Marines em estado de pânico"Vaca-bomba": uma nova estratégia de ataque com animais “explosivos”
A resistência iraquiana ensaia novas técnicas de combate, baseadas principalmente no “terror”, cujos efeitos psicológicos produzem um deterioramento progressivo da moral combatente das forças de ocupação.
Segundo o chefe militar do Pentágono, Richard Myers, a resistência iraquiana executa entre 50 e 60 ataques diários no Iraque, e uma grande quantidade deles é realizada por meio de explosivos.
Os principais chefes militares dos EUA no Iraque – por meio de diferentes testemunhos e conferências de imprensa – reconheceram que os ataques rebeldes são cada vez mais sincronizados e demolidores, aos que se deve acrescentar a “criatividade”.
Para muitos especialistas o Iraque se converteu numa espécie de “laboratório” para novas técnicas e estratégias de guerrilha urbana até então desconhecidas no resto do mundo.
Quando os militares norte-americanos bombardearam e ocuparam Bagdá em tempo recorde, não imaginavam a magnitude nem da qualidade da resistência que deviam enfrentar dentro da modalidade de “combate urbano”, onde o atacante se mimetiza com o conjunto da população e aparece e desaparece como fantasma por qualquer parte.
Neste cenário de guerra – onde os tanques Abrams e os mísseis de última geração tornam-se obsoletos – as forças ocupantes se vêem submetidas à uma pressão psicológica essencial: não saber quando nem por onde serão atacadas.
Segundo diversos relatos de oficiais e soldados publicados no The Washington Post e The New York Times, a moral combativa dos militares norte-americanos vem caindo progressivamente devido à tensão psicológica produzida pelo “não ver o inimigo” no campo de batalha.
Segundo esses mesmos testemunhos, a maioria dos quadros de enfermidades psiquiátricas entre os soldados invasores tem origem no temor permanente aos ataques explosivos, cujo lugar e momento são impossíveis de prever.
Desde algum tempo, os atentados com explosivos, utilizando animais – vivos ou mortos – foram incrementados convertendo-se em uma prática temível e cotidiana.
Até agora essa metodologia foi aplicada com animais de todos os tipos e tamanhos, desde cachorros e gatos até cavalos.
Mas faltava a vaca
Numa semana 26 pessoas morreram numa série de ataques no Iraque, entre elas, um caminhoneiro turco, vítima de um atentado com uma “vaca bomba”.
“O cadáver de uma vaca carregado com explosivos detonou na região de Dujail, 40 km ao norte de Bagdá, ao lado de um comboio de caminhões, destruindo um dos veículos e matando seu motorista turco”, informou a agência AFP um comandante do exército iraquiano, Mohammad Chadidi.
Tratava-se de uma frota de caminhões de uma empresa privada que realiza transporte de mercadorias para o exército ocupante dos EUA.
Nos últimos dias, porta-vozes militares e da polícia iraquiana informaram que a guerrilha, além dos “kamikases”, havia instaurado uma campanha de “terror” utilizando animais carregados de explosivos contra os comboios das forças norte-americanas e a polícia iraquiana.
Correspondentes e meios locais destacaram na semana passada que o terror das tropas norte-americanas e seus colaboradores iraquianos e a paranóia que faz com que abram fogo em qualquer animal doméstico – vivo ou morto – que lhes cruze o caminho.
Segundo um dos correspondentes da cadeia BBC, é muito freqüente que os marines disparem a distância contra animais – estando vivos ou mortos – pra prevenir e/ou fazer com que detonem os explosivos que poderiam surpreende-los.
Isto, segundo os testemunhos, provoca uma matança deliberada, quase histérica, de animais domésticos por parte dos “nervosos” marines que se espalham em patrulhas ou em comboios militares pelas ruas, principalmente em Bagdá.
Assim como todos os dias se conhecem estórias trágicas de destruição de veículos particulares, com feridos, vítimas fatais, automóveis destruídos e cobertos de sangue, e os civis convertidos em alvo permanente das balas invasoras, agora se somam os animais.
Marines em "pânico"O ataque contra a repórter italiana Giuliana Sgrena, em março deste ano, na chamada “autopista da morte” que leva ao aeroporto de Bagdá, levantou uma onda de indignação generalizada na capital iraquiana, onde se realizaram marchas contra o “gatilho fácil” dos marines norte-americanos.
Esta situação – segundo relatam os próprios habitantes – gerou, mais do que nenhuma outra, um extenso e crescente sentimento “antinorte-americano” cujos efeitos se estendem por todas as classes sociais iraquianas, incluindo a poderosa comunidade xiita, que até então mantinha uma postura “moderada” frente as tropas ocupantes.
