Resistência no Iraque: verdades e mentiras
Zarqawi, o terrorista nº1 do Iraque ferido, Saddam Hussein fotografado de cuecas: as distorções da “grande” imprensa escondem uma nova fase na guerra de ocupação no Iraque, declara Mohammed Hassan [*].
Entrevista a David Pestieau[**], concedida em 18 de junho de 2005
Carros-bomba, ataques suicidas: o quadro mostrado pela grande imprensa sobre a guerra no Iraque é o de uma guerra travada por um grupo terrorista liderado por Al-Zarqawi. Seria esta uma evidência de que a resistência às forças de ocupação está se transformando numa espécie de terrorismo cego, afetando principalmente civis iraquianos e não os militares norte-americanos?
Mohamed Hassan Hoje o problema é que a resistência real, liderada pelo Comando Geral de Resistência (que inclui os principais componentes da resistência) não é mostrada pela nossa grande imprensa. Um chefe da resistência nacional declarou a uma emissora de televisão árabe da Jordânia que:
“Há duas resistências no Iraque. Uma verdadeira, com um projeto nacional que tem como objetivo expulsar as forças de ocupação e que ataca o exército norte-americano e seus aliados locais. E uma falsa, que foi criada para desacreditar a resistência verdadeira e que ataca mesquitas e mercados”.Nossa imprensa faz referência ao site da Al-Qaeda no Iraque, aquele de Zarqawi, apresentado como o chefe dos insurgentes?
Mohamed Hassan Exatamente. Se você acreditar neles, o grupo de Al-Zarqawi reivindica praticamente todos os ataques no Iraque, sejam ataques aos norte-americanos ou carros-bomba que explodem em mercados ou em frente de mesquitas.
Isso não é possível, e os especialistas militares dos EUA têm que admiti-lo eles próprios. É um absurdo que um jordaniano, sedento por sangue e ávido por lançar o Iraque numa guerra civil, possa liderar a resistência, como confirmado por muitos observadores, que inclusive questionam a existência de Zarqawi. [1]
Al-Zarqawi é nada mais que uma ‘arma de enganação maciça’ [weapon of mass decepcion] nas mãos do exército norte-americano, que lhe permite esconder suas atividades de “propaganda suja”, usadas para jogar a população contra a resistência. Muitos iraquianos dizem o mesmo. Leia um blog como Riverbend, escrito por uma jovem de Bagdá, que em 18 de maio escreveu isto:
“As bombas são misteriosas. Algumas delas explodem em meio à Guarda Nacional e próximas das tropas norte-americanas ou da Polícia iraquiana, e outras explodem próximas a mesquitas, igrejas e lojas, ou no meio das tendas [souks]. Uma coisa que nos surpreende nas reportagens sobre essas bombas é que elas são inevitavelmente ligadas a homens-bomba suicidas. A realidade é que algumas dessas bombas não são bombas suicidas – são carros-bomba que ou estão sendo detonados remotamente ou são bombas-relógio. Tudo o que sabemos é que as técnicas variam e aparentemente também as intenções. Algumas pessoas dirão que elas são da resistência. Alguns dizem que Chalabi (Primeiro-ministro, próximo aos norte-americanos) e seus pistoleiros são os responsáveis por um número delas. Outros acusam o Irã e a milícia Badr (ligada ao Conselho Supremo da Revolução Islâmica, SCRI por suas siglas em inglês, um dos principais partidos xiitas no governo)” [2]Este relato em primeira mão confirma outra informação. Dois tipos de ação devem ser distinguidos, aqueles da resistência verdadeira e os ataques contra civis, feitos com bombas detonadas à distância e efetuados pelos Estados Unidos ou por milícias pró-Estados Unidos.
Nesse caso, como é possível obter informaçcão confiável sobre a resistência?
Mohammed Hassan Há os sites, não apenas em árabe mas também em inglês, que publicam regularmente boletins relatando as ações da resistência. Os fatos são incontestáveis, ainda que as perdas norte-americanas sejam às vezes exageradas. Você pode encontrar informação em sites como www.uruknet.info ou www.albasrah.net.
Olhando para além do espelho distorcido da imprensa, como a situação atual pode ser avaliada, quatro meses após as eleições?
Mohammed Hassan Um relatório recente da ONU mostrou que 25% das crianças iraquianas sofrem de desnutrição crônica, a probabilidade de morrer antes dos 40 anos é três vezes maior no Iraque do que nos paises vizinhos, 20% dos habitantes não têm acesso a um fornecimento de energia elétrica estável, e mais de 30% têm grande dificuldade de conseguir água potável. [3]
Como nós previmos, as eleições não alteraram a situação cotidiana dos iraquianos, que de fato piorou, uma vez que o Iraque entrou numa nova fase na guerra de ocupação, que mata ainda mais pessoas.
