Nas telas, samba de São Paulo

Um Homem de Moral

O zoólogo Paulo Vanzolini encantou-se da cidade e de alguns de seus personagens (o povo, no geral, não no individual, como ele esclarece logo no início), o que rendeu belos sambas. O diretor, amigo do zoólogo e compositor bissexto, realizou um filme em que o sambista, sua cidade e personagens aparecem encantados em enquadramentos, imagens, interpretações, em resultado tocante.

Um Homem de moral, mais que uma homenagem aos 85 anos do compositor (nas horas vagas) e eminente zoólogo é também um terno olhar sobre São Paulo, traduzida por seu povo e espaços em que ele transita seus desencantos e alegrias. Mas se tem cidade, tem um pouco de mata adentro, de interior, de garça e “Cuitelinho”.

O diretor Ricardo Dias já havia realizado em 1995 com Paulo Vanzolini, zoólogo, o documentário No Rio das Amazonas e, em 1992, o curta Os Calangos do Boiaçú.

O documentário traz também cenas das gravações da caixa de CDs “Acerto de Contas” (uma antologia da obra de Vanzolini lançada pelo selo Biscoito Fino) e interpretações de suas canções em show com vários convidados, além de depoimentos, alguns emocionantes e impagáveis como o de Adoniran Barbosa.

Márcia, Paulinho Nogueira, Paulinho da Viola, Chico Buarque, Miúcha, Inezita Barroso, Virgínia Rosa, o Bando de Macambira, Elton Medeiros, Martinho da Vila (com a irônica “Juízo Final”), Maria Marta, o bandolinista Izaías, entre outros, apresentam as canções. Ao final, populares dão sua canja; fica a vontade de aplaudir e voltar a ver o filme novamente.

Antes que saia de cartaz, confira:

Um homem de moral
Brasil, 2009. Duração: 84 minutos
Diretor: Ricardo Dias
Com um grande elenco de bambas.
Clique aqui para assistir o trailer

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Algumas músicas de Paulo Vanzolini

Volta Por Cima
Composição: Paulo Vanzolini

Chorei,
Não procurei esconder
Todos viram, fingiram
Pena de mim, não precisava
Ali onde eu chorei
Qualquer um chorava
Dar a volta por cima que eu dei
Quero ver quem dava

Um homem de moral não fica no chão
Nem quer que mulher
Venha lhe dar a mão

Reconhece a queda
E não desanima
Levanta, sacode a poeira
E dá a volta por cima

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Praça Clóvis
Composição: Paulo Vanzolini

Na praça Clóvis
Minha carteira foi batida
Tinha vinte e cinco cruzeiros
E o teu retrato
vinte e cinco
Eu, francamente, achei barato
Pra me livrarem
Do meu atraso de vida

Eu já devia ter rasgado
E não podia
Esse retrato cujo olhar
Me maltratava e perseguia
Um dia veio o lanceiro
Naquele aperto da praça
vinte e cinco
Francamente foi de graça

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Cuitelinho
Composição: Paulo Vanzolini / Antônio Xandó

Cheguei na beira do porto
Onde as onda se espaia
As garça dá meia volta
E senta na beira da praia
E o cuitelinho não gosta
Que o botão de rosa caia, ai, ai
Ai quando eu vim
da minha terra
Despedi da parentáia
Eu entrei no Mato Grosso
Dei em terras paraguaia
Lá tinha revolução
Enfrentei fortes batáia, ai, ai
A tua saudade corta
Como aço de naváia
O coração fica aflito
Bate uma, a outra faia
E os óio se enche d'água
Que até a vista se atrapáia, ai...

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Capoeira do Arnaldo
Composição: Paulo Vanzolini

Quando eu vim da minha terra
Passei na enchente nadando
Passei frio, passei fome
Passei dez dias chorando
Por saber que de tua vida
Pra sempre estava passando
Nos passo desse calvário
Tinha ninguém me ajudando
Tava como um passarinho
Perdido fora do bando
Vamo-nos embora, ê ê
Vamo-nos embora, camará
Presse mundo afora, ê ê
Presse mundo afora, camará

Quando eu vim da minha terra
Veja o que eu deixei pra trás
Cinco noivas sem marido
Sete crianças sem pai
Doze santos sem milagre
Quinze suspiros sem ai
Trinta marido contente
Me perguntando "já vai?"
E o padre dizendo às beata
"Milagre custa, mas sai"

Vamo-nos embora, ê ê (...)

Quando eu vim da minha terra
Num sabia o que é sobrosso
Sabença de burro velho
Coragem de tigre moço
Oração de fechar corpo
Pendurada no pescoço
Rifle do papo-amarelo
Peixeira de cabo de osso
Medalha de Padre Ciço
E rosário de caroço
Pra me alisar pêlo fino
E arrepiar pêlo grosso
Que eu saí da minha terra
Sem cisma
Susto ou sobrosso

Vamo-nos embora, ê ê (...)

Quando eu vim da minha terra
Vim fazendo tropelia
Nos lugar onde eu passava
Estrada ficava vazia
Quem vinha vindo, voltava
Quem ia indo, não ia
Quem tinha negócio urgente
Deixava pro outro dia
Padre largava da missa
Onça largava da cria
E os pai de moça donzela
Mudava de freguesia
Mas tinha que fazer força
Porque as moça num queria

Vamo-nos embora, ê ê (...)

Eu sai da minha terra
Por ter sina viageira
Cum dois meses de viagem
Eu vivi uma vida inteira
Sai bravo, cheguei manso
Macho da mesma maneira
Estrada foi boa mestra
Me deu lição verdadeira
Coragem num tá no grito
E nem riqueza na algibeira
E os pecado de domingo
Quem paga é segunda-feira

Vamo-nos embora, ê ê (...)

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Ronda
Composição: Paulo Vanzolini

De noite eu rondo a cidade
A te procurar sem encontrar
No meio de olhares espio em todos os bares
Você não está
Volto pra casa abatida
Desencantada da vida
O sonho alegria me dá
Nele você está

Ah, se eu tivesse quem bem me quisesse
Esse alguém me diria
Desiste, esta busca é inútil
Eu não desistia
Porém, com perfeita paciência
Volto a te buscar
Hei de encontrar
Bebendo com outras mulheres
Rolando um dadinho
Jogando bilhar
E neste dia então
Vai dar na primeira edição
Cena de sangue num bar
Da avenida São João

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21/junho/2009