O comando militar norte-americano justifica esses ataques mortais – que continuam diariamente – contra civis alegando “medidas de segurança” que suas tropas adotam ante a incessante onda de ataques rebeldes, cujos alvos principais são as patrulhas e os blindados ligeiros que percorrem o Iraque.
Estatísticas e contagens realizadas pelos norte-americanos revelaram que dos mais de 1840 soldados norte-americanos “oficialmente” mortos desde o dia da invasão, mais de 700 foram eliminados por ataques explosivos.
Nas estatísticas realizadas pela resistência e outras fontes árabes, as verdadeiras baixas norte-americanas se triplicam e até se quadruplicam frente as cifras proporcionadas oficialmente pelo comando militar invasor acusado de esconder o verdadeiro número de mortos e feridos.
Os assassinatos de civis são, na maioria das vezes, conseqüências de disparos errôneos de “nervosos” soldados norte-americanos, como os que freqüentemente causam a morte, inclusive, a dos próprios militares da coalisão invasora.
Muitos dos ataques indiscriminados contra civis desarmados – aos que agora se juntam animais suspeitos de portar explosivos – só provem de postos de controle militar norte-americanos, cujos efetivos encontram-se numa permanente situação de estresse e tensão pelos constantes ataques com obuses a que são submetitos por parte da guerrilha iraquiana.
Desde março passado, as agências e os correspondentes no Iraque começaram a registrar essa situação com relatos de furiosos cidadãos iraquianos que perderam suas famílias, ou que saíram com vida de alguns desses ataques dos marines.
A agência AP, por exemplo, registrou o testemunho furioso de várias vítimas, entre elas o de Abdulá Mohammed, cujo irmão foi morto a tiros por soldados norte-americanos, em 28 de fevereiro passado, enquanto conduzia seu carro por uma cidade de Ramadi.
Mohammed disse que seu irmão havia se aproximado muito de uma patrulha norte-americana. “O mataram sem motivo, dispararam repentinamente contra seu automóvel”, afirmou.
Os veículos militares que patrulham Bagdá trazem legendas em árabe que advertem aos demais a manterem-se longe, do contrário correm o risco de enfrentarem uma “força mortífera”. Advertências similares estão colocadas nos postos de controle norte-americanos, distribuídos por toda a cidade.
Doentes mentaisMuitos marines sofrem profundas enfermidades psiquiatricas depois de servir no Iraque. Segundo um documento da marinha dos EUA, obtido pela União Americana das Liberdades Civis e difundido em fevereiro passado.
O documento assinala que alguns marines relataram como haviam matado soldados iraquianos em combate, ou haviam apunhalado iraquianos que estavam no chão, com a finalidade de assegurar-se de que estavam mortos. Alguns deles foram apunhalados até 28 vezes.
Segundo o The New York Times, o estudo demonstra que “um em cada seis soldados norte-americanos tem sintomas de ansiedade aguda, forte depressão ou desordem de estresse pós-traumático, uma proporção que, segundo alguns especialistas, poderia aumentar eventualmente até um em cada três, a taxa que foi dada aos veteranos do Vietnã.”
Os quadros segundo o informe, são causados pelo estresse e ansiedade que os militares devem enfrentar diariamente num terreno “hostil” e infestado de perigos desconhecidos.
O documento mostra que a principal causa de estresse angustiante é produzida por medo dos ataques com explosivos em primeiro lugar e as emboscadas em segundo lugar.
Estes problemas psicológicos têm incrementado a taxa de suicídios entre os marines norte-americanos, que alcançou seu nível mais alto dos últimos cinco anos.
Segundo o The New York Times, em 2004 foram 32 suicídios confirmados de marines norte-americanos, ultrapassando assim os 28 ocorridos em 2001, quando os EUA invadiram o Afeganistão.
Ainda que os marines sejam o corpo militar mais reduzido dos EUA, no que diz respeito ao número de seus efetivos, têm tido a taxa mais alta de suicídios, uma média de 25 ao ano dentre os distintos corpos militares dos EUA desde 1999, ano em que o governo norte-americano começou a conservar registros detalhados.
Ademais, o Times assinala que “até fins de setembro, o exército havia evacuado 885 soldados do Iraque por razões psiquiátricas, incluindo alguns que haviam ameaçado cometerem suicídio.
O original em espanhol encontra-se em www.iarnoticias.com
Traduzido pelo CeCAC para o português. (Tradução de L.A.C.)
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Este artigo encontra-se em www.cecac.org.br
28/setembro/2005