Haiti

Desde o golpe de Estado de 29 de fevereiro de 2004 que depôs Aristide e implantou um governo fantoche, vários haitianos foram sumariamente executados ou arbitrariamente jogados nas prisões, torturados ou obrigados a esconder-se. A violência política é amplamente disseminada, sistemática e dirigida; os pobres da cidade e do campo suspeitos de serem pró-Aristide são os alvos principais. Não se sabe ao certo o número de presos políticos no Haiti, mas numa prisão da capital haitiana há mais de 1700 prisioneiros, dos quais somente alguns foram formalmente acusados de algum “crime”.

Entre os perpetradores dessa violência, estão a Polícia Nacional Haitiana e elementos de esquadrões da morte que agem com a polícia, que contam com a conivência das tropas “de paz” da ONU, chefiadas pelo Brasil. A violência permaneceu incontrolável nestes últimos meses. Em 6 de julho último, tropas da ONU efetuaram uma grande operação na comunidade pobre de Cité Soleil em Porto Príncipe, capital do Haiti, na qual adultos e crianças desarmadas foram mortos. Em agosto, a polícia haitiana e “civis” armados com facões realizaram massacres em três comunidades pobres de Porto Príncipe, atirando e ferindo até a morte civis que, segundo relatos, eram “suspeitos” de serem apoiadores de Aristide. As tropas de ocupação da ONU não intervieram para dar um basta a esses massacres, apesar de seu mandato para proteger a população civil.

A tão propalada “pacificação” não ocorreu com o envio das tropas brasileiras, e a tal “construção da democracia” no Haiti mostra sua face de violência e repressão, com três eleições presidenciais postergadas. Como afirmamos no Boletim do CeCAC de dezembro de 2004, os Estados Unidos não puderam permanecer abertamente no Haiti devido, principalmente, ao desgaste causado pela resistência popular na ocupação do Iraque, e optaram por “terceirizar” a ocupação do Haiti. “O aceite incondicional e imediato do governo brasileiro em comandar a missão militar da ONU enviando 1200 soldados para ocupar o Haiti é apresentado pela imprensa como ajuda humanitária, ou quando muito como manobra em prol de uma eventual presença no Conselho de Segurança da ONU. Mas o envio das tropas pelo governo brasileiro sem a aprovação expressa do povo brasileiro ou do parlamento serve, de fato, para reafirmar o compromisso do governo brasileiro com os ditames do imperialismo norte-americano”.

Reproduzimos uma declaração de Annette Auguste, cantora popular haitiana conhecida como Sò Anne (Irmã Anne), prisioneira política no Haiti desde maio de 2004, que esclarece alguns pontos sobre a situação real do Haiti e denuncia o genocídio cometido em nome da “construção da democracia”. Qualquer que seja a avaliação do papel político do presidente deposto Jean-Bertrand Aristide, as denúncias apenas aumentam a responsabilidade do governo brasileiro nesse contínuo genocídio com a conivência das tropas de ocupação brasileiras a serviço dos interesses do imperialismo norte-americano, maculando a tradição de solidariedade internacional do povo brasileiro.

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Sò Anne, prisioneira política no Haiti

"O único crime de Sò Anne é lutar pela democracia",
disseram vários membros do Comitê Haitiano de Ação
que visitaram Sò Anne na prisão.
Cerca de 70 organizações de vários paises
participam da Coalizão para Liberdade de Sò Anne.

Declaração da cantora e ativista popular haitiana, prisioneira política Annette Auguste, querida cantora popular haitiana conhecida como Sò Anne (Irmã Anne), a partir da Penitenciária de Pétionville, Haiti, em 24 de maio de 2004. Há mais de um ano está presa.

Falo hoje para o mundo como uma prisioneira de consciência no Haiti, mantida em detenção por minhas opiniões e convicções políticas.

Fui presa em 10 de maio [de 2004] em Delmas, um subúrbio da capital haitiana Porto Príncipe, por marines dos Estados Unidos, que assaltaram brutalmente meu lar no meio da noite com explosivos e armamento pesado, aterrorizando a todos, especialmente as crianças pequenas de minha família. A única segurança que tínhamos eram nossos dois pequenos cães, que eles mataram ao invadirem o quintal, e depois usaram explosivos para fazer em pedaços a porta da frente de nossa casa.

Nunca poderei esquecer ou perdoar o trauma que esses homens causaram aos mais jovens e mais vulneráveis de nossa casa. Dos três adolescentes e jovens que escaparam à prisão naquela noite pulando sobre o muro, um sofreu sérios ferimentos que precisaram de tratamento médico urgente. Eu penso que nenhum de nós será capaz de esquecer o tratamento desumano a que fomos submetidos durante essa ação violenta realizada em nome do governo Bush para o que ele chama “construção da democracia” em meu país.

