Haiti sob ocupação: relatos da barbárie imperialistaOs protestos recentes no Haiti contra o governo fantoche apoiado pelos Estados Unidos e pela ONU, nos quais o povo daquele país foi reprimido pelas forças de ocupação lideradas pelo Brasil trouxeram à tona mais uma vez a situação caótica que se implantou após o golpe de Estado de 2004. Dezenas de milhares de haitianos protestaram contra o aumento no preço dos alimentos e contra o atual governo.
Em matéria publicada no sítio do CeCAC, denunciamos a violência da ocupação comandada pelo Brasil, uma “terceirização” da política de dominação do imperialismo inicialmente realizada pelos EUA, França e Canadá.
Os dados abaixo foram extraídos do artigo "Globalization and terror - Murder Inc. and Haiti", publicado no sítio canadense GlobalResearch, que utilizou a revista científica The Lancet, entre outras fontes, e mostram a realidade da “pacificação” tutelada pelas tropas de ocupação: assassinatos, estupros, violações dos direitos humanos, trabalho escravo infantil, fome, miséria absoluta e privação das condições básicas de saneamento.
"Há evidências de que os soldados da ONU atiraram e mataram civis desarmados, inclusive crianças, durante uma recente ronda no Haiti... Testemunhas independentes dizem que mais de 23 pessoas foram mortas durante a ronda e que muitos foram alvejados por tiros na cabeça.” (1)As estatísticas da miséria
Jonathan Katz da Associated Press relatou em 29 de janeiro deste ano que “... em lugares como Cite Soleil, a favela de palafitas onde Charlene divide uma casa de dois quartos com seu bebê, cinco irmãos e os dois pais desempregados, biscoitos feitos de barro, sal e gordura vegetal se tornaram uma refeição comum... “Quando minha mãe não cozinha nada, tenho que comer esses biscoitos três vezes ao dia,” diz Charlene. Seu bebê, de nome Woodson, ainda no colo, aparenta pesar menos que os dois quilos que pesava ao nascer.”
O Banco Mundial calcula que a população do Haiti é de pouco menos de 9 milhões de habitantes. A renda nacional bruta per capita em 2006 era de aproximadamente US$480. Depois de dois anos e meio de intervenção estrangeira, em setembro de 2006, o FMI reconheceu (2) que mais de 70% da população ainda vivia com menos de US$2 ao dia, com 55% da população vivendo com uma renda per capita de apenas US$0,44 (quarenta e quatro centavos de dólar) ao dia. Quatro anos após o golpe, o relato de Katz mostra que nada melhorou. Então, se dissermos que a população do Haiti seja agora de uns 8,8 milhões de pessoas – isso significa que a apenas uma hora de vôo de Miami, cerca de 5 milhões de pessoas passam fome.
O relatório de 2006 do FMI (Interim Poverty Reduction Strategy Paper) mostrou que o PIB per capita naquele ano era de apenas 70% do PIB do Haiti em 1980. Também, que o “Acesso aos serviços públicos básicos (saúde, educação, água encanada, saneamento) é precário e os indicadores sociais são alarmantes. A mortalidade infantil é estimada em 76 por 1000, ou duas vezes a média regional, e a expectativa de vida é cerca de 18 anos menor que a média regional. Além disso, menos da metade da população tem acesso à água potável tanto nas áreas rurais como urbanas, comparado com médias regionais de 71% e 93%, respectivamente. O acesso à rede de saneamento está disponível a uma parte muito pequena da população do Haiti: 16% nas áreas rurais e 50% nas áreas urbanas, enquanto na América Central e no Caribe estas percentagens são em média 49% e 86%, respectivamente.” Outro relato, do Conselho de Assuntos Hemisféricos, também foi publicado em 2006. “O Segredinho Sujo do Haiti: o Problema da Escravidão Infantil” informou sobre o sistema “restavec” de trabalho infantil forçado. “De acordo com o governo do Haiti, há entre 90.000 e 120.000 crianças em regime de servidão, mas a UNICEF estima números significativamente maiores, entre 250.000 e 300.000.” É bom lembrar que esses números dizem respeito a uma população de menos de 9 milhões de habitantes.
O colapso da agricultura resultante da aplicação das políticas neoliberais foi desastroso para a economia rural do Haiti, e para a maioria pobre significou não ser capaz de ter o suficiente para comer. “Ativistas estudantis no Haiti estão demandando uma revisão das políticas de agricultura no país, que eles dizem ter como resultado o Haiti importar mais da metade de sua comida enquanto os agricultores locais estão jogados na pobreza.” (3) A miséria e o sofrimento suportados pelo povo do Haiti quatro anos após o golpe contra o Presidente Aristide prevalecem a despeito daquilo que se chama de apoio da “comunidade internacional”.
