Companhia do Latão apresenta espetáculo teatral em São Paulo

"Ópera dos Vivos – Estudo Teatral em 4 Atos"

De 15 de janeiro a 13 de março de 2011

Sábados e Domingos, às 19h - Dia 25 janeiro - terça-feira, feriado, às 19h

Local: SESC Belenzinho -
Salas de Espetáculos I e II
Rua Padre Adelino, 1000 - CEP 03303-000
Tel: (11) 2076 9700 - São Paulo / SP - Belém
email@belenzinho.sescsp.org.br - 0800 11 8220

4h com intervalo de 20 min

Classificação: não recomendado para menores de 16 anos

Atuação: Adriana Mendonça, Ana Cristina Petta, Carlota Joaquina, Carlos Escher, Helena Albergaria, Ney Piacentini, Renan Rovida, Rodrigo Bolzan, Rogério Bandeira

Direção musical: Martin Eikmeie

Músico: Maurício Braz

Criação audiovisual: Luiz Gustavo Cruz

Iluminação: Melissa Guimarães

Coordenação de pesquisa: Roberta Carbone

Cenografia e figurinos: Renato Bolelli Rebouças e Vivianne Kiritani

Adaptação de arte para São Paulo: Carlos Escher

Direção de produção: João Pissarra

Dramaturgia e direção: Sérgio de Carvalho

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Quatro vezes Cia. do latão

Por Maria Eugênia de Menezes

Caixas e pacotes atravancam o caminho. Embrulhos no chão espalham-se por todos os cantos. Na sede da Companhia do Latão, em uma casa da Vila Madalena, o clima é de mudança. Terminado o ensaio, o grupo parte para embalar cenários e figurinos. Entrega-se aos últimos preparativos antes da partida para o Rio de Janeiro. É lá que o coletivo paulistano dirigido por Sérgio de Carvalho estreia, na quinta, seu espetáculo mais recente, Ópera dos Vivos. E é no CCBB carioca que eles devem permanecer por dois meses antes de voltar a São Paulo.

Não é a primeira vez que o Latão atravessa a ponte aérea para apresentar um novo trabalho. Foi assim também em 2006, quando fizeram a primeira temporada de O Círculo de Giz Caucasiano, de Bertolt Brecht, no mesmo Centro Cultural Banco do Brasil. O retorno agora tem a ver com a boa relação que conseguiram estabelecer com a instituição, explica o diretor. Mas também com as condições físicas ideais que encontraram para encenar Ópera dos Vivos, uma montagem de arcabouço grandioso, que contempla não uma, mas quatro peças. No Rio, eles terão duas salas, onde conseguiram criar ambientes distintos para receber o público em cada um desses módulos, que serão apresentados juntos e duram cerca de três horas e meia. “É nossa maior produção do ponto de vista logístico”, lembra Carvalho. “Não é uma peça, mas um estudo teatral apresentado em quatro atos.”

A nortear e amalgamar as diferentes partes de Ópera dos Vivos aparece de fundo uma discussão sobre a função do artista e o lugar da arte. E tudo isso é tratado não apenas na chave das artes cênicas, mas em linguagens que não são aquelas que esperamos encontrar em uma peça de teatro: abarcando códigos próprios da televisão, da música popular e do cinema. “Trata-se de uma reflexão sobre a arte, mas também sobre a forma artística, por isso queríamos também nos exercitar em outros formatos, como o audiovisual”, comenta o diretor.

Se no primeiro módulo, a plateia se depara com os ensaios de uma peça sobre as ligas camponesas, na etapa seguinte verá um telão descer à frente da arquibancada e acompanhará um filme de 45 minutos, rodado pelo próprio grupo. Com ecos da filmografia de Glauber Rocha, especialmente do controverso Terra em Transe, a gravação dá conta da história do banqueiro de uma cidade fictícia chamada Cabidal, que se apaixona por uma atriz: ele se vê em meio a uma luta ideológica sem encontrar posição dentro dela - frequenta a esquerda, mas também dá dinheiro para a televisão que apoia um golpe militar. “Mas tudo aparece alegoricamente. Nada é tratado de forma realista”, ressalva o diretor.

