ainda existem mercados a conquistar
(a Rússia e a China) e se faz necessário quebrar a resistência
dos povos de todo o mundo à “nova ordem mundial”.
Terceiro, porque a crise econômica ainda não
chegou ao seu auge o que implicará uma disputa feroz pelo controle dos
mercados, das matérias-primas e da força de trabalho, tendendo,
como das outras vezes, a gerar uma nova guerra mundial.
Contudo, já aponta no horizonte a tendência de que a crise da economia
mundial pode vir atingir a economia dos EUA e, então, talvez, possa se
enfraquecer a hegemonia dos Estados Unidos sobre o mundo capitalista, levando
a que outros países imperialistas disputem seu lugar.
É só ver o que diz um documento insuspeito de crítica aos
EUA do ponto de vista de uma, “atitude de ... classes da
sociedade”, que não compartilhe do, “entusiasmo
‘geral’ pelas perspectivas do imperialismo”, “a
defesa furiosa do mesmo, o seu embelezamento por todos os meios”:
o “Relatório de inflação” do “Banco Central
do Brasil de março de 2000”.
O “relatório ...” começa dizendo que “O
cenário externo apresenta melhorias, ... embora permaneça o risco
de eventual reversão brusca da economia americana.” (Relatório...,
p. 9), para, logo em seguida, quando trata da economia internacional, definir
“Os principais fatores de incerteza oriundos do cenário externo”,
dizendo:
“Um
importante foco de incerteza continua sendo a possibilidade de uma desaceleração
brusca do crescimento da economia dos Estados Unidos, que poderia ser causada
por uma elevação da taxa de juros acima do esperado,
ou pela queda acentuada dos preços dos ativos, com efeitos indesejados
sobre o consumo. ... A maior volatilidade nos mercados de ações
e de títulos verificada no primeiro trimestre deste ano pode estar indicando
o início de um ajuste aos novos níveis de juros e demanda da economia.
Dado o caráter antecipador do mercado financeiro
e, apesar da importância e da magnitude do chamado efeito riqueza ser
difícil de estimar, esse quadro pode ser o primeiro sinal de desaceleração
da economia americana” (Relatório Banco Central, p.88).
Como podemos ver, a economia dos EUA vem mantendo importantes níveis
de expansão sustentada por sua posição hegemônica
na economia mundial à qual se incorpora o fato de que emite a moeda universal.
Esta posição lhe permite funcionar como um aspirador da poupança
mundial para financiar o crescimento de sua economia, o desenvolvimento de novas
tecnologias e a renovação de seu setor produtivo, financiar tanto
o consumo de bens de consumo como o de bens de produção.
Diz o Relatório de Inflação do Banco Central do Brasil
que “O crédito ao consumidor elevou-se 14,6% em janeiro, implicando
aumento de 6,6% em doze meses” (Relatório Banco Central, p.57).
Para sustentar o consumo tanto de máquinas e equipamentos quanto de bens
de consumo, os EUA mantém o maior déficit comercial da história.
“O
déficit comercial elevou-se 65,1%, atingindo US$ 271,3 bilhões
em 1999, em comparação a US$ 164,6 bilhões, em 1998, embora
em dezembro tenha ocorrido redução sazonal de 15,6%. As importações
e as exportações cresceram 12% e 2,6% no ano de 1999, reforçando
o alto nível de absorção da economia norte-americana”(Relatório
Banco Central, p.58).
É importante notar que apesar do déficit comercial de US$ 271,3
bilhões o crescimento das importações supera em mais de
quatro vezes o crescimento das exportações. Em março deste
ano, o déficit comercial dos EUA atingiu a soma invejável de US$
30,2 bilhões, garantindo a previsão de que neste ano o déficit
comercial vai ultrapassar em muito os US$ 300 bilhões.
Dinheiro fácil, farto e barato está levando a um altíssimo
nível de endividamento das empresas e famílias nos EUA, uma máquina
de fabricar lucros ilusórios que leva a que famílias e empresas
tomem recursos em instituições financeiras para aplicá-los
na Bolsa. O castelo de cartas assim montado já dá sinais de ruir,
como diz o “Relatório de Inflação”,
“Dado o caráter antecipador do mercado financeiro, ... A maior
volatilidade nos mercados de ações e de títulos verificada
no primeiro deste ano (2000) pode estar indicando o início ...”
da crise.
