Estados Unidos: aprofunda-se o processo de fascistização

Nos Estados Unidos, o projeto de lei encaminhado pela congressista democrata Jane Harman, chamado de “Ato de Prevenção à Radicalização Violenta e ao Terrorismo Interno”, que cria a “Comissão de Idéias Extremistas”, aprovado pela Câmara em outubro de 2007, é mais uma iniciativa dentro do processo de fascistização e de transformação dos EUA em Estado policial e que remete ao período de “caça às bruxas”, ao clima de inquisição iniciado em 1945 com a instituição do Comitê de Atividades Antiamericanas (House Un-American Activities Committee-HUAC), patrocinado pelo senador McCarthy (*).

Hoje o inimigo fabricado para ser utilizado como pretexto para a política belicista e de guerra do Estado norteamericano a serviço dos interesses de grandes monopólios e para desqualificar a oposição é o “terrorismo”, enquanto no período do macarthismo era a “ameaça do comunismo”. Como vimos apontando em vários materiais publicados no sítio do CeCAC, “Bush no poder foi uma expressão dos interesses de classe da grande burguesia norte-americana, das transnacionais. Significou uma política de mais guerra, mais violência, de mais fascistização que atingiu o próprio EUA. Dentro da estratégia de utilização maciça dos meios de comunicação na guerra ideológica e psicológica, o imperialismo vai propagandear a luta contra o terrorismo como o objetivo número um da humanidade, para tentar tirar a atenção de sua crise interna e reprimir os movimentos revolucionários, de libertação nacional, de defesa dos direitos humanos, identificando-os como “organizações terroristas”. E, desta forma, combater os povos e os trabalhadores que lutam contra a fome, a miséria e a exploração”.

O insuspeito ex-Secretário Assistente do Tesouro na administração Reagan, Paul Craig Roberts, denuncia mais este ataque contra o direito de livre pensar que se procura implantar nos EUA, tendo em vista a agudização das contradições internas geradas pela política de barbárie do imperialismo, que intensificam a exploração e a miséria inclusive em seu território.

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Pensar por você mesmo agora é crime

Paul Craig Roberts [*]

Qual foi o maior fracasso de 2007? O “incremento” do Presidente Bush no Iraque? A queda do valor do dólar norte-americano? As hipotecas subprime? Não. O maior fracasso de 2007 foi a recém-diplomada Câmara Democrata.

A tentativa do povo norte-americano em novembro de 2006 de limitar um governo canalha, que meteu os EUA em aventuras militares enquanto ignorava a Constituição dos EUA, falhou. Substituir Republicanos por Democratas na Câmara e no Senado não fez diferença.

O assalto à Constituição norte-americana pelo Partido Democrata é tão determinado quanto o assalto feito pelos Republicanos. Em 23 de outubro de 2007, a Câmara aprovou um projeto de lei encaminhado pela congressista Jane Harman (Democrata pela Califórnia), presidente de um sub-comitê de Segurança Doméstica, que cassa os direitos garantidos constitucionalmente de livre expressão, associação, e reunião.

O projeto de lei foi aprovado pela Câmara com 404 votos a favor e 6 contra [N.T. 3 democratas e 3 republicanos]. No Senado o projeto é encaminhado por Susan Collins (Republicana pelo Maine) e aparentemente não tem oposição significativa.

O projeto de lei de Harman é chamado de “Ato de Prevenção à Radicalização Violenta e ao Terrorismo Interno” (http://www.govtrack.us/congress/bill.xpd?bill=h110-1955). Quando o projeto de lei HR1955 se transformar em lei, ele criará uma comissão encarregada de identificar pessoas, grupos, e idéias extremistas. A comissão realizará audiências pelo país, tomando depoimentos e compilando uma lista de pessoas e ideários perigosos. A lei irá, em poucas palavras, criar terrorismo em massa nos Estados Unidos. Mas os perpetradores do terrorismo não serão terroristas muçulmanos; serão agentes do governo e cidadãos ‘de bem’ [fellow citizens].

