O 11 de setembro de G.W. Bush

Há cinco anos, em 11 de setembro de 2001, as torres do World Trade Center, em Nova Iorque, e o Pentágono, em Washington, eram atingidos por aviões, por “ataques terroristas”.

Independentemente da responsabilidade pelos “ataques terroristas”, questão até hoje obscura, estes acontecimentos foram o pretexto usado pelo Estado norte-americano, governado por George W. Bush – com a fabricação da “guerra ao terrorismo” – para desencadear uma série de guerras imperialistas locais, como uma tentativa de contrarestar a crise de sua economia. Crise de sobreacumulação de capitais e superprodução de mercadorias, de queda da taxa de lucro e, assim, a tentativa de manter a posição dos EUA como potência imperialista hegemônica, com uma ofensiva militar, política, ideológica e econômica.

Em texto elaborado em setembro de 2001, já apontávamos na conjuntura internacional a tendência para o acirramento da luta de classes no mundo, e o “ataque terrorista” de setembro de 2001 como uma expressão deste acirramento.

A invasão do Afeganistão em 2001, a guerra contra o Iraque em 2003 e agora os massacres contra os povos palestino e libanês, as intervenções e ameaças na América Latina, Colômbia, Paraguai, Venezuela, patrocinadas pelos EUA, o terrorismo de Estado, fundamentalmente a fim de garantir zonas de influência de valorização do capital norte-americano, de garantir mercados e controlar as fontes de matéria-prima e energia, em particular petróleo e gás, comprovam esta tendência. E ampliam a resistência dos povos.

Resistência que vem impondo limites e forçando derrotas parciais aos planos iniciais dos EUA e aliados, dificultando a retomada de suas taxas de lucro, e estimulando a agudização de todas as grandes contradições do sistema imperialista, inclusive as contradições interimperialistas. Fenômeno que pode ser caracterizado pelo distanciamento e isolamento em relação ao bloco imperialista europeu (comandado pela Alemanha e França) que a ofensiva estadunidense vem experimentando, sobretudo na fase mais recente da invasão do Iraque, assim como nos massacres à Palestina e ao Líbano. Também nas relações com a Rússia, o Japão e a China, o bloco asiático, as contradições e o distanciamento tendem a se ampliar. As últimas guerras comandadas pelos EUA têm claramente um caráter de disputa com outros blocos e países imperialistas, em torno da dominação dos países e povos oprimidos.

Os números, somente da guerra ao Iraque, mais de 40 mil mortos (algumas fontes chegam a levantar mais de 100 mil mortos) em três anos de invasão, além das torturas em “prisões” (campos de concentração) recentemente vindas à tona, testes com armas químicas e outras atrocidades, desmascaram a “democracia estadunidense” (seu modo de vida) e tornam clara a única alternativa que o capitalismo é capaz de oferecer aos povos: a barbárie.

Na contramão, estão a resistência, a organização dos trabalhadores, a luta antiimperialista, a construção do socialismo. E por isso reafirmamos “A atual situação internacional abre novas possibilidades de avançar na construção e no desenvolvimento de movimentos populares, de massas, unitários e combativos, na luta contra a exploração e o imperialismo em todos os países. E o que é decisivo para cumprir este objetivo: avançar na resolução das contradições no movimento comunista para forjar sua unidade e organização, combatendo o revisionismo, o reformismo, o esquerdismo pequeno-burguês e resgatando, desenvolvendo a teoria revolucionária da classe operária, indispensável para nortear uma prática revolucionária.”

***

Na passagem destes cinco anos da queda das torres do World Trade Center, trazemos um texto do Boletim do CeCAC (nº 9, ano VII) de outubro de 2001, em que já discutíamos causas e implicações do terrorismo de Estado norte-americano.

