“As Conchambranças de Quaderna”
de Ariano Suassuna no Sesc Ginástico - Rio de Janeiro

O universo lírico, criativo, crítico, sertanejo e universal de Ariano Suassuna está de volta aos palcos em As Conchambranças de Quaderna, no Teatro Sesc Ginástico, no centro do Rio de Janeiro. São duas engraçadíssimas estórias: “Casamento com cigano pelo meio” e “A Caseira e a Catarina” narradas por Quaderna – “ rei e palhaço, misto de Quixote e Sancho, astrólogo, charadista, bibliotecário, profeta, intelectual megalomaníaco”, personagem do “Romance d’ A Pedra do Reino”. A atual montagem, inspirada em circo e danças populares, com excelentes elenco, músicos, cenário, figurinos, iluminação e direção fica em cartaz até dia 14 de março.



As Conchambranças de Quaderna
Carlos Newton Junior

Ariano Suassuna escreveu As Conchambranças de Quaderna em 1987, após um afastamento de 26 anos do teatro. Tal afastamento iniciou-se após a escritura de “A Caseira e a Catarina”, peça em um ato, montada em 1961, sob a direção de Hermílio Borba Filho. A partir daí, o autor passa a dedicar-se a uma trilogia de romances que ficou inacabada, intitulada “Quaderna, o Decifrador” e iniciada com o “Romance d’ A Pedra do Reino”, escrita de 1958 a 1970.

A peça As Conchambranças de Quaderna representa uma espécie de exceção do ponto de vista dos procedimentos criativos de Suassuna. Isto porque o autor, para escrevê-la, partiu de dois textos em prosa, dois capítulos da trilogia acima referida que chegaram a ser publicados na “Seleta em prosa e verso de Ariano Suassuna”, organizada por Silviano Santiago, em 1974 – “O caso do coletor assassinado” e “O casamento” (cujo ato correspondente, na peça, recebe o título de “Casamento com cigano pelo meio”). Os textos serviram de base para os dois primeiros atos. A esses dois, Suassuna acrescentou um terceiro, adaptado de “A Caseira e a Catarina”, peça que, por sua vez, foi baseada em uma história real, divulgada através de uma curiosa notícia de jornal, e que dava conta da queixa que certa mulher prestara às autoridades contra o diabo, por este não ter cumprido a promessa de levar seu marido para o inferno.

Conchambrança é uma corruptela de conchamblança, que significa conchavo, ajuste, combinação. Segundo o autor, foi na forma de conchambrança que ele ouviu a palavra pela primeira vez, no sertão da Paraíba. Forma que se ajusta perfeitamente ao universo da peça, uma vez que o protagonista, Pedro Quaderna, traz a público algumas de suas lembranças, contando-nos três imbróglios em que tomou parte e nos quis teve de fazer uma série de conchavos para resolver as situações a contento, tirando proveito, no final, de tudo e de todos. Cada um dos três atos, portanto, funciona como uma pequena peça independente, e é Quaderna, o narrador, quem costura os episódios entre si, proporcionando a unidade da peça maior.

Ressalte-se que, na montagem que ora se apresenta, sob direção da atriz, intérprete e diretora Inez Viana, optou-se pela redução do texto original, eliminando-se o primeiro ato, opção que em nada prejudica a peça de Suassuna, pelos motivos que acabamos de expor.

O Quaderna que sobe ao palco é o mesmo personagem de “A Pedra do Reino”, Pedro Dinis Ferreira-Quaderna, rei e palhaço, misto de Quixote e Sancho, astrólogo, charadista, bibliotecário, profeta, intelectual megalomaníaco. Por conta de alguns de seus hábito e manias, é natural que o início da peça cause certo estranhamento naqueles que não tiveram a oportunidade de conhecê-lo no romance. Nada, porém, que arrefeça a simpatia que o personagem certamente despertará no espectador com o correr da encenação, até porque os episódios que compõem as Conchambranças ressaltam o lado de sua personalidade mais ligado ao risível. O Quaderna, aqui, é o quengo, o sertanejo que se vale da astúcia para sobreviver, alcançar alguma notoriedade e adquirir certas vantagens no seu mundo de senhores de terras, boiadeiros, ciganos, catarinas e donzelas doidas para casar.

Parabéns, portanto, a Inez Viana e a todo o elenco, pela iniciativa de levarem ao palco, pela primeira vez fora do Nordeste, esta grande peça de teatro, ainda inédita em livro e praticamente desconhecida do público brasileiro, mas de importância enorme no conjunto maior da dramaturgia de Ariano Suassuna.


Recife, janeiro de 2010.

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As Conchambranças de Quaderna
Autor – Ariano Suassuna
Direção – Inez Viana

Elenco:
Leonardo Brício – Quaderna
Dani Barros – Comadre Perpétua e Dona Júlia Souza
Débora Lamm – Mercedes e Carmelita
Ricardo Souzedo – Cumpadre Corsino e Doutor Juiz Rolando Sapo
Iano Salomão – Quintino Estrela e Manuel Souza
Diogo Camargos – Laércio Peba e Dr. Ivo Beltrão
Zé wendell – Cigano Pereira e Frei Roque
Junior Dantas – Seu Aristides e Pedro Cego
Viviane Câmara – Aliana e Adélia

Músicos – Thaís Ferreira e Guilherme Bedran

Local: Teatro SESC Ginástico
Av. Graça Aranha, 187, Centro – Rio de Janeiro
Tel: 2279-4027 horários de atendimento: de terça a domingo, das 13h às 20h

Até 14 de março, de quinta a domingo (exceto 11 a 14/2), 19h.
Ingressos: R$ 5 (comerciários), R$ 10 (estudantes, idosos), R$ 20.
Classificação etária: 14 anos.
Capacidade: 513 lugares.
Duração: 1h 40min.

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08/fevereiro/2010