Com Memória do saqueio, Solanas faz libelo contra a genocida política imperialista


Ficam marcadas as imagens contundentes e emocionantes da realidade argentina evidenciadas particularmente quando a câmera de Fernando Solanas foca crianças desnutridas, algumas moribundas, entrecortadas pelos depoimentos de dois pediatras. Imagens de uma realidade cruel que contrasta com o mundo da superficialidade que os meios de comunicação costumam veicular, talvez o motivo da inexpressiva divulgação que o filme obteve deles.

A desnutrição infantil explodiu na Argentina com a implementação das políticas do imperialismo, também conhecidas como "neoliberais", que vêm de Afonsin a De la Rua, passando pelos dois mandatos de Menem – ápice do neoliberalismo na Argentina -, período que Memória do saqueio busca abranger. Foi um intensivo trabalho de investigação com um conjunto de imagens, informações, dados e números – extraídos de fontes oficiais, o diretor faz questão de registrar.

No filme, dividido em vários atos (A dívida externa, A história de uma traição, A entrega do petróleo...), Solanas apresenta os setores que ele classifica como “mafiocracia”, representação política das classes dominantes argentinas que se extasiaram ante a oportunidade de estabelecer “relações carnais” com o imperialismo [1]. E assim, em troca de benesses, entregaram o país ao saqueio do sistema financeiro e conglomerados internacionais.

Memória do saqueio é objetivo e didático, apresenta cada esfera: do sistema financeiro aos representantes políticos, não esquecendo dos sindicalistas que traíram suas categorias. Entre as falcatruas levantadas, tiveram destaque a entrega das estatais, a desnacionalização, o sucateamento da indústria argentina que levou expressivos contingentes do povo argentino ao desemprego e à miséria.

Guardadas as especificidades de cada país, de cada formação social, o filme faz a denúncia dos interesses locais envolvidos e da política neocolonial de saque, de invasão, de uma guerra não declarada, não “convencional” que o sistema imperialista perpetra contra a América Latina, gerando um número de vítimas, inclusive de mortes, tremendamente superior ao das guerras anunciadas.

Solanas dá voz e imagem aos piqueteiros, trabalhadores desempregados que fecham estradas para denunciar a sua situação de abandono e miséria. E inicia e termina seu filme com as manifestações de dezembro de 2001, quando o povo argentino tomou as ruas e, enfrentando a polícia, nelas permaneceu, o que obrigou De la Rua a renunciar. Mobilização que ainda não se conformou em uma expressão política do povo argentino em condições de tomar o poder e garantir uma política de real defesa dos interesses dos trabalhadores, dos interesses populares e nacionais. Mas mobilizações e protestos que obrigaram o presidente Kirchner a tomar algumas medidas contrárias à política do imperialismo.

Resistência que animou a luta popular na América Latina e levou o diretor a realizar outros filmes em continuidade a este (A dignidade dos ninguéns, de 2005, e mais dois anunciados: Argentina latente e Terra sublevada). E ao final, é verdadeiramente estimulante perceber um diretor mobilizado, sintonizado com as questões mais candentes de seu país (e da América Latina) e que dedica Memória do saqueio “àqueles que resistiram a esses anos. À sua dignidade e coragem”.

[1] Termo usado, literalmente, pelo governo Menem para definir as relações com o imperialismo norte-americano e que orientaram a política de seu governo ao longo da década de 90.


Memória do Saqueio (Memoria Del Saqueo) Argentina – França – Suíça. 2004. Direção: Fernando E. Solanas. Documentário. Música: Gerardo Gandini. 120 min. 12 anos. Cor.

Confira aqui a filmografia de Fernando Solanas

 

Solanas no Festival de Berlim 2004

Memória do saqueio - fotos

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04/outubro/2005