***

Guerra imperialista: terrorismo de Estado contra os povos

Os ataques que atingiram as duas torres do World Trade Center e o Pentágono expressam o estado da luta de classes no mundo. De um lado, expressam o agravamento da exploração do imperialismo sobre os povos dos países dominados e trabalhadores e operários de seus próprios países, exploração que se agrava na última década resultado da longa crise do imperialismo, crise que se inicia no começo da década de 70 e vem se aprofundando com a “globalização”, lançando milhões de pessoas na miséria e no desespero; de outro, a defensiva da classe operária e dos povos dominados na luta de classes, manifesta na dificuldade em retomar a luta de classes em sua forma mais avançada, tanto no campo organizativo quanto no campo teórico.

A insustentabilidade objetiva de prosseguir a exploração capitalista, expressa na crise, se materializa também - diante do recuo da classe operária em desencadear as formas mais conseqüentes de luta de classes - na sua imposição por formas cada vez mais irracionais, que leva a reações de cólera e vingança como as que se manifestaram nos ataques ao World Trade Center e ao Pentágono. Venham eles de grupos da direita americana ou, como quer o governo dos EUA, de organizações dos povos oprimidos.

Alternativa do imperialismo: a “globalização"

A “globalização” foi a alternativa dos Estados imperialistas para defenderem os interesses de suas burguesias, dos seus grandes monopólios, para enfrentar as profundas crises de superprodução e de queda das taxas de lucro. É uma política de intensificação do poder de dominação do capital financeiro internacional para centralizar todas as fontes possíveis de lucro no mundo e que tem como pressupostos as liberalizações, as desregulamentações e as privatizações, buscando desta forma manter as taxas de lucro.

É um novo momento de agravamento da crise do sistema imperialista no qual a valorização do capital financeiro ocorre cada vez mais na especulação, em detrimento do setor produtivo, gerando mais desemprego e empobrecimento das massas. É a exploração, a opressão levadas a limites extremos, como fica evidente, no final da década de 90, quando a falácia ideológica neoliberal do “fim da história”, da “era de progresso” se esgota, se desmascara, com a crise se instaurando em diversos países.

A recessão nos EUA

É neste contexto que no primeiro semestre deste ano a crise atinge a economia norte-americana, que na última década foi a grande beneficiada com a política neoliberal e, sendo o setor “mais dinâmico” do sistema capitalista, puxa a acumulação e reprodução do capital internacionalmente. A crise torna-se global, envolvendo, ao mesmo tempo, todos os blocos imperialistas: o asiático, o europeu e o americano. Portanto, a recessão que se abate sobre a economia norte-americana – diminuição da produção industrial, do PIB e dos investimentos, com aumento do desemprego – tem enorme poder de propagação, agravando as crises de superprodução e financeira no mundo. Mas a crise atinge os países e blocos imperialistas de forma diferenciada, específica, a partir das suas próprias contradições internas, apontando, nesse sentido, para a disputa pela hegemonia e para guerra interimperialista.

Em sinergia com o revisionismo...

No século XX presenciamos a vitória das revoluções anticoloniais, antiimperialistas e anticapitalistas, sendo que um terço da população mundial viveu no socialismo. A ofensiva e hegemonia da política neoliberal, a saída encontrada pelo imperialismo para adiar sua derrota definitiva tem uma correspondência direta e determinante com o crescimento do oportunismo e do revisionismo no seio do movimento revolucionário no mundo, a partir do XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética, em 1956. Nos últimos 25 anos a hegemonia do oportunismo no campo revolucionário se tornou esmagadora, o que levou à degeneração da maioria dos Partidos Comunistas, do movimento operário e dos movimentos de libertação e à restauração completa do capitalismo na URSS e em outros países socialistas. Este recuo das posições proletárias, do socialismo na luta de classes foi decisivo para criar uma correlação de forças internacional favorável para o imperialismo impor sua política de aprofundamento da exploração e da barbárie. Mas são vitórias temporárias do imperialismo e do revisionismo.