Uma nova fase?
Mohammed Hassan Sim, desde a batalha de Fallujah no final do ano passado [novembro-dezembro de 2004], o exército de ocupação passou da estratégia de “busca e destruição” para aquela de “contagem de cadáveres” [bodycounting].
Até recentemente, a estratégia do Pentágono era identificar precisamente aquelas cidades e vilas onde a maioria dos ataques [da resistência] ocorriam. Então, o exército norte-americano cercaria a área, organizaria buscas e faria prisões para decapitar a resistência. Isto era “busca e destruição”, uma forma de guerra destrutiva porém limitada.
O exército norte-americano ainda estava tentando ganhar parte da população, para infiltrar a resistência e construir um novo exército iraquiano.
Esta estratégia falhou. Rumsfeld, o Secretário de Defesa em pessoa, deu a ordem para passar a um novo estágio, um [estágio] de destruição maciça das cidades e vilas da Resistência, e então enviar milhares de marines para lá depois do bombardeio preparatório das cidades.
Houve a quase completa destruição de Fallujah, um crime contra a humanidade, como testemunhado por imagens recentes mostradas pelo jornalista independente Dahr Jamail. [Nota do tradutor: as imagens do genocídio de Fallujah são bastante fortes, e desaconselháveis para pessoas sensíveis]
Recentemente, houve também os casos das cidades de Tel Afar, Al Qaïm, Haditah, todas elas foram selvagemente atacadas. Milhares de mortos longe das câmeras.
A “contagem de cadáveres” consiste então em medir o sucesso de uma operação pelo número de iraquianos mortos. Por exemplo, no começo de maio, a imprensa norte-americada anunciou a “Operação Matador”contra a pequena cidade de Al-Qaïm dessa forma: “100 rebeldes mortos numa ofensiva no Oeste do Iraque.” [4]
Em resumo, o exército norte-americano costumava identificar o peixe no mar e capturá-lo com alguns de seus vizinhos. Hoje, ele tenta drenar o mar onde estão os peixes, ao preço de matar todos os peixes.
Esta política serve apenas para ampliar a base social da resistência, uma vez que cada vez mais famílias sofrem na própria carne os ataques norte-americanos.
Uma ampliação da resistência? Sério?
Mohammed Hassan É uma nova etapa que amplia a guerra, mas ao mesmo tempo mostra a fraqueza do exército de ocupação e o pequeno apoio do governo fantoche.
Quatro meses após as eleições, o governo do Iraque, como o exército norte-americano, não tem controle real sobre o país. A resistência real continua a lançar importantes ataques contra as forças de ocupação.
O evento mais recente [esta entrevista foi dada em junho deste ano] foi a eliminação do chefe da contra-insurgência iraquiana, Walae Rubaye, n°1 da segurança no Iraque, em 23 de maio [5]. Um dos mais bem protegidos homens no país! Sua eliminação prova a capacidade da resistência em infiltrar os mais elevados níveis de poder.
A resistência está ganhando terreno, como Pat Lang, ex-chefe de espionagem do Pentágono para o Oriente Médio, afirma:
“A insurgência torna-se mais forte a cada dia. Quando a violência diminui, é um sinal de que eles estão se reagrupando. Eu não vejo nenhuma evidência coerente de que estejamos vencendo a resistência.”De acordo com ele, o regime de Saddam Hussein preparou antecipadamente a resistência, com oficiais do antigo exército iraquiano no centro de cada grupo de resistência atual.
“Eles são bem coordenados e têm ajustado sua estratégia de maneira consistente.” [6]Além disso, o novo exército iraquiano ainda não consegue atuar por conta própria, o que faz aumentar a pressão sobre o próprio exército norte-americano, o resto das tropas de uma coalizão que se desintegra e as dezenas de milhares de mercenários no país. O exército norte-americano tem enfrentado dificuldades crescentes no recrutamento nos Estados Unidos, por causa da guerra no Iraque.
Hoje em dia os mercenários são recrutados em qualquer lugar do mundo: como em Uganda, onde 10 mil homens serão incorporados nos próximos meses para fazer parte na guerra no Iraque como forças de segurança. [7]
Hoje, o exército norte-americano pode contar localmente apenas com as milícias das facções dos Curdos e Xiitas no poder. No entanto, a situação é extremamente perigosa, uma vez que as milícias têm objetivos muito específicos, ligados aos seus interesses tribais, e não têm um projeto nacional capaz de controlar todo o país como o Pentágono gostaria.
