Antonio Carlos Carvalho é homenageado pela Câmara Municipal do Rio de Janeiro

No último dia 28 de agosto, em sessão solene realizada na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, foram homenageadas as vítimas dos atentados terroristas de 27/08/1980 – o ex-vereador Antonio Carlos Carvalho, o Tonico (post-mortem); seu tio e assessor José Ribamar de Freitas, post-mortem, mutilado pela explosão de uma carta-bomba no gabinete de Tonico e D. Lyda Monteiro, post-mortem, vítima fatal de carta-bomba endereçada ao então presidente da OAB, advogado Seabra Fagundes, de quem era secretária. Foram também homenageadas a OAB – Ordem dos Advogados do Brasil, a ABI – Associação Brasileira de Imprensa, e funcionárias da Câmara Municipal atingidas pelo atentado.

 
Gabinete de Antonio Carlos na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, destruído pela explosão da carta-bomba em 27/08/1980.  
27/08/1981: José Ribamar de Freitas, mutilado no atentado de 1980, é homenageado na Câmara de Vereadores

A homenagem foi uma iniciativa da vereadora Aspásia Camargo e faz parte das comemorações do Dia da Câmara – 27 de agosto, data escolhida para rememorar o atentado ocorrido em 1980. Compuseram a mesa da sessão solene o Presidente da OAB-RJ, Wadih Damous Filho; o Presidente da ABI, Maurício Azêdo; o advogado Marcelo Cerqueira, Procurador-Geral da Assembléia Legislativa do Estado do Rio; o cientista político Luiz Werneck Viana, professor do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj); o dirigente do MR-8, Jorge Alves de Almeida Venâncio, e o Presidente do Centro Cultural Antonio Carlos Carvalho - CeCAC, Marco Antonio Villela dos Santos. Com o plenário e as galerias lotadas, esta justa homenagem resgatou a combatividade e o exemplo de Antonio Carlos Carvalho na luta do povo brasileiro contra a ditadura militar.

Na cerimônia, o Coral da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, regido pela maestrina Cássia Borja, emocionou o público ao cantar "Pra não dizer que não falei das flores" de Geraldo Vandré, e "Caçador de mim" (de Sérgio Magrão e Luiz Carlos de Sá) gravada por Milton Nascimento.

No final da fala de abertura, a vereadora Aspásia Camargo afirmou: "(...) lembrando as nossas vítimas e lembrando o grande Vereador que foi Antonio Carlos Carvalho, querido e amado, corajoso, líder estudantil que vai ser lembrado aqui nas palavras de vários de nossos convidados, que nós pensamos também na D. Lyda. Essa figura feminina extraordinária que foi vítima do obscurantismo e que nos deixa na memória a sua visão feminina e doce que, certamente, foi mais uma vítima da grande injustiça que se abateu sobre este país.

Estaremos, hoje, após a nossa Cerimônia, inaugurando também uma placa em homenagem ao Vereador Antonio Carlos Carvalho, no Salão Nobre do Palácio Pedro Ernesto que, a partir de hoje, passará a ser denominado Salão Nobre Vereador Antonio Carlos Carvalho. Essa é a homenagem que nós deixamos aqui nesta Casa para lembrar da sua coragem e da sua grandeza e da sua militância por dias melhores para o nosso país."

Na cerimônia, foram entregues diplomas do Dia da Câmara à OAB, na pessoa do advogado Wadih Damous; à ABI, representada pelo jornalista Maurício Azedo; ao Sr. José Ribamar, representado pelo seu filho Luiz Carlos Freitas;à D. Lyda Monteiro, representada pelo neto Luiz Felippe Monteiro Dias, e a Antonio Carlos, representado pelos filhos Marcelo Moraes de Carvalho e Flávia Assis de Carvalho.

Flávia e Marcelo recebem da vereadora Aspásia Camargo o Diploma do Dia da Câmara em homenagem a Antonio Carlos

A seguir publicamos os discursos, na íntegra, de Marco Antonio Villela dos Santos, Presidente do CeCAC, e de Flávia Assis de Carvalho, filha mais nova do Tonico, que falou em nome dos irmãos Marcelo, Valéria, Miguel, Joana e Gabriel [*].

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Discurso de Marco Antonio V. dos Santos

Gostaria de saudar a todos da mesa, a todos os presentes e particularmente à vereadora Aspásia Camargo pela iniciativa desta justa homenagem ao Antonio Carlos, ao José Ribamar, à Dona Lyda, à OAB e à ABI, às funcionárias da Câmara, atingidas pelo atentado terrorista do dia 27 de agosto de 1980 e a instituição desta data como do Dia da Câmara Municipal do Rio de Janeiro e a denominação de Vereador Antonio Carlos Carvalho ao Salão Nobre do Palácio Pedro Ernesto.