A
conjuntura do imperialismo impõe para o Brasil, mantida as condições
de inserção na economia mundial nas quais nos encontramos, o caminho
único de retroagir ao papel de colônia, de colônia dos EUA.
A classe dominante brasileira fez uma opção clara, consciente,
ideológica, doutrinária, de absoluta submissão e subserviência
- além do que lhe era habitual - ao capital financeiro internacional,
ao imperialismo, aos ajustes determinados pelo imperialismo nas condições
de inserção do Brasil na economia capitalista mundial que representa
uma regressão à situação colonial, que representa
a regressão, o retrocesso no desenvolvimento industrial, científico,
técnico, educacional, cultural e social, significa elevar os níveis
de exploração do povo brasileiro a limites dificilmente sustentáveis
e, portanto, elevar o autoritarismo, o obscurantismo, a miséria e a repressão
à altura correspondente aos níveis de exploração
pretendidos.
Do governo Collor aos dias de hoje cumprimos muito bem o novo papel que nos
foi designado pelo imperialismo. Primeiro, paralisou-se o desenvolvimento da
indústria nacional para ceder o mercado interno às mercadorias
produzidas no estrangeiro. De 1991 a março de 2000 a produção
industrial estagnou em torno dos níveis de 1991 (Delfim Netto, Carta
Capital, no.122, 10/05/2000), como resultado o desemprego industrial cresceu
aceleradamente.

Como podemos ver na tabela (TABELA 1), a produção
industrial total sobe nos anos de 1993 e 1994, logo após a brutal recessão
do governo Collor, crescimento logo compensado, a partir de 1995, com o início
do governo Fernando Henrique Cardoso por índices de crescimento medíocres
e a partir de 1998 negativos. Outro aspecto interessante de observar é
o de que, enquanto a extração mineral cresce regularmente, a indústria
de transformação, a partir de 1995, em seguida à recuperação
pós Collor, mantém um desempenho medíocre e mesmo negativo
nos últimos anos.
Como resultado da estagnação da produção industrial
desde 1990, o desemprego vem crescendo e no mês de abril, na região
metropolitana de S. Paulo, capital da região mais desenvolvida industrialmente
do Brasil, a taxa de desemprego atingiu 18,6%, o que representa 1,688 milhão
de pessoas desempregadas, pela pesquisa do DIEESE/SEAD.
A regressão da economia brasileira, que significou sua inclusão
na globalização, fica mais fácil de demonstrar quando pegamos
os indicadores de produção industrial por gênero.
A discriminação da produção industrial por gênero
permite perceber não só a queda da produção industrial
total a partir de 1998, como a queda de setores fundamentais na estrutura industrial
e, por outro lado, a quebra da produção em setores voltados, principalmente,
ou em grande parte, para o consumo das classes dominadas (TABELA 2).
No primeiro caso, temos os setores da metalurgia, mecânica, material elétrico
e de comunicações e material de transporte, além do desempenho
medíocre do setor de borracha e de papel e papelão, este significativo
do desenvolvimento da indústria de bens de consumo por representar o
crescimento ou o retrocesso na demanda por embalagens.
No segundo caso, é impressionante a quebra da produção
no setor têxtil e vestuários, calçados e artefatos de tecidos
que apresentam números negativos por quase todo o período.
Da mesma forma se dá com o setor de mobiliário e produtos alimentares
nos quais o fraco desempenho expressa a redução de renda das classes
dominadas, camadas médias, camponeses, operários e trabalhadores.
Se formos ver a TABELA 3 que discrimina a produção industrial por categoria de uso podemos constatar a profunda crise da produção industrial a partir de 1998, todos os indicadores são negativos, com o dado significativo da quebra da indústria de bens de capital em queda livre a partir do governo FHC, 1995.

A queda na produção de bens de capital comprova que não
só o capital externo não investe, no Brasil, neste setor, como,
muito pelo contrário, os importa das “metrópoles”
para modernizar as empresas que compra, como também quebra a produção
nacional, quebrando junto a espinha dorsal que poderia servir de base para o
crescimento “auto-sustentado” da indústria nacional, tão
defendido por setores que ainda acreditam na burguesia nacional.
