Gillo Pontecorvo
Diretor de obras-primas do cinema, como “A Batalha de Argel” e “Queimada”, morreu na quinta-feira passada, dia 12 de outubro, o cineasta italiano Gillo Pontecorvo. “A Batalha de Argel”, vencedor do festival de Veneza em 1966, é considerado um dos mais expressivos filmes do cinema político e, baseado em fatos reais, retrata a luta de libertação do povo argelino contra o colonialismo francês.Nascido em Pisa (norte da Itália) em 19 de novembro de 1919, emigrou para Paris, no período da ditadura fascista de Mussolini. No exílio, passou a fazer contato com a resistência italiana, filiando-se ao Partido Comunista em 1941, nele militando por muitos anos.
“Queríamos lutar contra o fascismo”, afirma ele (em entrevista editada como extras do dvd “A Batalha de Argel”)... “As organizações antifascistas pediam que voltássemos à Itália para trabalhar na clandestinidade e voltamos”. Pontecorvo liderou a oposição ao fascismo em Milão, à frente da Juventude Comunista, lutando durante a 2ª Guerra mundial.
“Uma vez pegamos uma camionete, uma dessas com alto-falantes. Colocamos um disco com música no começo e em seguida um comício contra os fascistas e os alemães conclamando a população a se preparar para a insurreição. Deixamos a camionete no centro, próximo ao comando alemão. A camionete começou a tocar a música que gravamos, dando-nos tempo para escapar. Então, começou a surpresa e confusão”. Em “A Batalha de Argel”, Pontecorvo apresenta uma cena que lembra esse episódio. “O trabalho clandestino é o mesmo em Argel, como em Paris, Turim e Milão. Precisa de clandestinidade, de certo tipo de organização secreta que permita que se possa sobreviver ao poderio superior do adversário e da polícia. Naturalmente, muito do que aprendi em Milão, Gênova ou nas montanhas foi parar no roteiro de 'A Batalha de Argel’ ”.
Gillo Pontecorvo graduou-se em química, mas acabou trabalhando como jornalista, dirigindo a revista comunista quinzenal "Pattuglia" (Patrulha). Foi no contato com o neorealismo italiano, em particular com o filme Paisà, de Roberto Rossellini, que decidiu-se pelo cinema.
Ao final da II Guerra, tornou-se assistente de Joris Ivens, Yves Allégret e Mario Monicelli. Nos anos 1950, dirigiu documentários antes de estrear na ficção com Giovanna, episódio do filme Die Vind Rose, (1954) sobre uma operária da indústria têxtil. Dirigiu também A Grande Estrada Azul (1957), Kapò (1959), Queimada! (1969), Ogro (1980), O adeus a Enrico Berlinguer (1984), Firenze, il nostro domani (2003).
A denúncia do colonialismo também está em Queimada, quando dirigiu Marlon Brando, outro filme referência, realizado em 1969.
Filmografia completa:
1. Firenze, il nostro domani (2003)
2. Un altro mondo è possibile (2001)
3. I corti italiani (1997) (segmento de “Nostalgia di protezione”)
4. Nostalgia di protezione (1997)
5. Danza della fata confetto (1996)
6. 12 registi per 12 citta (1989) (segmento de “Udine”)
7. L'addio a Enrico Berliguer (1984)
8. Ogro (1980)
9. Queimada! (1969)
10. La Battaglia di Algeri (1965)
11. Paras (1963)
12. Kapo (1959)
13. Pane e zolfo (1959)
14. La grande strada azzurra(1957)
15. Cani dietro le sbarre (1955)
16. Giovanna (1955)
17. Festa a Castelluccio (1954)
18. Porta Portese (1954)
19. Missione Timiriazev (1953)No período de 1992 a 1996, Pontecorvo foi diretor do Festival de Cinema de Veneza.
Leia mais sobre Pontecorvo no sítio IMDb.
Gillo Pontecorvo
* * *A Batalha de Argel
A luta do povo argelino por sua libertação do jugo do colonialismo francês, apresentada no filme de Gillo Pontecorvo, tem como fio condutor a história de integrantes da Frente de Libertação Nacional (FLN), Ali-la-Pointe e seus companheiros que resistem na Casbah, o maior bairro popular da capital Argel. O filme apresenta um período desta luta, marco histórico no processo de libertação de colônias européias na África. A ação se passa entre 1954 e 1957 e o diretor, que mistura ficção e fatos reais, trata com veracidade a resistência argelina e a violência do exército francês, obtendo como resultado um “quase” documentário, intenso, emocionante, que mantém o espectador em suspense do início ao final do filme.
O coronel Mathieu (inspirado no coronel Jacques Massu – o carrasco de Argel) utiliza e defende abertamente a tortura para desbaratar a resistência argelina e manter o país sob domínio dos franceses. A tese - o uso da tortura e da humilhação como principal forma de combate - foi defendida publicamente em 1961, pelo coronel francês Roger Trinquier em seu livro "La guerre moderne", que serviu de “referência” para a “assessoria” de militares americanos em golpes de estado em países da América Latina. Há dois anos, segundo noticiou o jornal The New York Times, o filme foi exibido no Pentágono a militares norte-americanos inconformados com a tenaz resistência do povo iraquiano.
Em 1954, humilhados pela derrota da batalha de Diên Biên Phu imposta pelos vietnamitas, militares franceses radicalizam a violência contra os argelinos com o intento de manter seu domínio de mais de cem anos sobre o país, iniciado em 1830. A França ganharia uma batalha, mas perderia a guerra.
O filme, um clássico (agora em cópia restaurada), traz ao final uma das mais belas e emocionantes cenas do cinema.
A Batalha de Argel ganhou o Leão de Ouro e o prêmio Fipresci (da Federação Internacional dos Críticos), no Festival de Veneza em 1966. O filme foi banido na França até 1971 e o primeiro cinema que o exibiu sofreu um atentado. Ficou proibido no Brasil no período de ditadura militar.
A Batalha de Argel (La Battaglia di Algeri, Argélia/Itália, 1965)
Direção: Gillo Pontecorvo
Roteiro: Gillo Pontecorvo, Franco Solinas
Música: Ennio Moricone e Gillo Pontecorvo
Fotografia: Marcello Gatti
Elenco: Brahim Haggiag, Jean Martin, Yacef Saadi, Samia Kerbash, Ugo Paletti, Fusia El Kader, Mohamed Ben Kassen.
Produção: Casbah Films, Argel, em colaboração com Igor Film, Roma
Longa-metragem, P&B, legendas em português
Duração: 117 minA Batalha de Argel conquistou e conquista público em todo o mundo. Após assistir o filme, Marlon Brando afirmou em entrevista que só filmaria na Europa se fosse com Pontecorvo. Dessa “parceria” nasceu outro clássico, dirigido por Pontecorvo, Queimada (1969), estrelado por Brando e Evaristo Márquez, sobre a dominação colonial nas Caraíbas.
Cenas do filme:
![]()
![]()
![]()
![]()
Filme disponível no acervo de filmes do CeCAC e nas boas locadoras.
Esta página encontra-se em www.cecac.org.br
14/outubro/2006