Há a milícia curda de Talabani, o Presidente, composta de alguns milhares de Peshmergas muito ativos no Curdistão e, num certo limite, no resto do Iraque. Há a milícia Badr dos xiitas pró-Irã.
Há ainda a milícia de Chalabi, que foi por um bom tempo protegido de Rumsfeld e que tem encorajado a secessão das províncias do sul, para criar um mini-Estado ao redor dos campos de petróleo de Basra. E, finalmente, há a milícia pró-estadunidense do ex-Primeiro Ministro Allawi.
Incapazes de conquistar o Iraque, os Estados Unidos não estariam desenvolvendo uma estratégia de dividir o país em três, com o Curdistão e os campos de petróleo ao redor de Kirkut no norte, um mini-Estado ao redor de Basra no sul e uma região central isolada?
Mohammed Hassan Talvez eu o surpreenda, mas não acredito nisso. Veja o que Anthony Cordesman, um dos mais importantes experts militares norte-americanos, tem a dizer: [8]
De acordo com Cordesman, o exército dos Estados Unidos tem vários planos. O Plano A era controlar o país com um regime pró-Estados Unidos. Um fracasso.
[O Plano B é] Construir um exército centralizado e ao mesmo tempo mantê-lo longe da Resistência, a única garantia de que o país poderá ser eventualmente estabilizado.
Esta é a situação atual. Uma certa federalização do país é permitida, contradições religiosas e étnicas são exacerbadas. E as migalhas do bolo da ocupação são divididas entre as burguesias Curda, Xiita e Sunita, que compartilham um pseudo-poder. Por um certo período, elas podem atrair uma parte do povo. No entanto, uma divisão clara em três Estados não é vantajosa para os norte-americanos, pois levaria a uma instabilidade sem fim.
Assim, diz Cordesman, um único exército iraquiano terá que ser criado de qualquer forma, porque essa é a única garantia de que os Estados Unidos poderão vir a ter um controle indireto sobre o país. Cordesman insiste na urgência. Oficiais experientes de alta patente devem ser recrutados. E nos baixos escalões, elementos do antigo exército e as milícias Xiitas e Curdas, assim como as milícias de Chalabi e Allawi, compostas principalmente de camponeses analfabetos. Este plano B, no entanto, também está colapsando.
E o Plano C?
Mohammed Hassan O Plano C para Cordesman é o exército norte-americano abandonar o Iraque. Nesse caso, o exército norte-americano teria que se retirar para suas bases na Arábia Saudita e no resto do Golfo.
Com o risco de uma guerra civil?
Mohammed Hassan Sim, uma guerra civil curta. Não entre Xiitas e Sunitas, ou entre Árabes e Curdos. Entre milícias pró-Estados Unidos, que sucumbirão sem o apoio norte-americano, e a resistência nacional.
Recentemente, o jornal inglês The Sun publicou uma foto de Saddam Hussein de cuecas. A imagem correu o mundo. Pouco antes disso, um jornal egípcio revelou um encontro secreto entre Rumsfeld e Saddam Hussein no final de abril. Verdadeiro ou Falso?
Mohammed Hassan Há fortes indicações de que a informação está correta. O que a revista egípcia al-Usbu declarou em 2 de maio foi confirmado por um dos advogados de Saddam Hussein no jornal al-Arab de 27 de maio. E isso não foi negado por Washington.
Dizem que Rumsfeld propôs que Saddam fizesse um apelo através da televisão para que a Resistência depusesse as armas e se incorporasse ao processo político, em troca de exílio no exterior para o presidente iraquiano. Ao que parece, Saddam refutou categoricamente esta proposta, declarando que ele apóia a resistência mas que não tem a ambição de tornar-se presidente do Iraque novamente, apenas de seu partido, o Baath.
O simples fato desse encontro revela que a resistência é essencialmente nacionalista, e não é ligada aos chamados terroristas islâmicos estrangeiros.
Além do mais, um encontro entre Rumsfeld e o homem que foi declarado Inimigo Público n°1 por Bush é uma grande mudança, não?
Mohammed Hassan Sim, e isso mostra o beco sem saída em que Washington se meteu. No primeiro ano da ocupação, a política dos Estados Unidos era eliminar os funcionários públicos e oficiais do partido Baath de todos os cargos importantes. A indicação de Iyad Allawi como Primeiro Ministro em Junho de 2004 foi um ponto de viragem.