Superexploração, estímulo à divisão

A luta de classes em nível mundial evidentemente continua presente e a política do imperialismo vai intensificando um conjunto de contradições, desde as interimperialistas até as entre os países opressores e países oprimidos, sendo esta última a contradição que mais se agudiza, pois é neste ponto que os países imperialistas estabelecem uma aliança para contrarrestar a crise. E além da opressão econômica dos países dominados, da superexploração dos trabalhadores, a globalização imperialista também significa para estes países o reforço à antiga tática colonialista de estimular todo tipo de divisões religiosas, raciais e nacionais entre as massas oprimidas, para dificultar e impedir um enfrentamento revolucionário e unitário à opressão, com perspectivas de vitória.

Antigos aliados. Atuais inimigos

É nesta conjuntura de aprofundamento das contradições mundiais e de desenvolvimento da luta do proletariado e, principalmente, dos povos das nações oprimidas contra a dominação imperialista comandada pelos EUA que acontecem os ataques em Nova Iorque e Washington. Eles são uma expressão do aumento da tensão na luta de classes no mundo, porém uma manifestação não revolucionária em resposta às agressões e ao terrorismo de Estado norte-americano.

Foram executados, supostamente, por grupos anteriormente organizados pela própria CIA para se contrapor aos movimentos revolucionários e dividir os povos. Antigos aliados, atuais inimigos.

Ataques que vêm a calhar...

Antes dos ataques de 11 de setembro, Bush – defensor dos interesses do grande capital de seu país – já apontava uma saída belicista para enfrentar o agravamento da crise. É uma tentativa de manter a hegemonia econômica dos EUA através do poderio militar, impondo-se diante dos dois outros blocos imperialistas e intensificando a opressão sobre os países dominados. Uma das saídas para a crise interna americana é a dinamização do setor produtivo, que cria valor real (e não principalmente virtual, como o financeiro). E no caso, o complexo industrial-militar, a produção bélica, uma das mais lucrativas, é uma alternativa dos países imperialistas para sair da recessão e reativar, queimando capital, a produção. Nesse sentido, o Estado norte-americano utiliza como pretexto os ataques aos EUA, a ameaça do “terrorismo”, cria uma “guerra contra o terrorismo” para justificar estes objetivos e, também, preparar novos genocídios contra a humanidade, contra os povos que se rebelam frente à sua dominação.

O maior terrorista da história

Na verdade, o terror internacional é executado principalmente pelo Estado norte-americano, que veio marcando com sangue a história mais recente da humanidade. Podemos afirmar com segurança que o imperialismo, e o imperialismo norte-americano em particular, devido ao avanço da exploração e o desenvolvimento tecnológico dos meios de guerra, conseguiram fazer mais vítimas do que qualquer forma de exploração anterior. A série de guerras, bombardeios, invasões, bloqueios e golpes de Estado contra nações e povos que lutam pela sua emancipação e pela liberdade foram responsáveis pelo assassinato em massa de milhões e milhões de civis.

Como no caso das bombas atômicas lançadas nas cidades de Hiroshima e Nagasaki ao final da II guerra Mundial, com o Japão já derrotado, matando mais de 150 mil pessoas. O imperialismo norte-americano queria afirmar seu poderio militar e econômico no cenário internacional e tentar intimidar a União Soviética.

E das guerras contra a Coréia, de 1950 a 1953, que matou 3 milhões de civis e destruiu totalmente a sua capital, Pyongyang e contra o Vietnã, que matou mais de 1 milhão de pessoas onde, apesar da selvageria do emprego de armas químicas, bombas napalm, os EUA foram fragorosamente derrotados. As guerras contra o Iraque e, recentemente, contra a Iugoslávia. Somente o bloqueio econômico e as ações militares contra o Iraque matam 5.000 crianças por mês.

O apoio aos golpes militares na África, na Ásia – como em 1964 na Indonésia, ao ditador Suharto, com assassinato de 700 mil pessoas, mais de 100 mil comunistas – e na América Latina, como em 11 de setembro de 1973, quando foi assassinado o presidente do Chile, Salvador Allende, e instaurada a sanguinária ditadura de Pinochet.