Gostaria de fazer uma saudação especial a todos aqueles que combateram com Antonio Carlos, ombro a ombro, contra a ditadura militar.

Sinto-me muito honrado e mesmo emocionado por participar desta homenagem. Convivi profundamente com Antonio Carlos, nosso estimado Tonico, durante duas décadas (de 1973 a 1993) na militância e junto à sua família. Seus filhos Marcelo, Valéria, Miguel, Joana, Gabriel e Flávia conviveram com os meus. Lembro-me bem dos encontros em família, e também da sua mãe, a valorosa dona Zenaide, seus irmãos e irmãs, e primos.

Tonico foi um destacado, combativo, inesquecível militante revolucionário que começou a participar do movimento estudantil na década de 1960, na resistência à ditadura militar. Foi preso pela primeira vez em 1968 no Congresso de Ibiúna, e depois, em 1970, como militante do Movimento Revolucionário 8 de Outubro, organização que empunhou armas contra a ditadura. Foi barbaramente torturado no DOI-CODI. Jovem militante, resistiu heroicamente. Não passou nenhuma informação a seus algozes. Sem informações e sem provas, foi solto depois de três meses.

Após sair da prisão, volta à faculdade de Engenharia da UFRJ e continua engajado na resistência à ditadura, num momento de dura violência e repressão.

Em 1972/1973 começa o processo de reconstrução do movimento estudantil, das entidades estudantis e Antonio Carlos se torna uma liderança desse processo.

A partir de 1973-1974, Tonico, expressando as posições político-ideológicas do MR-8, assume a luta pelas liberdades democráticas dentro de uma perspectiva de fazer avançar a luta de classes, elevar o nível de consciência e organização da classe operária e dos setores populares e democráticos, numa perspectiva de derrubada revolucionária da ditadura militar. A partir destas posições, se destaca na luta contra a ditadura, regime que expressava os interesses da classe dominante brasileira e do imperialismo.

Nesta conjuntura e com o avanço da luta dos trabalhadores e do povo, Tonico se candidata a vereador em 1976, pelo MDB, partido da oposição legal naquele período.

Sua campanha eleitoral foi histórica e memorável pela combatividade, pela contundência da denúncia política da ditadura, de seu caráter anti-operário, anti-popular e antidemocrático.

Antonio Carlos foi eleito com uma expressiva votação: 40 mil votos. Centenas de milhares de panfletos foram distribuídos com uma agitação política vigorosa, denunciando a miséria, a fome, o arrocho salarial, as péssimas condições de vida do povo. Seu principal panfleto trazia o título: “uns têm tanto, tantos com tão pouco, e a maioria sem nenhum”, encerrando com as palavras de ordem:

Por melhores condições de vida para o povo
Por uma anistia ampla, total e irrestrita
Pelas liberdades democráticas

Seu mandato como vereador foi um mandato especial: Tonico, um revolucionário, comunista, colocou seu mandato e sua atuação parlamentar a serviço da luta e da organização dos trabalhadores e das camadas médias. Entre as suas marcas estavam a combatividade e a coragem.

Tonico era um verdadeiro tribuno popular, um grande agitador, ofensivo. Quando denunciava a ditadura, fazia uma vibrante denúncia, que emocionava a todos, e terminava seus discursos dizendo que “não ia sobrar pedra sobre pedra” da ditadura, que esta seria derrubada pela força do povo organizado e consciente.

Foi Vereador do Rio de Janeiro, mas era conhecido como vereador federal, pois viajava o Brasil ajudando a organizar o MR-8, o MDB e o PMDB, e a luta dos trabalhadores e do povo.

O que queremos ressaltar é que seu gabinete foi um espaço vivo de apoio à organização e luta dos trabalhadores e do povo, pelo fortalecimento da luta nas fábricas, da luta sindical contra o arrocho salarial e pela reposição dos salários, pela liberdade e unidade sindical e pela urbanização das favelas e contra as remoções, do movimento contra o aumento do custo de vida, na luta dos camponeses pela terra, e na reconstrução das entidades operárias, estudantis e dos favelados, as associações de moradores, na resistência cultural que fervilhava nas universidades e morros cariocas.

Como exemplo, podemos constatar que a luta de classes, a luta dos trabalhadores, dos moradores em favelas, com massivas manifestações, pela conquista da luz, da água, do saneamento e da urbanização teve vitórias importantes, melhorando as condições de vida nas favelas do Rio de Janeiro. Tonico esteve presente, foi um apoio decisivo, mas estas vitórias foram uma conquista dos próprios trabalhadores, dos próprios moradores, que tiveram grandes e destacadas lideranças como Irineu Guimarães e Diquinho, presentes aqui neste plenário.

Portanto, Antonio Carlos, na sua campanha eleitoral e como Vereador, teve uma prática revolucionária, que estimulava o próprio povo a se organizar, lutar e conquistar melhorias nas condições de vida e, por sua própria experiência, aumentar sua consciência política.

