Intensifica-se a luta de classes nos EUA

As vitórias eleitorais de Bush filho para governar o Estado norte-americano não foram simples disputas político-eleitorais "democráticas". A primeira eleição de George W. Bush, vitória por meio de comprovada fraude, foi uma imposição dos grandes monopólios norte-americanos, que alguns analistas classificam como um golpe de estado, para garantir no governo da principal potência imperialista uma posição de ofensiva militar, política, econômica, cultural e ideológica para fazer frente à crise econômica que atingiu os EUA e para manter a sua hegemonia no campo imperialista. Portanto, Bush no poder foi uma “necessidade” da grande burguesia norte-americana, das transnacionais. Significou uma política de mais guerra, mais violência, de mais fascistização que atingiu o próprio EUA. Os artigos abaixo reproduzidos trazem denúncias que expressam o avanço da luta de classes nos EUA, a resistência, as mobilizações contra a guerra imperialista no Oriente Médio e contra o governo Bush e também registram a repressão aos manifestantes, ativistas, "desertores", agrupamentos e organizações contra a guerra.

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EUA: Centenas de detenções em protestos antiguerra

Haider Rizvi – IPS

Nova York - Manifestações, marchas, reuniões, encontros e reuniões de oração ocorreram em várias cidades dos Estados Unidos na última semana de setembro como parte de uma campanha para exigir do presidente George W. Bush e do Congresso que ponham fim à ocupação do Iraque.

Desde a quinta-feira 21 [de setembro], quando mais de 500 grupos contra a guerra e organizações religiosas firmaram a "Declaração de Paz", cerca de 250 ativistas foram detidos por participarem de ações não violentas.

Além de exigir um cronograma para a retirada dos 130.000 soldados estadunidenses instalados no Iraque, a Declaração pede o fechamento de bases, um processo de paz que inclua medidas para a segurança, a reconstrução e a reconciliação daquele país, e uma mudança nas prioridades de financiamento, colocando ênfase nas necessidades humanitárias frente às militares.

Os ativistas realizaram mais de 375 ações de desobediência civil e protestos em cidades de todo o país, incluindo Lincoln (centro), Houston (sul), Des Moines (norte), Little Rock (sul), Cincinnati (noroeste), e Fayetteville (leste). Nesta última se encontra Fort Bragg, a maior instalação militar estadunidense em todo o mundo.

Ainda que a campanha seja impulsionada principalmente por grupos religiosos, muitos legisladores, veteranos de guerra e organizações de mulheres e imigrantes também participam ativamente nos protestos.

As primeiras detenções foram realizadas em Washington, quando ativistas tentaram entregar cópias da Declaração a funcionários do governo.

Outras ações antibélicas que também terminaram com detenções foram realizadas em frente ao Congresso, bases militares e centros de recrutamento de soldados.

Conscientes de que muitos políticos resistem a respaldar a campanha por temor de serem qualificados de antipatriotas, líderes religiosos esperam que ao menos seu chamado pela paz estimule o governo a fixar um prazo para acabar com a ocupação do Iraque.

"Como cidadãos e pessoas de fé, devemos ser a consciência de nosso país", disse o reverendo Lennox Yearwood, do Hip Hop Caucus, um dos 34 ativistas detidos por participar nos protestos em frente à Casa Branca.

Enquanto isso, mais de 100 líderes religiosos cristãos, judeus e muçulmanos planejaram outras ações para impedir um possível ataque contra o Irã. Eles anunciaram que exigirão esta semana do Congresso que exerça sua "função de supervisão" para evitar essa eventualidade.

Como parte da campanha, muitos ativistas permaneceram sentados em frente a residências de legisladores que não se colocam contra a política de Bush no Iraque.

"Estamos gastando bilhões de dólares todas as semanas na ocupação do Iraque. Este dinheiro pode ser investido em saúde e educação", disse Molly Nolan, uma ativista de 62 anos que participou de um protesto em frente à casa do senador Chuck Schumer, do Partido Democrata pelo estado de Nova York.

