Che vive, quarenta anos depois e sempre!

Che Guevara foi um revolucionário que arriscou e deu sua vida na luta antiimperialista e pelo socialismo. Argentino, comandante guerrilheiro da vitoriosa revolução cubana e dirigente do Estado cubano, caiu em combate na data de 8 de outubro de 1967, lutando em terras bolivianas.

Conhecido e admirado por uma prática sempre combativa, altiva e internacionalista, deixou entrever em alguns textos suas preocupações teóricas e com o estudo do marxismo-leninismo.

Outros revolucionários, como Lênin, realçaram a importância da teoria para a luta dos povos. Teoria que, para os revolucionários, tem sentido na medida em que guie a prática cotidiana e vislumbre os caminhos da vitória da revolução e da construção do socialismo.

Em carta de 1965, Che expõe a preocupação com o estudo e a cultura marxistas para a vanguarda e o povo:

Carta del Che Guevara a Armando Hart Dávalos,
Dar-Es-Salaam, Tanzania (4/XII/1965)

Meu querido Secretário:

Te felicito pela oportunidade que te deram de ser Deus; tens 6 dias para isso. Antes que acabes e sentes para descansar (...), quero te expor algumas idéias sobre a cultura de nossa vanguarda e de nosso povo em geral.

Nesse longo período de férias meti o nariz na filosofia, coisa que há muito tempo pensava fazer. Me deparei com a primeira dificuldade: em Cuba não há nada publicado, se excluirmos os tijolos soviéticos que têm o inconveniente de não te deixar pensar; já que o partido pensou por você e você deve digeri-lo. Como método é o mais antimarxista mas, além disso, costumam ser muito ruins. A segunda, e não menos importante, foi meu desconhecimento da linguagem filosófica (lutei duramente com o mestre Hegel e no primeiro round ele me derrubou duas vezes). Por isso fiz um plano de estudo que, creio, pode ser melhorado muito para constituir uma base de uma verdadeira escola de pensamento; já fizemos muito, mas algum dia teremos também que pensar. Meu plano é de leituras, naturalmente, mas pode se adaptar a publicações sérias da editora política.

Se você der uma olhada nessas publicações, poderá ver a profusão de autores soviéticos e franceses que existe.

Isto se deve à comodidade na obtenção de traduções e ao seguidismo ideológico. Assim não se dá cultura marxista ao povo, no máximo, divulgação marxista, o que é necessário, se a divulgação é boa (não é este o caso), mas insuficiente.

Meu plano é este:

I. Clássicos filosóficos.

II. Grandes dialéticos e materialistas.

III. Filósofos modernos.

IV. Clássicos da economia e precursores.

V. Marx e o pensamento marxista.

VI. Construção socialista.

VII. Heterodoxos e capitalistas.

VIII. Polêmicas.

Cada série tem independência em relação à outra e poderiam desenvolver-se assim:

(I) Toma-se os clássicos conhecidos já traduzidos em espanhol, acrescentando um estudo preliminar sério de um filósofo, marxista, se possível, e um amplo vocabulário explicativo. Simultaneamente, publica-se um dicionário de termos filosóficos e alguma história da filosofia. Talvez pudesse ser Dennyk [Guevara se refere a Dinnyk que organizou uma história da filosofia em cinco tomos] e a de Hegel. A publicação poderia seguir certa ordem cronológica seletiva, isto é, começar por um livro ou dois dos maiores pensadores e desenvolver a série até acabá-la na época moderna, retornando ao passado com outros filósofos menos importantes e aumentando os volumes dos mais representativos etc.

(II) Aqui se pode seguir o mesmo método geral, fazendo recopilações de alguns antigos (faz tempo li um estudo em que estavam Demócrito, Heráclito e Leucipo, realizado na Argentina).

(III) Aqui se publicariam os mais representativos filósofos modernos, acompanhados de estudos sérios e minuciosos de gente entendida (não tem que ser cubana) com a correspondente crítica quando representem os pontos de vista idealistas.

(V) [No original aparece o número IV riscado e retificado como V. A própria carta explica]. Já está sendo realizada, mas sem nenhuma ordem e faltam obras fundamentais de Marx. Aqui seria necessário publicar as obras completas de Marx e Engels, Lênin, Stálin [sublinhado por Che no original] e outros grandes marxistas. Ninguém leu nada de Rosa Luxemburgo, por exemplo, que tem erros na sua crítica de Marx (tomo III), mas morreu assassinada e tem o instinto do imperialismo superior ao nosso nesses aspectos. Faltam também pensadores marxistas que logo saíram dos trilhos, como Kautsky e Hilferding, mas que deram suas contribuições, e muitos marxistas contemporâneos não totalmente escolásticos.

(VI) Construção socialista. Livros que tratem de problemas concretos, não só dos atuais governantes, mas também do passado, fazendo averiguações sérias sobre as contribuições de filósofos e, sobretudo, de economistas e estadistas.

(VII) Aqui viriam os grandes revisionistas (se quiserem podem pôr o Krushev), bem analisados; mais profundamente que qualquer outro, deveria estar seu amigo Trotsky, que existiu e escreveu, segundo parece.
Além deles, grandes teóricos do capitalismo como Marshall, Keynes, Schumpeter etc. Também analisados a fundo com a explicação dos porquês.

(VIII) Como o nome indica, este é o mais polêmico, mas o pensamento marxista avançou assim. Proudhon escreveu Filosofia da miséria e se sabe que existe pela Miséria da Filosofia. Uma edição crítica pode ajudar a compreender a época e o próprio desenvolvimento de Marx, que não estava ainda completo. Estão Rodbertus e During nessa época e em seguida os revisionistas e os grandes polêmicos dos anos 20 na URSS, talvez os mais importantes para nós.

Vejo agora que me faltou um, e por isso mudo a ordem (estou escrevendo ao correr da pena).

Seria o IV, Clássicos da economia e precursores, onde estariam desde Adam Smtih, os fisiocratas etc.

É um trabalho gigantesco, mas Cuba o merece e creio que poderia tentá-lo. Não te canso mais com isto. Te escrevi porque meu conhecimento dos atuais responsáveis pela orientação ideológica é pequeno e, talvez, não fosse prudente fazê-lo por outras considerações (não só a do seguidismo, que também conta).

(o original desta carta encontra-se em http://www.rebelion.org/argentina/filosofia310702.htm)

Reproduzido do Boletim do CeCAC, ano X, n°3, de outubro de 2004.

***

Carta aos filhos:

Meus queridos Hildita, Aleidita, Camilo, Célia e Ernesto:

Se algum dia vocês lerem esta carta, vai ser porque eu já não estarei mais com vocês.

Quase não se lembrarão de mim, e os mais pequenos não recordarão nada.

Seu pai foi um homem que age como pensa e, certamente, foi leal a suas convicções. Cresçam como bons revolucionários. Estudem muito, para poder dominar a técnica que permite dominar a natureza. Lembrem que a Revolução é o mais importante, e que cada um de nós, sozinho, não vale nada.

Sobretudo, sejam capazes sempre de sentir profundamente qualquer injustiça cometida contra qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo. Essa é a qualidade mais bela de um revolucionário.

Até sempre, filhinhos. Espero vê-los, ainda. Um beijo grande e um abraço do

Papai.

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07/outubro/2007