Clara menção ao golpe brasileiro de 1964, a tal alegoria contamina todos os atos do espetáculo. E, em três deles, a companhia lança mão de um recuo ao passado, justamente para rever o momento que antecedeu a subida dos militares ao poder. Esse deslocamento temporal, porém, não serve a um revisionismo de episódios que marcaram a época e escapa de qualquer leitura sentimental. É apenas uma forma de enxergar questões atuais com distanciamento, conceito brechtiano que costuma pautar o trabalho do grupo.

“As quatro peças são sobre a atualidade, mas voltam-se para o que havia como possibilidade de produção artística no período imediatamente anterior ao surgimento da indústria cultural”, aponta Carvalho. Para ele, mais um motivo para localizar Ópera dos Vivos em outro momento histórico é o peso que os anos 1960 ainda exercem sobre o pensamento nacional. Apesar das mudanças, ainda estaríamos, de certa maneira, presos a conceitos e categorias transplantados desse período. Deslocados no tempo.

A lógica da televisão. No último ato do espetáculo, o espectador retorna aos dias atuais e a trama se detém sobre aquilo que seria a gravação de um programa de TV. O enredo serve de mote para a discussão de muito daquilo que o Latão observa desde 2007, quando se lançou em um extenso projeto de revisão de sua trajetória de dez anos. Foi aí que filmou peças de seu repertório e levou dois novos trabalhos, Senhorita L e Ensaio sobre a Crise, à televisão. Nesse contexto de aproximação com o audiovisual, o grupo se deparou com modelos de produção pautados pela lógica industrial, pouco afeitos ao improviso e ao imprevisto. “Arte tem a ver com relações de trabalho”, sentencia o diretor. E, na sua visão, as relações de trabalho no campo cultural - inclusive no teatro - vão ficando cada vez mais mercantilizadas, alienadas. “Um câmera que não sabe o que está filmando não tem como contribuir com nada. Precisa aplicar aquilo que seria uma técnica neutra. Mas o fato é que nenhuma técnica é neutra. Toda ideologia artística se relaciona necessariamente com a forma como aquela expressão artística foi construída.”

CRONOLOGIA

Um teatro político

1996

Ensaio sobre Danton

Espetáculo de Georg Büchner lança o grupo, que faz um cuidadoso trabalho de investigação do teatro épico

1999

O Nome do Sujeito

Primeira obra completamente autoral do grupo, inspira-se em livro de Gilberto Freyre

2000

Comédia do Trabalho

Peça sonda as relações de trabalho e as contradições do modo de produção capitalista
2002

Auto dos Bons Tratos

Retoma pesquisa do teatro dialético para olhar para o Brasil colonial, no século 16

2004

Equívocos Colecionados

Reflexão da companhia sobre o livro homônimo do dramaturgo alemão Heiner Müller

2006

Círculo de Giz Caucasiano

O Latão retorna à obra de Bertolt Brecht, nesta peça que é uma reflexão sobre a justiça e a questão da terra

O original encontra-se em www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100921/not_imp612762,0.php

Reproduzido de http://blog.companhiadolatao.com.br/

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ENTREVISTA COM SÉRGIO DE CARVALHO SOBRE ÓPERA DOS VIVOS

Por Luiz Felipe Reis

UM PASSEIO PELA CULTURA EM QUATRO ATOS - Espetáculo combina teatro, música, cinema e TV

Sérgio de Carvalho deixa a sala de teatro, caminha em direção ao hall de elevadores, solicita o quarto andar à ascensorista e salta em passos ligeiros até a sala de número 26.

Além de uma porta de madeira que dá acesso ao lugar, ele atravessa uma outra, cenográfica, e para no meio do que parece ser um estúdio de TV, com refletores, cenário e fundos azuis em chroma-key. E é assim que deve parecer a tal sala a quem fizer o mesmo percurso do diretor a partir de hoje, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), com a estreia de “Ópera dos vivos — Estudo teatral em 4 atos”. Segmentada, a montagem assinada pela Cia. do Latão se inicia no Teatro 2 e entre o terceiro e o quarto atos retira a plateia da sala e a conduz num passeio pelas dependências do CCBB até a chegada ao estúdio, onde uma minissérie sobre os anos 60 está sendo rodada.

— Aqui é onde ocorre o ato final, passado na atualidade, num corte de 40 anos em relação ao terceiro ato — explica o diretor e fundador da companhia paulistana.

