Agressão das forças "de paz" brasileiras contra população haitiana

Delegação ao Haiti apresenta relato da agressão de soldados da ONU

Judith Scherr [*]

De volta do Haiti, participantes de uma conferência de progressistas haitianos e apoiadores internacionais em Port-au-Prince relataram suas experiências do encontro com prisioneiros políticos recém-libertados da prisão, e também seus testemunhos de uma operação militar da ONU numa periferia miserável.

Os delegados falaram num painel que incluiu o ex-prisioneiro político padre Gérard Jean-Juste e o destacado físico Dr. Paul Farmer. O programa, chamado “Haiti Hoje — Ocupação e Resistência” — foi realizado no último dia 9 de setembro, na Igreja de São José Operário, às 7 da noite, 1640 Addison St.

Para Jacques Depelchin, acadêmico visitante na UC Berkeley, e Pauline Wynter, ecologista por 30 anos na África do Sul, que participaram da conferência, um dos pontos altos da viagem foi uma visita à casa da ativista e cantora popular So Anne.

Depelchin e Wynter sabiam que So Anne era uma liderança no Lavalas, o movimento do presidente exilado Jean-Bertrand Aristide. Eles leram que Marines dos EUA explodiram a porta da frente de sua casa em 10 de maio de 2004, mataram seus cães, aterrorizaram os membros de sua família, incluindo um neto de 5 anos, e então prenderam a ativista, que ficou encarcerada por mais de dois anos.

No entanto, Wynter e Depelchin não imaginavam a força da presença de So Anne —“um grande, lindo espírito,” como Wynter a chamou.

Autor de Silences in African History e outros trabalhos, Depelchin nasceu na República Democrática do Congo; Wynter é natural do Caribe Oriental. Eles participaram da conferência representando a Aliança Ota Benga sediada em Berkeley, dedicada, de acordo com Depelchin, “à paz, saúde, e dignidade na República Democrática do Congo, nos EUA e, claro, em todos os lugares.”

Depelchin disse que sua compreensão do Haiti foi aprofundada com as histórias dos prisioneiros políticos libertados. “So Anne começou a falar do que foi a prisão,” disse, citando a ex-prisioneira: “‘Podem colocar as grades tão altas quanto queiram, seremos como o vento, que será tão forte que vai remover os obstáculos.’

“Basicamente, ela nunca iria se submeter,” acrescentou Depelchin.

Por que So Anne foi presa? As primeiras acusações eram bizarras — ela teria esmagado uma criança até a morte num pilão; teria colaborado com terroristas de uma mesquita local; ela estaria conspirando contra os Marines norte-americanos. Por fim, nenhuma acusação foi colocada — mas ela perdeu dois anos de sua vida até ser libertada.

Wynter desqualificou as acusações: “Ela foi presa por causa de seu espírito e de sua presença no mundo,” disse.

Depelchin comparou os esforços para quebrar um espírito como o de So Anne à Revolução Haitiana de 1804. Como os exércitos de Napoleão em 1804, que não conseguiram derrotar o povo haitiano, a prisão de ativistas políticos como So Anne não pode esmagar seus espíritos, disse. (A população escravizada do Haiti se revoltou contra os colonialistas franceses, conquistando a independência em 1804).

“Eles tinham que ser esmagados. Duzentos anos — é isto que está acontecendo,” disse Depelchin, explicando o papel dos Estados Unidos e da França no Haiti. “O sistema jamais perdoou os escravos.”

Enquanto muitos na delegação disseram que a visita a So Anne foi o ponto alto da viagem, o ponto baixo acabou sendo uma visita ao subúrbio miserável de Simon-Pelé. Vários delegados presentes na conferência, incluindo Wynter, o ativista Dave Welsh de Berkeley e o escritor Ben Terrall de São Francisco, visitaram aquela comunidade para investigar relatos de que as tropas da ONU teriam recentemente atacado e assassinado pessoas ali.

Hoje há cerca de 9.000 soldados da ONU no Haiti. As tropas da ONU foram deslocadas em junho de 2004 para substituir os Marines dos EUA, que policiaram o país depois que os EUA derrubaram o presidente haitiano Jean-Bertrand Aristide em fevereiro de 2004. (O Departamento de Estado sustenta que Aristide pediu aos EUA que o retirassem do Haiti).

Estudos como o elaborado em 2004 por Thomas Griffin da Universidade de Miami e relatos recentes de haitianos e observadores estrangeiros têm acusado a ONU de conivência com crimes violentos da polícia, além de cometer eles próprios atos de violência.

Os delegados chegaram à conclusão de que a violência da ocupação da ONU sob o governo interino apoiado pelos EUA – de fevereiro de 2004 até abril de 2006 – continua até hoje, apesar da eleição do presidente René Préval.

A delegação havia apenas começado a entrevistar as pessoas em Simon-Pelé quando eles viram quatro veículos blindados da ONU se aproximando. “Dois entraram numa rua e dois vieram em direção à rua em que estávamos,” disse Welsh chamando a atenção para o fato de que havia muitas pessoas nas ruas, inclusive crianças.

Acompanhando os blindados da ONU, dirigidos por soldados brasileiros, havia um trator e um caminhão da ONU carregado de entulhos. Os entulhos foram descarregados na rua “aparentemente para bloquear uma rota de fuga do local,” disse Terral numa entrevista pelo telefone, do Haiti.

Então os soldados abriram fogo. “Eles estavam atirando em direção à rua e para dentro das casas,” disse Welsh, descrevendo os tiros como repetidos e a esmo. Tanto Welsh como Terrall disseram ter ouvido disparos vindo da direção das casas, os quais poderiam ser tiros em resposta, de uma arma de pequeno calibre.

Os soldados da ONU ignoraram a delegação, que filmou e fotografou o incidente. Uma pessoa do grupo perguntou aos soldados porque eles estavam atirando; a resposta do soldado foi que eles estavam procurando por um criminoso. (O porta-voz da ONU no Haiti, David Wimhurst não respondeu aos telefonemas nem e-mails sobre o incidente).

A delegação deixou a área assim que houve pode, mas Terrall voltou a Simon-Pelé alguns dias mais tarde para conversar com as testemunhas. Ele entrevistou a mãe de Wildert Samedy, de 19 anos, que foi atingido e morto pelos soldados da ONU naquele dia enquanto estava consertando uma antena de rádio no telhado de sua casa.

Wynter disse que ela viu algo que não gostaria de se lembrar. “Mas eu não poderia ajudar se não chamasse a atenção para isso,” disse. “Eu não creio ter visto nenhum soldado da ONU que não fosse moreno ou negro. Como alguém do Caribe, e da diáspora africana, é muito triste que tenhamos chegado ao ponto em que a ONU usa soldados negros ou morenos para assassinar pessoas de cor.”

A violência das tropas da ONU causou uma profunda impressão em Wynter, particularmente por causa da consideração que ela tem pela Revolução Haitiana de 1804.

“Saber que a mesma fonte de inspiração e coragem é agredida por uma força militar dessas deveria ser de extrema importância para todos dessa diáspora,” concluiu.

[*] Jornalista de San Francisco, EUA.

Traduzido pelo CeCAC do original em inglês, disponível em:
http://www.berkeleydailyplanet.com/article.cfm?issue=09-08-06&storyID=25029

Veja também imagens da ocupação do Haiti em:
http://gallery.cmaq.net/album52
http://www.haitiaction.net/News/HIP/5_8_5/out/index.htm

Este relato encontra-se em www.cecac.org.br

01/outubro/2006