Este fato é uma comprovação significativa da ideologia
da classe dominante nacional, visto que à medida que aceita restringir
o setor de bens de produção consolida a transferência para
o exterior do comando da economia nacional.
Pode-se retirar dos indicadores de produção agrícola (TABELA
4) esta característica do modelo neoliberal de governar, nada para o
povo, tudo para o capital externo.
Basta uma curta comparação entre a soja, produzida para a exportação,
e o arroz, feijão, a mandioca e o milho produzidos, principalmente, para
consumo interno, para nos permitir constatar que, enquanto a produção
da soja, “commodity” que tem superprodução no mercado
mundial e preço em queda, tem sua produção estimulada e
por isto cresce, o arroz, feijão, mandioca, milho, produtos fundamentais
na mesa do trabalhador, sofre uma queda contínua de produção,
situação que se agrava se temos em conta que durante todo esse
período cresceu a população, cresceu o desemprego, o número
de pessoas subempregadas e de “excluídos” de toda a atividade
econômica.
A queda da produção de arroz, feijão, mandioca e, portanto,
a queda da produção da farinha, do milho, produtos fundamentais
na lavoura de subsistência e na alimentação das classes
dominadas, agrava não só a situação dos trabalhadores
urbanos, que teria no incremento da oferta destes produtos, na redução
de seus preços, um paliativo para a crueldade do regime, como dos camponeses
que tem nestes produtos sua fonte de renda e a base de sua alimentação.


Mas, é quando nos dedicamos a passar mesmo que uma simples vista d’
olhos sobre o quadro do balanço de pagamentos que podemos constatar o
que representa a máquina de valorizar capital e a sobreexploração
a que vem sendo submetido o povo brasileiro.
Se examinarmos a Tabela 6 podemos verificar que em todo o período do
governo FHC tivemos saldos negativos em nossa balança comercial. Em 1999,
quando este saldo negativo se reduziu resultou, não do aumento de nossas
exportações - pelo contrário estas caíram em quase
US$2 bilhões – mas, da redução de nossas importações,
premidas pela crise mundial e pela desvalorização do real.
Outro dado que comprova que o Brasil se transformou em uma verdadeira máquina
de transferir riqueza para o capital financeiro internacional está na
conta de serviços crescentemente negativa, onde o pagamento de juros
e amortizações cresce de forma constante, da mesma forma que se
pode ver na rubrica de transações correntes crescentemente negativa.
O quadro do balanço de pagamentos abaixo, que reproduzimos do Banco Central,
representa o mapa do saque que a crise do imperialismo vem impondo aos países
dominados.
Para calcular o absurdo de exploração a que vem sendo submetida
a classe operária e o povo do Brasil basta ver o déficit acumulado
na balança comercial nos cinco anos do governo Fernando Henrique Cardoso.
Se somarmos os déficits de 1995 a 1999 vamos ver que acumulamos, na balança
comercial, um déficit de US$23,594 milhões.
Outro dado impressionante é a soma de riqueza consumida entre serviços,
se somarmos o déficit em serviços, no mesmo período, chegamos
à fantástica soma de US$119,331 milhões.
O quadro de balanço de pagamentos comprova como o imperialismo avançou
em aperfeiçoar o Brasil numa verdadeira máquina de transferir
riqueza, valorizando o capital externo.
TABELA 6


A Tabela 7 que expõe
o quadro da dívida externa brasileira comprova o que afirmamos acima,
apesar da imensa soma de riqueza transferida para o capital externo, a dívida
externa do Brasil mais do que dobrou. Nos quatro primeiros anos de seu governo,
Fernando Henrique dobrou o valor da dívida, de US$148,295 milhões,
em 1994, para US$243,165 milhões, em 1998.


A Tabela 8 demonstra os desembolsos líquidos da dívida externa e expõe o nível de exploração que se exerce sobre o povo brasileiro, isto se tomarmos em consideração que a riqueza retirada do Brasil através do mecanismo da dívida representa somente uma parcela do saque. Assim mesmo, e para não entrar em detalhes, os desembolsos líquidos com a dívida externa somaram nos quatro anos atingidos pela tabela abaixo o valor de US$243,464 milhões


A
manutenção da nova máquina de valorização
do capital internacional em que se transformou o Brasil depende do ingresso
crescente de capitais externos, hoje, de mais de U$50 bilhões ao ano,
aprofundando as redes de dependência que tornam a estrutura econômica
do país cada vez mais interligada e subordinada à economia mundial.