"Os nova-iorquinos necessitam de escolas e empregos, não desta guerra sem fim", gritava a multidão reunida em frente à casa de Schumer.

"Como outros políticos, você não falou. Nós o exortamos a mostrar coragem e a defender princípios", afirmou na manifestação Carolyn Eisenberg, do grupo Pais do Brooklyn pela Paz.

Como Schumer, muitos legisladores democratas mantiveram distância do movimento antibélico, mas alguns criticaram publicamente as políticas de Bush no Iraque.

"Como participante do Movimento de Direitos Civis, enfrentei a violência com a não violência. Me golpearam e deixaram sangrando nas ruas à beira da morte", disse o congressista John Lewis, representante do estado sulista da Geórgia, depois de firmar a Declaração.

"Dei-me conta de que nossas armas mais poderosas como nação não são as bombas nem os mísseis. Nossa maior defesa é o poder de nossas idéias. É o que acreditamos sobre democracia e respeito à dignidade humana", afirmou.

Outros legisladores que firmaram a Declaração são Earl Blumenauer, representante do estado de Oregon, Danny Davis e Jan Schakowsky de Illinois, Chaka Fattah da Pennsylvania, e Sam Farr, Barbara Lee e Lynn Woolsey da Califórnia.

Apesar dos crescentes protestos e críticas de vários setores à guerra, incluindo generais reformados e proeminentes analistas de inteligência, não houve sinais de flexibilidade nas
políticas do governo em relação ao Iraque nem em sua estratégia militar no Oriente Médio.

Há apenas duas semanas, a Câmara de Representantes aprovou uma resolução apoiando a forma com que o presidente dirige a guerra e rechaçando a idéia de fixar um prazo para a retirada das tropas.

Assinantes da Declaração anunciaram que se suas demandas não forem respondidas pela administração Bush ou pelo Congresso, lançarão outra campanha de ações não violentas depois de setembro. (FIN/2006)

Traduzido para o CeCAC por M.H.
O original encontra-se em http://www.ipsnews.net/news.asp?idnews=34922

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Cada vez mais desertores nas tropas estadunidenses

Aaron Glantz – IPS

Um soldado norte-americano que deixou o serviço militar sem permissão por ser contrário à guerra, foi levado na terça-feira para a prisão norte-americana de Mannheim, na Alemanha, à espera do trâmite de sua apelação em Washington, em novembro.

A prisão de Agustín Aguayo, de 34 anos, aconteceu menos de uma semana após sua apresentação em Forte Irwin, no deserto de Mojave (Califórnia), depois de ficar escondido desde setembro.

Alegando ‘objeção de consciência’, Aguayo pediu dispensa em fevereiro de 2004, apenas um ano após ter iniciado o serviço militar e quando foi enviado pela primeira vez ao Iraque. Seu pedido foi negado pelo Departamento de Defesa em 2005 e Aguayo apelou às cortes federais de Washington, que cuidam dos casos de militares em serviço fora do país.

“Disseram que permitiriam que ele me telefonasse [da Alemanha], o que seria ótimo, mas isso não aconteceu”, disse sua mulher, Helga Aguayo. “Em Forte Irwin afirmaram que ele poderia telefonar e que eu poderia telefonar para ele, mas não aconteceu nem uma coisa nem outra. Imagino que estão tentando deixá-lo incomunicável tanto quanto possível”, acrescentou.

Aguayo estava na Alemanha quando fugiu por uma janela da base, preferindo escapar a ter de enfrentar uma segunda missão no Iraque. Ele sustenta que seus comandantes disseram que o enviariam ao Iraque nem que fosse algemado.

“Ainda não pode ser descartado que o enviem para o Kuwait ou Iraque. Não parece possível, mas ninguém me garantiu que não. Por isso tenho medo que isso possa acontecer”, acrescentou Helga Aguayo.

Nos registros do exército dos EUA existem entre 8.000 e 10.000 soldados com paradeiro desconhecido. Não se sabe quantos deles fugiram do serviço por motivos políticos.