A verdade é que foi o governo norte-americano que invadiu violentamente minha casa e me prendeu, e é ele quem detém as chaves de minha cela na prisão. Eles pretendem usar o sistema judicial haitiano para encobrir este fato. Foram somente soldados norte-americanos que invadiram minha casa, sem nenhum mandado de prisão, e arrancaram-me algemada à força enquanto a polícia haitiana assistia passivamente de seus carros.

Os marines do governo Bush disseram que essa ação violenta contra mim e contra minha família foi realizada porque eu estaria planejando atacar suas forças e enfraquecer a segurança e a estabilidade em meu país.

Como podem ser tão cínicos quando sabem muito bem que foram eles, juntamente com o governo francês, que enfraqueceram a estabilidade no Haiti pela remoção forçada de nosso presidente constitucional em 29 de fevereiro de 2004? Como podem ser tão cínicos quando sabem que enfraqueceram nossa segurança ao treinarem e deixarem à solta as forças do antigo exército e os esquadrões da morte, para assisti-los na derrubada de nosso governo constitucional?

Foi somente depois que o governo dos Estados Unidos manipulou sua marionete [Gerard] Latortue, o primeiro-ministro “de fato”, e o sistema judicial haitiano para me acusar falsamente de organizar um ataque contra a chamada “oposição estudantil” em 5 de dezembro de 2003, durante sua “manifestação” contra o governo constitucional de Aristide e do [partido] Lavalas. Eu nunca estive envolvida ou tomei algum conhecimento desses eventos. Está claro para mim que tal acusação é apenas um pequeno ato desse vergonhoso teatro.

O fato é que foi a administração Bush e suas forças militares no Haiti que me prenderam e, uma vez mais, somente eles detêm as chaves de minha cela e podem dar a ordem para me libertarem. Nem o pagamento de propina a algum corrupto oficial haitiano ou o pagamento da fiança determinada pelo sistema judicial haitiano poderia garantir minha liberdade, pois isso teria que ser aprovado pelos altos escalões da administração Bush.

Desde que fui presa, a incessante campanha de repressão e assassinato contra a base do partido político Lavalas continuou. Militantes de nosso movimento que são líderes confiáveis e reconhecidos em seus bairros estão sendo assassinados pela nova força policial militarizada, sob o controle e direção dos chamados Fundos Multilaterais de Investimento [N.T. MIF no original, por sua sigla em inglês], que estão sendo dirigidos, de fato, pelos marines norte-americanos. Líderes de nosso movimento ainda estão sendo presos e outros são forçados a se esconder, numa ação concertada para dobrar a espinha do movimento Lavalas, que ainda vê Jean-Bertrand Aristide como o único presidente legítimo e constitucionalmente eleito do Haiti.

Enquanto sou forçada a permanecer nessa cela da prisão, tenho visto também o individualismo de alguns do nosso partido, causado por essa campanha de repressão, intimidação e assassínio. Eu compreendo seu medo porque eu mesma sou uma vítima dessa campanha cujo propósito é destruir nossa esperança e nossas aspirações na construção de um Haiti onde os pobres não sejam meros instrumentos sobre os quais se construam sonhos de prosperidade e poder pessoal.

Gostaria de chamar a atenção de todos aqueles que ainda se consideram representantes do Lavalas e da maioria pobre do Haiti para relembrar a lição da primeira ocupação de nossa pátria pelos norte-americanos e nosso grande mártir Charlemagne Peralte. Peralte assinou de boa-fé a paz com os norte-americanos e dissolveu sua resistência armada contra a ocupação apenas para cair vítima de suas mentiras e más intenções: ele foi seqüestrado e assassinado. Um destino semelhante ameaça muitos haitianos hoje no Lavalas que acreditam em nossa soberania nacional e na justiça.

Em minha cela, recebo a esperança de muitas vozes que se levantam contra a injustiça que o povo do Haiti vem sendo forçado a sofrer atualmente. Sou grata à congressista Maxine Waters [N.T. do partido Democrata dos EUA] e a incontáveis pessoas que têm prestado solidariedade com o povo haitiano para dar um basta ao massacre e ajudar o mundo exterior a saber a verdade e a realidade que enfrentamos atualmente.

Envio a vocês todo meu amor e gratidão para que se mantenham firmes, separando a mentira da verdade na situação atual do Haiti. Envio a vocês minhas bênçãos como uma mulher haitiana livre que luta pelos direitos da maioria miserável em minha pátria.

Eles podem prender meu corpo, mas jamais prenderão a verdade que encerro em minha alma. Continuarei a lutar pela justiça e pela verdade no Haiti até meu último suspiro.

Annette Auguste

O original encontra-se em http://www.sfbayview.com/052604/soanneannette052604.shtml

Traduzido por M.H.

Esta página encontra-se em www.cecac.org.br

09/dezembro/2005