Tonico teve destacada atuação na luta pela anistia ampla, geral e irrestrita, pela liberdade de imprensa, liberdade de organização, liberdade de reunião, na luta pela transformação do MDB em partido popular, na denúncia do terrorismo fascista que multiplicava seus atentados no início dos anos 80, contra bancas de jornais, lideranças dos trabalhadores, democratas, religiosos, jornais populares, entre eles o Hora do Povo, que cumpriu uma importante tarefa de agitação política, na luta contra a ditadura militar, com suas “brigadas” em todo o Brasil.

Era uma conjuntura de crescimento da luta por liberdades democráticas e melhoria das condições de vida, dentro da perspectiva de fazer avançar a luta de classes.

E acreditamos que, exatamente, por toda essa sua destacada atuação, sendo dirigente nacional do MR-8 e vereador do MDB, por sua prática revolucionária, Tonico foi alvo do aparelho repressivo da ditadura, recebendo uma carta-bomba, que destruiu seu Gabinete na Câmara Municipal do Rio de Janeiro e mutilou seu tio, assessor e companheiro, José Ribamar. A intenção do atentado era conter o avanço da luta de classes, conter o crescimento da luta pelas liberdades democráticas e contra a ditadura. No mesmo dia, outros atentados terroristas, atingiram a OAB, assassinando sua secretária, Dona Lyda, e o Jornal Tribuna Operária.

Tonico foi Vereador até 1982. Sem mandato, continuou na luta contra a ditadura e pelos interesses dos trabalhadores, do povo em geral, sempre com seu otimismo num futuro melhor para o nosso povo, na sociedade socialista. Podemos estender também esta homenagem a tantos outros combatentes que tombaram na luta contra a ditadura, luta vitoriosa com a sua derrota em 1985.

Com o fim da ditadura, Antonio Carlos continuou integrando as diversas lutas populares e pelo socialismo. Fez parte do Comitê Central do MR-8 de 1976 até sua morte, em 26 de novembro de 1993, vítima de Aids. Por sua integridade, destemor, determinação, simplicidade e companheirismo, Tonico era admirado e respeitado mesmo por aqueles que dele divergiam. Até hoje é lembrado como um contundente agitador e exemplo de comportamento diante da repressão política e de firmeza ideológica na defesa de um Brasil e um mundo sem miséria e exploração, da sociedade comunista, do “reino da liberdade”, como dizia Marx.

Nós, do Centro Cultural Antonio Carlos Carvalho (CeCAC), temos a honra de ter o Tonico no nome de nossa entidade e acreditamos que a maior homenagem à história de Tonico é continuar na luta. Nesse sentido, nós do CeCAC temos nos pautado no empenho em retomar o marxismo, estudando e praticando o marxismo-leninismo, a teoria científica da classe operária, realizando a análise concreta da conjuntura internacional e nacional, com o objetivo de contribuir para forjar a prática revolucionária e o caminho da vitória do nosso povo, de libertação das classes exploradas e oprimidas.

Camarada Tonico, presente!

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Discurso de Flávia Assis de Carvalho

Bom dia! Agradeço aos companheiros, amigos e familiares e cumprimento pela homenagem muito bonita. Enquanto estava aqui, ouvindo os discursos, fiquei pensando: que homem é esse que, depois de tanto tempo, emociona, reúne tanta gente? Em nome dos meus irmãos, Marcelo, Miguel, Joana, Valéria e Gabriel, muito emocionada, eu exalto esse grande homem que foi o meu pai! É um choro de emoção por tê-lo como herói, como referência, além do pai maravilhoso, presente, exemplo de dignidade, exemplo de coragem, exemplo de luta! Um homem de caráter, um político incorruptível, reconhecido, aplaudido por todos os que aqui estão, por outros companheiros que fizeram essa trajetória junto com ele.

Orgulhosos e emocionados estamos todos! E a grande homenagem de nós, filhos, ao nosso pai é continuar sua luta, continuar sua luta contra os escândalos, contra a corrupção, a favor dos excluídos, por uma sociedade mais justa, decente.

Sou a filha mais nova e convivi com ele oito anos, o suficiente para deixar na minha lembrança esse exemplo. É nele que me espelho ao me indignar com essa realidade tão brutal, com essa realidade que explora o trabalho infantil, que explora o ser humano, essa sociedade em que reina a ética do capital e a ética do mercado.

Os filhos dele, os companheiros, ainda hoje, nos indignamos com isso e lutamos por uma sociedade mais justa. Essa é, com toda certeza, a herança mais bonita e a maior herança que um pai pode deixar para seus filhos. Obrigada a todos!

* * *

[*] A lista de presenças e a transcrição do conjunto das intervenções na solenidade encontram-se publicadas no Diário da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, ano XXXI, nº 161, de 30 de agosto de 2007. [voltar]

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01/setembro/07