Nós estamos começando a ver quem serão os internos dos centros de detenção que estão sendo construídos nos EUA pela Halliburton sob contrato com o governo. [N.T. uma lista dos mais de 800 centros de detenção – campos de concentração – nos EUA, bem como dos vários decretos (executive orders) que apontam para a concentração de poderes no executivo, está disponível em http://www.sianews.com/modules.php?name=News&file=article&sid=1062]

Quem estará na lista de “extremistas”? A resposta é: aqueles que lutam pelas liberdades civis, críticos de Israel, céticos do 11 de setembro, críticos das guerras e da política externa do governo, críticos do uso pelo governo de seqüestro, tortura e violações das Convenções e Genebra, e críticos da espionagem dos norte-americanos pela administração. Qualquer um no caminho de um grupo com interesses poderosos – como ambientalistas que se oponham politicamente – é também um candidato para a lista.

A “Comissão de Idéias Extremistas” é o mecanismo para identificar norte-americanos que representam “uma ameaça à segurança doméstica” e uma ameaça de “terrorismo interno” que “não pode ser facilmente prevenido por esforços tradicionais da inteligência federal ou da polícia.”

Esta lei é ótima para pessoas desagradáveis. Aquele FDP [SOB] que roubou sua namorada, aquela lambisgóia [hussy] que roubou seu namorado, o vizinho que tem uma arma – apenas os denuncie para a Segurança Doméstica como ameaças de extremismo. A Segurança Doméstica precisa de suspeitos, logo eles não irão checar. Sob o novo regime, acusação é evidência. Além do mais, “nossos” representantes eleitos jamais admitirão que votaram numa lei e criaram uma “Comissão de Idéias Extremistas” para a qual não haja necessidade ou base constitucional.

Aquele chefe que lhe aporrinha por chegar atrasado ao trabalho – ele é um bom candidato para delação; bem como aquele empregado das minorias [minority employee] que você não pode despedir por qualquer razão normal. Da mesma forma o marido daquela linda mulher que você não conseguiu seduzir. Qualquer tipo de desentendimento e ciúme pode agora ser resolvido com uma ligação para a Segurança Doméstica.

Logo a Halliburton estará construindo mais centros de detenção.

Os norte-americanos estão de tal forma distantes das raízes de sua liberdade que eles simplesmente não a tem. Muitos norte-americanos não sabem o que é habeas corpus ou porque ele é importante para eles. Mas eles sabem o que querem, e Jane Harman deu a eles uma nova maneira de punir e de atingir seus próprios interesses.

Mesmo liberais educados acreditam que a Constituição dos Estados Unidos é um “documento vivo” que pode ser alterado para expressar qualquer coisa que necessite para acomodar alguma nova causa importante, como o aborto e privilégios legais para minorias e deficientes. Hoje é a “guerra contra o terror” que a Constituição deve acomodar. Amanhã pode ser a guerra contra qualquer um ou qualquer coisa.

Pense sobre isso. Mais de seis anos atrás o World Trade Center e o Pentágono foram atacados. O governo dos EUA acusou a al Qaeda. O Relatório da Comissão do 11/9 foi criticado por um grande número de pessoas qualificadas – incluindo o presidente e o vice-presidente da comissão.

Desde o 11/9 não houve ataques terroristas nos EUA. O FBI tentou orquestrar uns poucos, mas os “planos terroristas” nunca foram mais do que conversas e organizados pelos agentes do FBI. Não há grupos extremistas visíveis além dos neoconservadores que controlam o governo em Washington. Mas alguém no Congresso vê de forma incisiva a necessidade de criar uma comissão para tomar depoimentos e procurar idéias extremistas (fora de Washington, é claro).

Esta busca por idéias extremistas veio depois que o Presidente Bush e o Departamento de Justiça (sic) declararam que o Presidente pode ignorar o habeas corpus, ignorar as Convenções de Genebra, deter pessoas sem evidência, mantê-las presas indefinidamente sem apresentar acusações, torturá-las até que confessem algum crime fabricado, e assumir [take over] o governo ao declarar uma emergência. É claro, nenhuma dessas idéias “patrióticas” é extremista.

A busca por idéias extremistas acompanha também a concessão de contratos para a Halliburton para construir centros de detenção nos EUA. Nenhum membro do Congresso ou do Executivo jamais explicou a necessidade dos centros de detenção ou quem seriam os detentos. É claro, não há nada de extremista em construir centros de detenção nos EUA para detentos secretos.