Centenas de soldados desertores contrários à guerra estão no Canadá. Alguns deles pediram asilo publicamente, e na terça-feira o primeiro soldado norte-americano que fugiu para esse país vizinho se entregou em Fort Knox.

Darrell Anderson, especialista condecorado com um Coração Púrpura [N.T. condecoração militar entregue em nome do presidente dos Estados Unidos] por salvar sua unidade de uma bomba em uma estrada no Iraque, disse que desertou no ano passado porque já não podia lutar no que acredita ser uma guerra ilegal.

“Ao resistir, sinto que compensei as coisas que cometi no Iraque”, disse Anderson durante entrevista coletiva pouco antes de se entregar.

O soldado contou que em abril de 2004 recebeu ordem para abrir fogo contra um automóvel cheio de inocentes. O carro acelerou ao passar por um posto de controle militar e seu comandante lhe disse que era um procedimento do exército disparar contra qualquer veículo numa situação como essa. Anderson não obedeceu.

“Fatos como esse continuaram ocorrendo, até que um dia vi dois companheiros atingidos pelas balas”, contou no programa Democracy Now! da Pacific Radio, “e apertei o gatilho enquanto apontava para um menino inocente. Porém minha arma estava travada e me dei conta do que estava fazendo, percebi que não importa o quão bom você acredite ser, quando se está num lugar como aquele e, sabe, a maldade te dominando, você vai matar pessoas”.

Anderson regressou do Iraque emocionalmente abalado, com grave estresse pós-traumático. Quando sua unidade voltou para casa, ele fugiu para o Canadá ao invés de retornar ao Iraque. Ele permaneceu ali até que sua mãe, Anita Dennis, o encontrou em Toronto e o levou de volta ao Estado de Kentucky. Ela disse que foi uma viagem difícil.

“No Iraque, ele circulava em veículos Humvee e tanques, com gente atirando o dia todo”, contou Dennis à IPS. “Por isso os soldados não se sentem bem nesses carros e, realmente, não se pode dormir neles. Os soldados não podem dormir quando estão patrulhando a cidade em busca de minas terrestres e bombas caseiras [explosivos improvisados]”, contou.

Dennis acrescentou que concorda com seu filho de que a guerra no Iraque é moralmente errada.

“Creio em tudo o que meu filho me disse. Darrell contou que as pessoas que combateu estavam matando soldados norte-americanos porque não sabem quem somos. Tudo o que sabem é que estamos cruzando suas cidades com tanques. Nossos soldados os prendem. Quando levamos alguém para a prisão de Abu Ghraib, em Bagdá, não informamos suas famílias. Darrell contou que eles levavam homens e rapazes, e suas esposas e irmãs nunca sabiam o que estava acontecendo durante semanas. Nós ficaríamos indignados se isso acontecesse nos EUA”, disse Dennis.

Por estar sofrendo de estresse pós-traumático, Anderson recebeu um tratamento diferente do dispensado a Agustín Aguayo, quando se entregou. Devido a um acordo com os advogados de Darrell, as autoridades não o levarão à corte marcial, mas lhe darão tratamento e permitirão que viva com sua família no Kentucky.

Enquanto isso, Helga Aguayo tenta conseguir dinheiro para voar até a Alemanha e testemunhar no julgamento de seu marido. Ela trabalha e mora na casa dos pais, em Los Angeles, com suas filhas gêmeas de 10 anos.

“Não somos uma família rica. Nossos parentes trabalham duro. Há um fundo de defesa e também um fundo para ajudar minha família com os gastos, e espero poder viajar para ver meu marido e testemunhar. Disseram-me que isso é crucial”.

“Vocês sabem que este homem está defendendo sua consciência”, disse ela. “Se sua família não estiver a seu lado para apoiá-lo, será um duro golpe para sua defesa”.

(Inter Press Service)

O original encontra-se em http://www.antiwar.com/glantz/?articleid=9796

Estas notícias encontram-se em www.cecac.org.br

12/outubro/2006