Reverência ao Mestre Dino, com carinho
Dino Sete Cordas, ou Horondino José da Silva, um dos maiores violonistas do Brasil, faleceu em 26 de maio de 2006, aos 88 anos, após internação de alguns dias no Hospital do Andaraí, Rio de Janeiro, acometido por pneumonia. Mestre de várias gerações de violonistas, é referência para todos que tocam ou estão aprendendo a tocar violão. Criou uma linguagem própria para o violão de sete cordas e, em mais de 60 anos de carreira, acompanhou os mais importantes nomes da música brasileira, de Francisco Alves, Orlando Silva, Pixinguinha, Jacob do Bandolim, Ciro Monteiro, Dorival Caymmi, Ângela Maria, Elizeth Cardoso, Elis Regina, Cartola, João Nogueira, Alcione, Beth Carvalho, Zeca Pagodinho a Marisa Monte.
Dino conseguia “a façanha de se destacar sem nunca invadir o espaço dos outros instrumentos ou do cantor. Ao contrário, ele os valoriza. Suas gravações são clássicas não só porque ele toca muito bem, mas porque ele faz os outros tocarem e cantarem melhor”, bem o definiu Marcello Gonçalves, integrante do Trio Madeira Brasil. Uma pequena prova é seu acompanhamento em “Acontece” ou “O mundo é um moinho”, de Cartola (discos Marcus Pereira). Prepare seu coração para ouvi-los...
O violão de sete cordas
Dino tinha em seu nome artístico Sete Cordas, sua marca. O violão de sete cordas foi utilizado inicialmente por Tute, violonista do conjunto de Pixinguinha, “Os oito batutas”. Dino passou a usá-lo após a morte do violonista, na década de 1950 em suas apresentações e gravações para conseguir um grave a mais. “Eu gostava de ver a sétima corda. Eu achava muito bonito, mas pensava comigo: ‘gosto tanto dessa sétima corda, mas não vou botar no meu violão, não. Porque senão o seo Tute pode não gostar e dizer que estou imitando ele. Mas eu era fã do velho. Depois com o tempo, ele se afastou, adoeceu e também morreu. E aí eu comecei a sentir falta dessa sétima corda no meu violão. Eu sentia que estava faltando qualquer coisa. Mandei fazer um violão no ‘Bandolim de Ouro’, com sete cordas. O efeito é um grave a mais. Porque o violão vai de mi a mi. Mi grave, lá, ré, sol, si e mi agudo. Eu senti a falta de uma nota mais grave que o mi grave. Então procurava e quando precisava da nota tinha que descer para o ré daquela nota, mas só que era aguda. Eu achava muito feio. Então botei a sétima corda para sentir o efeito. E ficava então com o mi bemol, o ré, ré bemol e o dó. Quer dizer, quatro notas a mais. Aí comecei a desenvolver, a meter os peitos. Quando o violão chegou, eu o botei na mão, entrei no microfone e quando eu sentia que eu podia bater no dó, eu dava no dó. E, aí, fui estudando naturalmente e passei para o violão de sete cordas.”
Nos regionais
Dino iniciou sua carreira na década de 30, convidado a integrar o Regional de Benedito Lacerda, que se apresentava na Rádio Tupi, acompanhando cantores nos programas e gravações de discos. Permaneceu nesse regional até 1950, quando solicitaram aumento de salário. “Ganhávamos na época, 2 mil contos de reis e queríamos 2 mil e quinhentos. Então, nós quatro – eu, os falecidos Meira, Canhoto e Gilson combinamos de parar no dia que terminasse nosso contrato, 31 de dezembro de 1950, se o aumento não viesse. O aumento não veio e nós saímos. Fomos para a Rádio Mayrink Veiga e o diretor na época, Gilberto Martins, ao saber o que havia ocorrido disse que pagaria 3 mil e quinhentos contos de réis para trabalharmos lá. Continuamos com o mesmo conjunto, sem o Benedito e sem o Pixinguinha no saxofone (que já era do conjunto há uns seis anos). E entraram o Altamiro Carrilho e o Orlando Silveira, de São Paulo, que tocava acordeon. Aí, ao invés de quinteto ficou sexteto” (o regional do Canhoto).
A dupla de violões Dino e Meira (Jaime Florence) atravessou décadas e conjuntos; tocaram da década de 1930 à de 1970. No início dos anos 60, Jacob do Bandolim convidou-o a integrar o conjunto “Época de Ouro”. Dino não saiu de imediato do conjunto de Canhoto: apresentava-se nos dois e havia a preocupação de não marcarem apresentações para o mesmo dia. Ele ressaltava que foi Jacob quem começou a divulgar o nome dos instrumentistas nas gravações de discos no Brasil, introduzindo nas contra capas a ficha técnica.
Raphael Rabello tinha-o por mestre e ressaltava a sua importância para a profissionalização que os músicos instrumentais alcançaram. Dino a esse respeito, com sua humildade, respondia que Raphael era muito seu amigo.
Até alguns anos atrás, além das apresentações do “Época de Ouro”, Dino, que completou 88 anos no dia 5 de maio passado, dava aulas de violão em dois endereços no centro do Rio: no Bandolim de Ouro e Casa Oliveira.
Sua criatividade foi assim resumida por Raphael Rabello: “O violão do Dino não tem clichê, não tem frase igual”.
Vale conhecer mais sobre Dino:Depoimentos de músicos e amigos sobre Dino no Samba & Choro
http://www.samba-choro.com.br/noticias/15562As sete cordas eternas de Dino, por Nana Vaz de Castro
http://www.cliquemusic.com.br/br/Resgate/Resgate.asp?Status=MATERIA&Nu_Materia=1880O mestre da sétima corda, por Aydano André Motta
http://www.verveweb.com.br/clipping/clipping_detalhe.asp?cod_cliente=29&cod_clipping=1354O músico que redefiniu os rumos do violão, por João Pimentel
http://www.verveweb.com.br/clipping/clipping_detalhe.asp?cod_clipping=1388&cod_cliente=29Violinistas de sete cordas falam sobre Dino, por Nana Vaz de Castro
http://www.cliquemusic.com.br/br/Resgate/Resgate.asp?Status=MATERIA&Nu_Materia=1879
Dissertações de mestrado:
Dino Sete Cordas - Criatividade e revolução nos acompanhamentos da MPB, de Márcia Ermelindo Taborda, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 1995.Análise dos acompanhamentos de Dino Sete Cordas em samba e choro, de Remo Tarazona Pellegrini, Universidade Estadual de Campinas. Instituto de Artes, 2005
Fotos no sítio Jacob do Bandolim
http://www.jacobdobandolim.com.br/jacob/fotos/jacob_conjuntos.php?ID=2Fotos no Samba & Choro
http://www.samba-choro.com.br/fotos/porartista/verfotos?chave_id=752CD Raphael Rabello & Dino 7 Cordas, (Caju, 1991) Kuarup
http://www.kuarup.com.br/br/cat_produto_cada.php?idioma=port&prod=44180332
Dino, entre Joel do Nascimento e Toni, no show de homenagem a Jacob do Bandolim e lançamento do livro Tributo a Jacob do Bandolim, em fevereiro de 2003.
Dino na comemoração de seus 84 anos, em 2002. Foto de Paulo Eduardo Neves (Samba&Choro).
Dino em 2003, foto de Leo Aversa
Jacob do Bandolim e o conjunto Época de Ouro. Dino ao lado de Jacob. Foto: Instituto Jacob do Bandolim. Esta página encontra-se em www.cecac.org.br
28/maio/2006