Em cena, um ator que experimentou a maior parte da carreira entre as turbulências políticas e a ebulição artística dos anos 60 e 70 se recusa a humanizar um torturador, numa cena de morte. Para a equipe da minissérie, aquele é um debate insignificante. Afinal, o que importa é a boa execução da cena, da máquina, ou seja, a forma final de um produto televisivo.

Nada demais… Certo? Para Sérgio de Carvalho, não.

— A cena revela que o conteúdo não importa, num tempo em que você diz para a arte se ela funciona ou não. O que vale é a eficácia, e não critérios mais profundos. No fundo, o que está em jogo na montagem são as relações de trabalho atuais, em que as pessoas já não têm mais voz ou controle sobre o processo — conta o diretor.

— Tudo nasceu de experiências vividas por nós. Fizemos um programa de TV e percebemos que as relações estão tão especializadas e técnicas que não há mais espaço para a improvisação e para um debate coletivo. Foi uma situação de atrito notar isso tudo.

E é exatamente um debate coletivo que provoque certa inquietação que o autor e diretor planeja estimular ao longo das três horas e meia de “Ópera dos vivos”, primeira encenação autoral escrita pela Cia. do Latão desde 2004.

— Em 14 anos de grupo, sinto que esta peça põe em jogo com mais força as nossas ideias. Acho que vamos gerar debates, por cobrar uma posição do espectador. A peça provoca reações e mobiliza porque o tema é atual. Fiz o texto a partir de recortes de pensamentos e ideias que estão nos jornais. Usei frases de colunistas, desde as mais sórdidas até as mais geniais. Foi muito importante voltar a escrever uma peça própria, depois de fazer “O círculo de giz caucasiano” (2006). Assim como no início da companhia, voltamos a nos perguntar por que fazer teatro, mas com uma alegria que eu não via há um bom tempo.

Meta é rodar o país com a peça

Combinando teatro, música, cinema e TV, a dramaturgia dialoga com elementos que marcaram o panorama cultural brasileiro nos últimos 50 anos, nos períodos pré e pós ditadura militar. Experimentações teatrais, do Centro Popular de Cultura (CPC) e do Teatro de Arena; cinematográficas, com a chegada do Cinema Novo; e musicais, com o surgimento da Tropicália, recheiam um caldeirão que levou quatro anos para ser devidamente deglutido e transformado em espetáculo teatral. No palco, “Ópera dos vivos” investiga a evolução e a mecanização da produção cultural, a mudança nas relações profissionais e artísticas e a quebra de antigas ideologias pela substituição de outras a partir dos anos 60.

— Fico espantado em ver pessoas que tiveram uma prática na militância de esquerda falsificando a própria experiência em nome de uma adesão genérica a todo tipo de mitificação atual, abraçando estereótipos supostamente progressistas.

A peça é irônica com a ideologia que se forma, com as pessoas que aderem a ideias de que o passado era uma época ilusória ou de que a arte política era populista. A peça é sobre essa perda de perspectiva crítica, substituída por clichês e mentiras.

Em seu ato de abertura, “Sociedade mortuária”, a peça convida a plateia a subir ao palco para investigar a origem das ligas camponesas, um dos temas centrais do teatro político brasileiro no período pré-64. Já o segundo ato transforma o teatro em cinema, com a exibição do médiametragem “Tempo morto — Um filme sobre o Golpe”, enquanto o terceiro apresenta a música popular no contexto da indústria cultural, com o show “Privilégio dos mortos”, e o último ato, “Morrer de pé”, analisa a mercantilização da produção televisiva. Como o título da obra e a estrutura da peça sugerem, cada uma de suas quatro partes tem vida própria, e Sérgio ainda estuda como fazer para rodar o país com um de seus mais ambiciosos projetos.

— Cada ato tem a ver com a função da arte, e cumpre mostrar que atravessamos um tempo em que o artista está condicionado a padrões. Sinto que há uma perda grande de senso crítico. E por isso quero rodar pelo Brasil — diz.

O original encontra-se em http://sergyovitro.blogspot.com/2010/09/um-passeio-pela-cultura-brasileira-em.html

Reproduzido de http://blog.companhiadolatao.com.br/

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25/janeiro/2011