Qualquer maré adversa que se abata sobre a economia dos países
imperialistas determina a instalação imediata da crise econômica
no Brasil. Para comprovarmos isto basta ver que a elevação recente
de juros do FED em 0,5% resultou no aumento do pagamento externo em cerca de
U$500 milhões, no encarecimento do fluxo de recursos externos e na dificuldade
em rolar a dívida externa brasileira. E quem nos garante que o FED não
vai aumentar os juros de novo?
Somente nos primeiros dias de maio saíram da Bolsa de Valores de S. Paulo
(BOVESPA) R$631,668 milhões de investimentos externos, saída maior
nestes vinte dias que a do mês de agosto de 1999, quando foram resgatados
R$627,752 milhões em investimentos externos.
Os gráficos abaixo, reproduzidos da Folha de S. Paulo de 19 de março
deste ano, nos dão uma leve noção de como vai se tornando
difícil manter a máquina montada pelo imperialismo, a partir do
início dos anos 90, para contrarrestar sua crise, um verdadeiro torniquete
a extrair riqueza e, a cada volta, aumentar a exploração de nosso
povo.
No primeiro gráfico podemos ver que os gastos somente com os juros da
dívida externa, consumiram, em 1999, 139,5% do valor gerado pelas exportações,
portanto, quase uma vez e meia todas as divisas que ingressaram no país
pela via do mercado externo.
A previsão para este ano (2000) é de que a soma dos juros mais
o pagamento de parcelas da dívida, as amortizações, excedam
os US$50 bilhões. Assim, seria necessário que as exportações
brasileiras ultrapassassem este valor para que as divisas obtidas com essas
exportações pudessem superar o encargo da dívida.
O problema é que não é possível usar as receitas
das exportações para cobrir os encargos com a dívida externa,
porque, primeiro, é necessário financiar as importações.
Com a desvalorização do real é até possível
que se tenha um saldo na balança comercial que, em 1999, apresentou um
déficit de US$1,206 milhões. Porém, com toda certeza, se
houver saldo na balança comercial este representará uma pequeníssima
parcela do valor a ser remetido para o exterior com o serviço da dívida
externa.
Segundo, porque não é somente através do mecanismo da dívida
que se valoriza o capital externo e, portanto, o serviço da dívida
representa somente uma parcela do que se transfere para o exterior.
A mesma Folha de S. Paulo noticiou em sua edição de sábado,
22 de julho deste ano, que, apesar da balança comercial apresentar um
superávit de US$1 bilhão, o déficit em transações
correntes ainda alcança US$ 23,980 bilhões em junho, isto a partir
da “revisão” feita pelo Banco Central de todos os índices
da economia a partir de 1999, isto é, praticamente o valor total de nossas
reservas que, no conceito “caixa” atingiam em abril US$ 23 bilhões.
E se o déficit em transações correntes diminuiu nos últimos
12 meses findos em junho deste ano com relação aos doze meses
anteriores a junho de 1999 isto se dá, principalmente, pela queda das
importações decorrentes da maxidesvalorização do
real em janeiro de 1999.

O fato de que vem
crescendo o investimento externo no país, alardeado pelo governo Fernando
Henrique como uma prova de “crescimento” e de “robustez”
de nossa economia, vem servindo, na realidade, para aprofundar o abismo sem
fundo da crise do imperialismo. Primeiro, o capital que entra no Brasil vem
servindo para cobrir os déficits nas transações com o exterior.
Contudo, além de que o investimento externo pode se retirar a qualquer
momento com a liberalização do mercado, o fato de que temos mais
capital externo aplicado aqui implica em que aumente a nossa despesa com juros,
amortizações, lucros e dividendos, etc., etc.


Portanto, o ingresso de novos investimentos externos que servem para cobrir o pagamento dos lucros dos velhos investimentos externos só fazem aumentar os novos pagamentos que vão exigir maiores recursos para garantir o pagamento de seus lucros. Se parar de girar a roda cai.

