Tributo a Jacob do Bandolim

O Centro Cultural Antonio Carlos Carvalho, com este tributo, homenageia Jacob do Bandolim, trazendo nesta publicação sua discografia completa, gentilmente cedida pelo músico e estudioso do Choro, Sergio Prata. E, a partir desta iniciativa, tem a intenção de gerar outras que levem o Choro, o Tributo a Jacob, a bairros populares, particularmente a escolas públicas e comunidades. E nesse sentido, aspira cumprir com objetivos da entidade de realizar um trabalho de resgate teórico e prático de questões que envolvem o desenvolvimento histórico e cultural do povo brasileiro.

O Choro

Uma das mais legítimas expressões da música popular brasileira, surgida no Rio de Janeiro no final do século XIX, o Choro mantém-se vivo e com uma influência crescente em nossos dias. Em rodas de choro, na dedicação e exercício constante de vários mestres e novos aprendizes, no registro de gravações, livros, pesquisas e eventos, conquistando gerações e gerações de músicos e público.

Nascido como uma maneira de tocar melodias derivadas da polca, evoluiu para um gênero da música popular brasileira. Era executado inicialmente por modestos funcionários públicos dos Correios, da Alfândega, da Central do Brasil, de bandas militares e por operários têxteis, entre outros. Alguns deles – que tocavam cavaquinho – aprendiam uma polca de ouvido e passavam-na para violonistas, que nela exercitavam modulações.

Com a repetição dessas passagens, segundo José Ramos Tinhorão, os violonistas acabavam “fixando determinados esquemas modulatórios, os quais, por se verificarem sempre nos tons mais graves do violão, acabariam se estruturando sob o nome genérico de baixaria”. E estes sons graves, plangentes seriam “os responsáveis pela impressão de melancolia que acabaria conferindo o nome de choro a tal maneira de tocar, e a designação de chorões aos músicos de tais conjuntos, por extensão.” (Tinhorão, J. R. Pequena história da música popular, Círculo do Livro, São Paulo, s/d).

Entre os primeiros grandes compositores e “chorões”, as figuras de Callado, Chiquinha Gonzaga, Anacleto de Medeiros, Ernesto Nazareth se destacam. Nesse primeiro período, até início do século XX, o Choro torna-se muito popular, difundindo-se em serenatas nas ruas, em bailes de casas de família do subúrbio carioca. Muito da história de centenas de músicos “anônimos” foi resgatada pelo carteiro-chorão Alexandre Gonçalves Pinto em seu livro “O choro – reminiscências dos chorões antigos”, publicado em 1936.

Durante várias décadas do século XX, o gênero revelou novas e excepcionais safras de músicos, com Candinho Trombone, Pixinguinha, Jacob do Bandolim (que posteriormente criou o Regional Época de Ouro), o Regional do Canhoto com o insuperável duo de violões Dino-Meira, Benedito Lacerda, os solistas Altamiro Carrilho, Waldir Azevedo, e foi envolvendo outros grandes músicos, como Luperce Miranda, Sivuca. E ainda viriam, Déo Rian, Joel Nascimento, Zé da Velha, Isaías (São Paulo), entre outros bambas. O rádio, durante algum tempo, a partir dos anos 30, torna-se importante meio para a apresentação dos músicos, quando grupos de chorões se transformam em regionais. Mas o impacto da influência e da imposição comercial da música norte-americana, inicialmente através de suas jazz bands, viria tolher o espaço destes músicos brasileiros.

Outro momento marcante na história do choro foi a fecunda década de 70 passada. O gênero se revigora em novas gerações de chorões. São instrumentistas com formação musical, que retomam o choro, pesquisando suas raízes. Sem a preocupação ou necessidade de acompanhar cantores e sambistas, vários novos grupos se formam resgatando o choro com algumas de suas características originais - instrumental, apresentado em espaços menores, casas, bares, garantindo nas apresentações o clima de convívio e diálogo musical entre os chorões.

Jacob do Bandolim

Tocava de olhos fechados, apertando o minúsculo e pobre
instrumento contra o peito. Muitas vezes chorou tocando.
Ou melhor: sempre chorou tocando

Sergio Bittencourt

Autodidata, reconhecido como virtuose do bandolim e da emoção, Jacob “chorava tocando”, “tirando do seu bandolim o som liberto e puro do coração”, nas palavras de seu filho, o jornalista e compositor Sérgio Bittencourt. E assim, conquistou o respeito, a admiração do público e de diversos músicos e compositores, como Radamés Gnatalli, que dedicou-lhe a Suíte Retratos. Sua obra é referência para todo músico de choro, no Brasil e no exterior.

Os saraus que promovia em sua casa em Jacarepaguá, reunindo instrumentistas, compositores, amigos, amantes do choro, ficaram famosos. Muitos foram por ele registrados em fitas de gravador. Seu perfeccionismo, sua capacidade de improvisação, fazendo variações sobre um mesmo tema por mais de quinze minutos, sem repetições, emocionavam o público, que lhe retornava o sentimento.

Noites cariocas, Receita de samba, A ginga do Mané, Doce de coco, Assanhado, Treme-treme, Vibrações e O vôo da mosca são algumas de suas principais composições. Suas interpretações destes e outros clássicos do choro são antológicas e até hoje servem de base para as apresentações de novos bandolinistas.

Jacob, além de ter se transformado em referência para o gênero, como virtuose do bandolim e compositor, foi também dedicado pesquisador interessado na história, no registro, na presença do choro no ambiente musical brasileiro. Hoje, muitas músicas podem ser estudadas, apresentadas, graças ao árduo trabalho de Jacob de resgatá-las, gravá-las e preservar suas partituras.

Este pequeno tributo se coloca ao lado das iniciativas que destacam a importância da obra, da dedicação de Jacob do Bandolim ao choro e à música brasileira, sempre um valioso estímulo a músicos, pesquisadores, estudantes e apreciadores da cultura popular brasileira.

Trazemos aqui a publicação da laboriosa pesquisa empreendida por Sergio Prata, que resultou no levantamento completo de toda a discografia de Jacob do Bandolim e, posteriormente, na digitalização de toda sua obra na coleção Todo Jacob, de dezesseis Cds.

Maria Vicencia Pugliesi

 

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