Claramente os centros de detenção não se destinam a apenas ficar lá vazios. Graças ao maior fracasso de 2007 – a Câmara Democrata – haverá uma “Comissão de Idéias Extremistas” para assegurar internos para os centros de detenção de Bush.

O Presidente Bush nos prometeu que as guerras que ele lançou fariam com que o “indomável fogo da liberdade” chegasse aos “cantos mais escuros de nosso mundo.” Enquanto isso nos Estados Unidos o fogo da liberdade foi não somente domesticado, mas também está sendo extinto.

A luz da liberdade se foi nos Estados Unidos.

[*] Paul Craig Roberts foi Secretário Assistente do Tesouro na administração Reagan. Foi Editor Associado do editorial do The Wall Street Journal. [voltar]


O original encontra-se em http://www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=7734

Traduzido para o CeCAC por M.H.

 

(*) Em 1945, frente ao amplo prestígio que a União Soviética e os comunistas alcançaram com seu empenho e sacrifício no combate à barbárie do nazifascismo, ao obscurantismo, e na luta pela construção de uma nova sociedade livre da exploração de uma classe por outra, uma histeria anticomunista foi desencadeada nos Estados Unidos.

O período conhecido como macarthismo durou até meados da década de 1950 (a CIA foi criada em 1947) e se caracterizou por uma dura perseguição a intelectuais, artistas, cientistas, educadores, sindicalistas e pessoas que eram simplesmente taxadas de comunistas.

Ao lado, um cartaz da época: "Isto é o amanhã; América sob o comunismo". A exploração do obscurantismo da população e a inculcação do medo são evidentes.

A delação era estimulada e milhares de pessoas foram perseguidas, perderam seus empregos, ficaram no ostracismo, foram presas ou mortas. Em 1947, o roteirista e escritor Dalton Trumbo e outros nove colegas de Hollywood se recusaram a testemunhar na Comissão. Trumbo (Spartacus, Exodus, Johnny Vai à Guerra) ficou preso por 11 meses e depois se mudou para o México (em 1957, chegou a ganhar o Oscar pelo roteiro do filme Arenas Sangrentas, em que assinava com o pseudônimo de Robert Rich).

Há exemplos famosos, dentre tantos anônimos, como o de Brecht que foi chamado a depor e em seguida voltou à Alemanha (à República Democrática Alemã). A “lista negra” incluía de Orson Welles a Chaplin, que teve que deixar os Estados Unidos em 1953, além de escritores e dramaturgos como Arthur Miller (A morte do caixeiro viajante, As bruxas de Salem) e Dashiell Hammett (O falcão maltês) entre outros.

Em 1950, o casal Julius e Ethel Rosemberg foi preso, acusado de passar segredos atômicos para os soviéticos. Albert Einstein chegou a testemunhar em sua defesa, mas o casal foi executado na cadeira elétrica em 19 de junho de 1953.

Tiveram destaque nesse processo inquisitorial dois personagens que depois ocupariam a Casa Branca: Richard Nixon e o então ator-delator Ronald Reagan. Outro delator “notável” - de seu colega Robert Oppenheimer, foi o físico húngaro Edward Teller, que depois seria conhecido como “Doutor Morte” e serviria de inspiração para o cineasta Stanley Kubrick em seu filme Doutor Fantástico (1964). [voltar]

Vários filmes baseados em histórias reais daquele período foram realizados. Vale conferir:

Culpado por Suspeita. Direção: Irwin Winkler – EUA/1993. Com Robert de Niro, Annette Bening, George Wendt, Martin Scorcese.

Testa de ferro por acaso. Direção: Martin Ritt; Roteiro: Walter Bernstein (dois perseguidos pelo macartismo); EUA/1976. Com: Woody Allen; Zero Mostel.

Daniel. Direção: Sidney Lumet; EUA/Inglaterra/1983. Com: Timothy Hutton,

Cidadão Cohn. Direção: Frank Pierson – EUA/1992. Com James Woods.

Boa Noite, Boa Sorte. Direção: George Clooney – EUA/2005. Com: David Strathairn, Robert Downey Jr., Patricia Clarkson, George Clooney.

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15/janeiro/2008