Apesar
de que o déficit em transações correntes tenha diminuído
depois da “revisão” feita nos indicadores da economia brasileira
pelo Banco Central para 3,96% do PIB, uma fração abaixo dos 4%
considerado perigoso pelos auditores do FMI, o quadro que fizemos do Brasil
retrata somente a intensificação da exploração de
nosso povo como resultado do agravamento das contradições do imperialismo,
agravamento resultante de sua crise. Mesmo com as “revisões”
que o regime vem fazendo em suas estatísticas, o IBGE constatou que,
de 1989 a 1999, a renda do trabalhador brasileiro caiu 7,1% , da mesma forma
que caiu o número de empregados com carteira assinada. Da população
ocupada, os 10% mais pobres, 6 milhões de trabalhadores, recebem de salário
R$ 55,00 por mês, 1% da massa salarial do país, os 50% mais pobres
– e entre os pobres aqui não se conta os desocupados, o enorme
exército industrial de reserva – ganham quase o mesmo que o 1%
mais rico, isto é, o 1% da população que é rica
ganha mais do que os 50% mais pobres. E ganha ainda mais, porque na estatística
devidamente “revisada” não se leva em conta ganhos de capital.
E não pode ser diferente.
Lenin já nos alertava que o imperialismo não pode deixar de explorar
a classe operária e os povos de todo o mundo, que “a realidade
econômica concreta da economia moderna” é a de que “a
dominação do capital financeiro” acentua a desigualdade
e as contradições da economia mundial (LENIN, 1975, p.113).
Lenin nas anotações e comentários de leitura do livro de
Hobson, “O Imperialismo”, que nos deixou no “caderno
kappa” - que vai compor mais tarde o volume que reúne os cadernos
nos quais deixou suas anotações sobre o imperialismo – escreve,
ao lado do texto que copia de Hobson, “essência do imperialismo”:
“... imperialismo, cuya esencia consiste en desarrollar mercados para la inversión de capitales, y no para el comercio” (LENIN, Obras completas, t.28, p. 446).
O que queria dizer Lenin, concordando com a caracterização de Hobson, era que a “essência” do imperialismo, seu traço principal, é desenvolver mercados para investir capitais, em busca de sua valorização, isto é, de que a essência do imperialismo é a de exportar capitais para produzir mais-valia. Lenin vai repetir esta caracterização, este traço central do imperialismo, esta “essência”, em suas notas sobre “O Capital Financeiro”, de Hilferding:
“exportación de capital = “exportación del valor destinado a producir plusvalía en el extranjero” (LENIN, Obras completas, t.28, p. 343).
Não
podemos nos deixar iludir, nem um segundo sequer, de que o capital que o imperialismo
transfere para o Brasil tenha outra razão qualquer a não ser a
de produzir aqui mais-valia, mais-valia destinada não a ficar aqui, mas
a voltar às mãos dos detentores do capital.
E o capitalismo assume esta característica em sua fase imperialista em
razão de uma necessidade estrutural, da realidade econômica concreta
da economia mundial: o capital já não pode se valorizar o suficiente
nos limites das fronteiras nacionais; o capital transborda as fronteiras nacionais
e à medida que transborda essas fronteiras e procura valorização
no estrangeiro, se choca com outros capitais também à busca de
valorização e com os limites que a luta de classes impõe
a superexploração que os países imperialistas querem obrigar
os dominados e, como conseqüência, que o imperialismo tenha como
característica central a tendência para a violência e para
a reação (Lenin, p.110) como única forma de garantir a
crescente exploração a que precisa submeter os povos de todo o
mundo na tentativa desesperada de contrarrestar sua crise.
O queremos discutir é que:
1) a crise do imperialismo apresenta tendência
predominante a se agravar, independente das oscilações que esse
movimento possa ter;
2) com o agravamento da crise do imperialismo, agrava-se
o conjunto de suas contradições, principalmente, a contradição
com os países dominados;
3) ao buscar resolver sua crise, principalmente, através
dos países dominados, o imperialismo intensifica a exploração
a que os submete.
Assim, a superexploração é uma necessidade do capital para
contrarrestar sua crise, a tendência a queda da taxa de lucro, e o aumento
da exploração não pode vir desacompanhado do aumento da
violência, da repressão, da miséria, da reação.
E o aumento da exploração, repressão, miséria, traz
consigo o exacerbação da luta de classes, o crescimento da resistência
e luta das classes exploradas.