Os estrategistas norte-americanos queriam recuperar o controle sobre parte do antigo exército, desmantelado em 2003 e que se incorporou em massa à resistência.
Eles queriam ter certeza de que Allawi, fiel aliado dos Estados Unidos, venceria as eleições. Muito rapidamente, no entanto, Allawi se mostrou muito impopular. Sua declaração de anistia para todos aqueles do antigo regime foi um fiasco.
Com as eleições, os Estados Unidos foram forçados a aceitar uma coalizão pró-Irã composta de partidos Curdos e Xiitas, que não era sua melhor escolha. Levou três meses para montar o governo e nada indica que irá durar, incapaz que é em resolver o menor problema.
A resistência continua em todos os níveis: no nível militar, mas também nos níveis político e social. Isso o testemunha a recente greve geral em Ramadi. Assim como os protestos dos escritores, e das mulheres que estão se mobilizando contra a re-introdução da sharia,... E esta resistência é fortemente influenciada pelos Baathistas, aliados às forças comunistas, nacionalistas e islâmicas.
Assim, logo após as eleições, a imprensa dos Estados Unidos declarou que houve reuniões secretas entre oficiais ex-Baath e os Estados Unidos. Pouco convincente, a informação provavelmente tinha por objetivo abrir caminhos. Veja o Afeganistão, onde a Comissão de Reconciliação liderada pelo Presidente Karzaï, pró-Estados Unidos, declarou anistia geral, incluindo os Talibans, mesmo os famosos mulah Omar, aliado de Osama Ben Laden.
Logo, nesse contexto, é muito provável que o encontro Saddam-Rumsfeld tenha realmente ocorrido. E o negócio com a foto de Saddam de cuecas é apenas uma resposta dos norte-americanos para tentar humilhar tanto a ele como a resistência. Senão, por que revelar somente agora uma foto que esteve em seu poder por mais de um ano?
Em 22 de junho, uma conferência internacional de governos se reunirá em Bruxelas para apoiar o governo iraquiano, por iniciativa da União Européia. Qual é sua opinião?
Mohammed Hassan A conferência dará apoio político, mas sem nenhum resultado prático. É uma caixa vazia que será presenteada ao governo iraquiano pelos governos europeus como a França e Alemanha, que têm dado somente apoio simbólico. Nada antes ou depois das eleições.
No entanto, este apoio é também obviamente apoio aos Estados Unidos, a aceitação de uma agressão ilegal. E uma recusa em apoiar um projeto independente para o Iraque.
Hoje, a resistência iraquiana está sozinha no mundo, sem o apoio de seus vizinhos ou de outras potências. E veja como ela consegue colocar o Ogro norte-americano em dificuldades. É mais que nunca necessário apoiá-la.
A Resistência merece apoio político real por parte do movimento anti-guerras, por parte do movimento para a libertação dos povos do Terceiro Mundo.
Notas:
[1] Veja, por exemplo, Kurt Nimmo, Abu Musab Al-Zarqawi and the Silver Bullet http://kurtnimmo.com/blog/index.php?p=678 , 26 mai 2005
[2] http://riverbendblog.blogspot.com/ , 18 May 2005
[3] Iraq Living Conditions Survey 2004, Union Nations Development Programme (UNDP), http://www.iq.undp.org/ILCS/overview.htm
[4] "The Return of the Body Count Or the Metrics of Losing",Tom Engelhardt, Tom Dispatch, 23 mai 2005, http://www.truthout.org/docs_2005/052305M.shtml
[5] "Iraq counter-insurgency chief gunned down, 23 mai 2005", http://www.middle-east-online.com/english/?id=13566
[6] http://www.newsday.com/news/nationworld/world/ny-woiraq0512,0,4630319.story?coll=ny-top-headlines
[7] Neo-Slave Mercenaries For the Empire - Up to 10,000 Ugandans being recruited to work for US in Iraq, worldwide, Xinhuanet, 9 mai 2005, http://uruknet.info/?p=m11742
[8] Anthony Cordesman, Iraq's evolving insurgency, May 19th 2005, http://www.csis.org[*]Mohamed Hassan
email: ali.mohamed@pandora.be
phone: (32)473-478418[**]David Pestieau
email:david.pestieau@solidaire.org
phone: (32)472-817374O original em inglês encontra-se em http://www.ptb.be/scripts/article.phtml?obid=27588&lang=3
Traduzido pelo CeCAC para o português. (Tradução de M.H.)
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Esta entrevista encontra-se em www.cecac.org.br
28/setembro/2005