E fora dos holofotes da imprensa, como resultado da exploração capitalista, dezenas de milhões morrem de fome e doenças, sendo as crianças as principais vítimas. “11 milhões de crianças morrem por ano em todos os continentes vítimas de falta de atenção e de condições básicas de saúde. São 30 mil por dia. Cinco World Trade Centers! Sem provocar comoção. No Brasil, segundo o Ministério da Saúde, 108 mil crianças morrem anualmente, antes de completar o primeiro ano de vida. São 18 World Trade Centers repletos de bebês por ano. Um e meio a cada mês! E não existe, em nenhum lugar, nenhum exército sendo formado, nenhum contingente se deslocando, nenhuma opinião pública mobilizada, ainda que dividida, pela erradicação de todos os males que vitimam essa população” (Milu Villela e Helio Mattar, “Os bebês e o World Trade Center”, Folha de S. Paulo, 30/9/2001).

Fascistização global

Outra característica da conjuntura internacional é o crescimento da fascistização política.

Dentro da estratégia de utilização maciça dos meios de comunicação na guerra ideológica e psicológica, o imperialismo vai propagandear a luta contra o terrorismo como o objetivo número um da humanidade, para tentar tirar a atenção de sua crise interna e reprimir os movimentos revolucionários, de libertação nacional, de defesa dos direitos humanos, identificando-os como “organizações terroristas”. E, desta forma, combater os povos e os trabalhadores que lutam contra a fome, a miséria e a exploração. Além dos preparativos para a guerra na Ásia Central e no Oriente Médio, são, também, manifestações deste posicionamento as acusações de que as FARC na Colômbia ameaçam os EUA, e a criação de uma unidade antiterrorismo na polícia do Rio de Janeiro chefiada por ex-agente do aparelho repressivo da ditadura, com a intenção de identificar possíveis grupos, conhecer sua composição e sua ideologia.

No caso das nações dominadas, a fascistização é acompanhada pelo ataque à soberania nacional, como no Brasil, com a ultrajante proposta (aceita pelo governo) de instalar em São Paulo um escritório da CIA e a entrega ao domínio absoluto norte-americano de uma parte do território brasileiro, o Centro de Lançamento de foguetes de Alcântara (MA).

Guerra rechaçada em todo o mundo

Os ataques que derrubaram os símbolos do poderio financeiro e militar dos EUA derrubaram também, para as massas proletárias e os povos oprimidos, o mito da invulnerabilidade militar e econômica do Estados Unidos e expuseram abertamente a decadência e as contradições do sistema imperialista. A crise econômica que já tinha atingido os EUA se aprofundou com os acontecimentos de 11 de setembro, levando o Estado norte-americano a colocar em prática a sua estratégia de recorrer à guerra, ao terrorismo imperialista contra os povos e a fazer uma intervenção estatal na economia que já passa de 100 bilhões de dólares de investimento para contrarrestar a sua crise. A velha receita keynesiana.

A perspectiva de guerra como resposta aos ataques aos EUA, da “guerra do bem contra mal”, da “civilização contra os povos bárbaros” aumentou a consciência e a luta antiimperialista das massas populares em todo o mundo, sendo a guerra imperialista rechaçada pela maioria da opinião pública mundial.

Avançar na luta contra o imperialismo

A atual situação internacional abre novas possibilidades de avançar na construção e no desenvolvimento de movimentos populares, de massas, unitários e combativos, na luta contra a exploração e o imperialismo em todos os países. E o que é decisivo para cumprir este objetivo: avançar na resolução das contradições no movimento comunista para forjar sua unidade e organização, combatendo o revisionismo, o reformismo, o esquerdismo pequeno-burguês e resgatando, desenvolvendo a teoria revolucionária da classe operária, indispensável para nortear uma prática revolucionária.

Boletim do CeCAC - Ano VII, nº 9 - Outubro-2001 - Rio de Janeiro

Este texto encontra-se em www.cecac.org.br

16/setembro/2006