4. A resistência
e luta das classes exploradas
O imperialismo ao explorar gera seus próprios coveiros, como diz Lenin:
en los nuevos países, la importación de capital “provoca la resistencia de los pueblos que despiertan a la conciencia nacional”... “El proprio capitalismo brinda a los pueblos sometidos el medio de liberación”... “el movimiento hacia la independencia”... (LENIN, Obras completas, t. 28, p. 343).
É
interessante retornar a Lenin para ver como este compreendia as formas que devia
tomar a luta do proletariado com o início da fase imperialista do capitalismo.
Combatendo o oportunismo de Kautsky e quejandos, Lenin vai mostrar que o reconhecimento
da necessidade de desenvolver outras formas de atividade revolucionária
não implicava, mesmo na conjuntura de guerra mundial que se vivia, no
abandono da atividade legal, da luta por reformas, das diversas formas da luta
de classes:
“La esencia de la “lucha contra el pantano” no debe consistir en la negación de la actividad legal ni de la lucha por las reformas, sino en el reconocimiento de la actividad revolucionaria antes indicado” (V. I. LENIN, Obras completas, t. 28, pag. 05).
E mais adiante, ainda nos “Cadernos sobre o Imperialismo”, caderno delta, buscando definir esta posição de maneira mais clara, comentando o trabalho de Pannekoek, onde este afirma,
“La esencia de la lucha de clase socialista consiste en la unidad indestructible de la lucha por el socialismo y la representación de todos los intereses inmediatos del proletariado. Sólo la lucha del partido por los intereses corrientes del proletariado hace que sea el partido del proletariado, el partido de las masas, y le permite obtener la victoria” (Lenin, Obras completas, t. 28, p. 271).
Lenin vai observar, à margem do texto, grifando a expressão “por el socialismo”, que esta não era a palavra correta, o termo correto, como quer Lenin, “exato”, para a posição que queria expressar “no es la palabra justa, así no ... !exacto!” e vai definir sua posição, afirmando que o que é necessário combinar são as duas formas de luta.
“La
lucha por el socialismo consiste en la unidad de la lucha por los intereses
inmediatos de los obreros (en consecuencia, por las formas) y la lucha revolucionaria
por el poder, por la expropiación de la burguesía, por el derrocamiento
del Gobierno burgués y de la burguesía.
Lo que hay que combinar no es la lucha por reformas + frases sobre el socialismo,
la lucha “por el socialismo”, sino dos formas de lucha.”
(LENIN, Obras Completas, t.28, p. 271-72)
A posição de Lenin, a crítica de Lenin a Kautsky e a Pannekoek, podem nos servir de guia para a ação, de guia para o debate e para a compreensão e crítica de toda uma prática que se esconde atrás de frases sobre o socialismo para fugir da tarefa diária de travar a luta concreta.
NOTAS
[1] É importante discutir a teoria marxista com relação ao Estado, discutir o caráter do Estado nos países dominados. Lenin, em “O Imperialismo”, nos dá importantes pistas para esta discussão, dizendo que a luta entre os países imperialistas pela divisão econômica e política do mundo,
“ ... originam abundantes formas transitórias de dependência estatal. Para esta época são típicos não os dois grupos fundamentais de países – os que possuem colônias e as colônias -, mas também as formas variadas de países dependentes que, dum ponto de vista formal, político, gozam de independência, mas que na realidade se encontram envolvidos nas redes da dependência financeira e diplomática” (LENIN, 1975, p.104).
E mais adiante diz que este gênero de relação entre grandes potências e países mais fracos sempre existiu que, “na época do imperialismo capitalista tornam-se sistema geral” (LENIN, 1975, p.105).
[2] Concorrência e monopólio se constituem em uma unidade. O monopólio opõe limitações à “livre concorrência” e esta opõe limitações à “livre” ação dos monopólios.
“Ao mesmo tempo, os monopólios, que derivam da livre concorrência, não a eliminam, mas existem acima e ao lado dela, engendrando assim contradições, fricções e conflitos particularmente agudos e bruscos” (LENIN, 1975, p. 107).
(3)
O fato de que Lenin nos deixou uma profunda análise do imperialismo,
análise que ele mesmo reconhece limitada pelas condições
em que seu trabalho foi realizado, não nos desobriga da necessidade de
aprofundar o seu trabalho e realizar a análise concreta do imperialismo
nos dias de hoje.
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