Direitos humanos no Haiti pós-golpe
A cobertura da fome e da pobreza no Haiti pela imprensa corporativa segue um padrão estereotipado de racismo: o tratamento dispensado ao povo do Haiti é o mesmo das ex-colônias miseráveis da África. Mas é muito mais difícil para as forças de ocupação da ONU e para a “comunidade internacional” justificar as flagrantes violações contra os direitos humanos, que supostamente deveriam ter acabado após o golpe de 2004. Para encobrir a realidade chocante, os governos dos países imperialistas utilizam o esquecimento e o “abafamento” para tratar dessas violações. Estas incluem as milhares de pessoas mortas durante e após o golpe, os prisioneiros políticos mantidos sem acusação por anos, as centenas de pessoas condenadas injustamente, a vitimização em massa dos membros da Fanmi Lavalas (movimento pró Aristide), impunidade para os assassinos treinados pelos Estados Unidos, massacres da ONU e tentativas escancaradas de fraudar processos eleitorais.
O Centro para o Estudo dos Direitos Humanos da Escola de Direito da Universidade de Miami (Center for the Study of Human Rights of Miami University's Law School) publicou um relatório de uma investigação realizada por Thomas Griffin em novembro de 2004. Griffin e sua equipe documentaram a verdadeira falência da segurança em Port-au-Prince com a polícia dominada por ex-soldados do exército haitiano e guerra entre gangues fomentada por sinistras figuras apoiadas pelos EUA, como o instigador do golpe Andy Apaid.
Griffin dá um importante contexto em seu relatório ao explicar o papel de organizações ‘não-tão-governamentais’ dos EUA como a International Foundation for Electoral Systems – financiada diretamente pela USAID – no golpe contra Aristide. A transcrição no relatório de uma entrevista com Pierre Vixamar, um testa-de-ferro dos governos dos EUA e do Canadá, é um retrato clássico da mentalidade de um “pau mandado” [catspaw] colonialista. Depois de documentar as condições de pesadelo nos hospitais e no necrotério da capital do Haiti, Griffin concluiu que a “Vida para a maioria empobrecida está se tornando mais violenta e mais desumana com o passar dos meses desde o golpe de 29 de fevereiro de 2004.”
Um relato de julho de 2004 do IJDH documenta centenas de mortes violentas no período após o golpe. Anthony Fenton (4) faz duas observações importantes sobre esse relato. Primeiramente, ele nota que como todos os outros relatos sobre a situação dos direitos humanos no período pós-golpe, esse ficou restrito à região de Port au Prince / Central Plateau – o que certamente significa que a extensão dos abusos e mortes violentas através do Haiti depois do golpe é muitas vezes maior. Em segundo lugar, ele focaliza na afirmativa do relato de que “Com exceção de quatro vítimas e daqueles para quem não foi possível obter identificação, os relatos dos entrevistados mostram que as vítimas eram apoiadores de Aristide ou do antigo governo constitucional do Haiti.”
O silêncio da “grande mídia” sobre os massacres no Haiti
O artigo "Human rights abuse and other criminal violations in Port-au- Prince, Haiti: a random survey of households" (5), publicado na revista científica The Lancet, relata: “O que encontramos em nossas pesquisas sugere que 8.000 indivíduos foram assassinados na grande área de Port au Prince durante os 22 meses em estudo. Quase metade dos perpetradores foram forças do governo ou atores políticos de fora. Ataques sexuais a mulheres e meninas eram comuns, e as pesquisas sugerem que 35.000 mulheres foram vitimadas na área; mais da metade de todas as mulheres vitimadas eram menores de 18 anos.”
Os autores do artigo interpretaram assim estes resultados: “crime e abuso sistemático dos direitos humanos eram comuns em Port-au-Prince. Apesar de criminosos serem os perpetradores mais identificados das violações, atores políticos e soldados da ONU eram também identificados com freqüência. Estes resultados sugerem a necessidade de uma resposta sistemática por parte do governo haitiano recém-eleito, da ONU, e das organizações de serviço social para apurar as conseqüências legais, médicas, psicológicas e econômicas dos abusos contra os direitos humanos e o crime tão disseminados.”
O caso do ativista pelos direitos humanos Lovinsky Pierre-Antoine, ainda desaparecido após sete meses é emblemático da incapacidade do governo de impor qualquer autoridade. A Anistia Internacional divulgou vários alertas ultimamente nos quais documenta as ameaças de morte a ativistas pelos direitos humanos, entre eles Wilson Mesilien, Franztco Joseph e Yveson Piton. (6)
1. "Peacekeepers accused after killings in Haiti ", Andrew Buncombe, Independent, July 29th 2005
2. FMI - "A Window of Opportunity for Haiti"
3. "HAITI: Once-Vibrant Farming Sector in Dire Straits", Nazaire St. Fort, IPS March 4th 2008
4. "Human Rights Horrors in Haiti" Anthony Fenton, www.dissidentvoice.org,
July 27, 2004
5. http://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140673606692118/fulltext
6. "Human rights activists under fire in Haiti" Haiti Information Project, Haiti Action, January 13th 2008
Leia o artigo "Globalization and terror - Murder Inc. and Haiti" em http://www.globalresearch.ca/
Tradução para o CeCAC de M.H.
Esta página encontra-se em www.cecac.org.br
16/maio/2008