Não é mais possível ignorar a lista de mortos no Iraque:
mais de 1.200.000 civis assassinados*

Prof. Les Roberts e Prof. Gilbert Burnham

Não querer pensar sobre as mortes de civis no Iraque tornou-se quase universal. O norte-americano médio acreditava que aproximadamente 9.900 iraquianos haviam morrido como resultado da guerra, de acordo com uma pesquisa de fevereiro de 2007 da AP. Infelizmente, evidências recentes sugerem que as coisas no Iraque podem ser cem vezes piores do que os norte-americanos imaginam.

Relatos de contagens divulgados pela imprensa sugerem que cerca de 75.000 iraquianos morreram desde a invasão comandada pelos EUA. Um estudo de 13 países afetados pela guerra apresentado numa recente conferência em Harvard descobriu que mais de 80% das mortes violentas em conflitos não são relatados pela imprensa ou pelos governos. [grifo nosso] Funcionários municipais na cidade iraquiana de Najaf foram recentemente citados no Middle East Online afirmando que 40.000 corpos não identificados foram enterrados naquela cidade desde o começo do conflito. Falando aos Rotarianos num discurso coberto pela C-SPAN em 5 de setembro, H.E. Samir Sumaida'ie, Embaixador Iraquiano nos EUA, afirmou que havia 500.000 novas viúvas no Iraque. A Comissão Baker-Hamilton de forma semelhante concluiu que o Pentágono sub-notificou incidentes violentos por um fator de 10. Finalmente, uma semana atrás a respeitada firma de pesquisas britânica ORB divulgou os resultados de uma pesquisa estimando que 22% dos lares tinham perdido um membro para a violência durante a ocupação do Iraque, totalizando 1,2 milhões de mortes. Este resultado praticamente confirma uma pesquisa menos precisa da BBC de fevereiro relatando que 17% dos iraquianos tiveram um membro da família vitimado pela violência.

Há agora duas pesquisas e três levantamentos científicos, todos sugerindo que os dados oficiais e as estimativas baseadas na mídia no Iraque deixaram de contar entre 70 e 95% de todas as mortes. [grifo nosso] A evidência sugere que a extensão da sub-notificação pela mídia está apenas aumentando com o tempo.

Sermos honestos sobre os custos humanos da guerra, talvez mais de um milhão de mortos até agora, está em nossos interesses de longo prazo. Como podem as lideranças militares e civis fazer comentários inteligentes sobre a segurança no Iraque, ou se alguma das políticas de segurança está surtindo efeito, se eles não detectam a maioria das mais de 5.000 mortes violentas que ocorrem toda semana? Os planos dos Estados Unidos para o futuro do Iraque podem ser respeitados no Iraque se eles não indicam abertamente a lista [de mortos] que eles implicam? Evitar o assunto das mortes de iraquianos irá certamente voltar a nos assombrar uma vez que os jovens no Oriente Médio crescerão com maior hostilidade aos Estados Unidos.

No Zimmerman Telegram, Barbara Tuchman descreve o ressentimento no Japão sobre a Lei da terra para estrangeiros, [proclamada] na Califórnia em 1913, destinada a prevenir que os imigrantes japoneses comprassem terras. Este ressentimento quase permitiu a Alemanha persuadir o Japão a atacar os EUA durante a Primeira Guerra, e provavelmente ajudou a preparar o cenário para que isso ocorresse um quarto de século mais tarde. Nós ainda não podemos dizer quais conseqüências emergirão de nossa invasão ao Iraque. Ignorar as conseqüências de nossas ações, ou adotar um tom de beligerância ao invés de contrição, não irá construir as relações de longo prazo que necessitamos no Oriente Médio. Existem métodos estabelecidos para estimar as mortes, mesmo em tempos de guerra. A discussão de tendências e efeitos de políticas embasadas em medidas significativas e validadas como o rendimento médio e taxas de mortalidade poderiam fazer nossos líderes mais responsáveis e nos deixar mais bem informados. Ignorar deliberadamente os números das mortes de iraquianos não é uma opção séria dos Estados Unidos, ou de nosso próprio interesse.

Gilbert Burnham é medico e Professor de Saúde Internacional no Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health. Les Roberts é Professor Associado na Columbia Mailman School of Public Health.

* Em fevereiro de 2007, Les Roberts, co-autor dos relatos de 2004 e 2006 na prestigiada revista de medicina Lancet, argumentou que a Inglaterra e os Estados Unidos haviam detonado até então no Iraque "um episódio mais mortal que o genocídio de Ruanda", no qual 800.000 pessoas foram assassinadas. (Roberts, 'Iraq's death toll is far worse than our leaders admit,' The Independent, February 14, 2007). Leia também a matéria The Media Ignore Credible Poll Revealing 1.2 Million Violent Deaths In Iraq, disponível no sítio Media Lens.

O original encontra-se em http://www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=6848

Traduzido para o CeCAC por M.H.

Esta página encontra-se em www.cecac.org.br

06/abril/2008