Razões para a guerra
“O estilo de guerra norte-americano pode ser descrito como um poder de fogo impressionante, apoiado por uma logística impressionante. Para cada atirador por aí, para cada homem com um rifle, há centenas de outros por trás, apoiando, fornecendo munição, as botas, a gasolina dos tanques, o diesel”.
“a indústria [bélica] tem que ser lucrativa, caso contrário os acionistas não vão gostar”.Documentário lançado nos Estados Unidos em 2005, dirigido por Eugene Jarecki, causou polêmica ao mostrar as relações entre a economia e a política de guerra norte-americanas.
O título em inglês, Why we fight (Porque lutamos), remete aos célebres documentários de Frank Capra usados como propaganda no esforço de guerra dos anos 1940, para estimular o apoio popular na luta contra a ameaça do nazi-fascismo ao lado da URSS, tida até então como um país inimigo dos EUA.
Por que lutamos? Nos anos 1930-1940 a ameaça do nazi-fascismo encobria o acirramento das contradições interimperialistas, que culminaria num conflito de dimensões planetárias entre as principais potências imperialistas por uma nova partilha do mundo.
Por que lutamos? Neste documentário, as respostas com que o diretor se deparou são vacilantes, mas situam-se entre o ingênuo e desgastado “pela liberdade” e “para defender nossos interesses”. Mas, afinal, o que significa “nossos interesses”?
A partir de argumentos utilizados pelas classes dominantes dos EUA para justificar a necessidade de o país estar sempre se preparando para uma guerra e estar sempre travando alguma batalha em algum lugar do mundo, o documentário mostra a crescente militarização da economia norte-americana, e foi produzido em meio à segunda invasão norte-americana ao Iraque sob o governo de George W. Bush.
O documentário inicia com um trecho do discurso do presidente Dwight D. Eisenhower, em 1961, alertando a população quanto ao crescimento “desmesurado” daquilo que ele chamou de o complexo industrial-militar norte-americano e suas conseqüências. Jarecki recolheu entrevistas com militares, congressistas, analistas militares, intelectuais e outros personagens, para fazer uma análise consistente sobre as reais necessidades das classes dominantes norte-americanas de travar guerras.
Aqui um parêntese: Do ponto de vista das grandes corporações, dos negócios capitalistas, as guerras costumam ser muito lucrativas. A história da Segunda Guerra Mundial está repleta de evidências disso, como por exemplo, o fato de a frota nazista ter sido motorizada pela Ford e movida com gasolina da Standard Oil; o sistema de controle dos campos de concentração/extermínio ter sido projetado e construído pela IBM, entre outros exemplos do fornecimento de materiais e logísticas bélicas por parte de grandes corporações estadunidenses aos nazistas. Fatos que mostram que para os capitalistas não há problema em negociar com o “inimigo”.
De volta ao documentário, Jarecki mostra como, terminadas as “oportunidades” para os bons negócios da guerra, em meados dos anos 1940, era preciso encontrar um bom motivo para manter aquecida a demanda por artefatos bélicos nas décadas seguintes. Criou-se uma espiral na qual o complexo industrial-militar cresceu de forma impressionante, tornando cada vez mais próximas as relações entre as grandes corporações e o aparelho de Estado.
Essa característica é mostrada por Jarecki: o complexo industrial militar tornou-se um grande financiador de campanhas políticas para manter seu status. E os políticos retribuem fazendo sua parte, encontrando formas de manter a demanda governamental por armamentos em ascensão, de modo que todos eles - as classes dominantes norte-americanas, evidentemente - saem ganhando.
Dois exemplos:
“O bombardeiro B-2 tem uma peça dele feita em cada um dos estados, para garantir que, se alguém tentar acabar com o projeto, vai receber reclamações veementes, reclamações dos membros mais liberais do Congresso.” (declaração de Chalmers Johnson, ex-agente da CIA)
“Deus abençoe nossos empreiteiros.” (declaração de um congressista)
O documentário mostra também como ficou claro que a continuação – por outros meios – da guerra seria um excelente negócio, e o crescimento do complexo industrial-militar tomou uma importância que, se seus lucros diminuíssem, toda a economia do país certamente sentiria o impacto. Como diz Wally Saeger, um dos militares entrevistados no filme, “a indústria [bélica] tem que ser lucrativa, caso contrário os acionistas não vão gostar”.
Jarecki entrevistou o escritor norte-americano Gore Vidal, que ao recordar sua participação na Segunda Guerra Mundial esclarece uma das mais conhecidas inverdades sobre a participação dos Estados Unidos na Segunda Guerra, que diz respeito às motivações do presidente Truman em lançar as duas bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki.
A versão oficial é de que se as bombas não tivessem sido lançadas, o conflito teria se estendido por muito mais tempo, causando a morte de milhares de soldados norte-americanos. No entanto, os motivos foram outros: as bombas foram usadas como uma espécie de recado para o mundo inteiro, sobretudo para a vitoriosa URSS dirigida por Stálin: há uma nova liderança mundial indiscutível, os EUA. E eis que se inicia a “guerra fria”.
Sob o pretexto de zelar pela democracia e pela liberdade lutando contra a ameaça comunista onde quer que ela exista, houve uma escalada nos gastos militares nos Estados Unidos. Depois do fim da Segunda Guerra Mundial, o orçamento para “defesa” aumentou mais de quatro vezes em cinco anos. No período pós-segunda guerra mundial, as agressões militares dos EUA contra dezenas de países na América Latina, Ásia, África e Europa são a prova mais contundente disso.
Com o colapso do bloco socialista e o fim da URSS, no início dos anos 1990, a ofensiva do imperialismo se fez sentir de forma ainda mais explícita, com a reformulação da estratégia de dominação dos EUA e o avanço das bases militares norte-americanas em regiões estratégicas do globo, sempre à busca de garantir mercados, de áreas de influência política, e fontes de matérias-primas, e, não menos importante, com o objetivo mais ou menos explícito de deslocar/impedir outros países imperialistas do acesso a essas regiões ou a esses recursos.
Nesse novo contexto, com o obscuro episódio de 11 de setembro de 2001, é lançada a “guerra contra o terrorismo”. A guerra no Iraque não é um evento isolado: apenas um dia depois do 11/9, a cúpula de Bush já estudava a invasão do Iraque, anunciada por Bush pouco depois, sob a (falsa) alegação de que o Iraque possuía armas de destruição em massa, um exemplo claro de desinformação da opinião pública.
Mais de cinco anos depois, o Iraque é um país banhado em sangue e destruído pela barbárie das “bombas inteligentes” lançadas pelos aviões norte-americanos ambos construídos pelas grandes corporações transnacionais do complexo militar-industrial. Apesar disso, o povo iraquiano resiste heroicamente, e vem impondo limites ao avanço do imperialismo norte-americano.
O papel da ideologia e da propaganda na manutenção desse estado de coisas é fundamental. Apresentar os interesses das classes dominantes, particularmente do complexo militar-industrial, como “nossos interesses”, isto é, como interesses das classes dominadas, manter coesa a opinião pública e evitar dissidências são questões de primeira ordem:
“o Pentágono, por muitos anos, desde o Vietnam, tem se esforçado para manipular as notícias e como a mídia transmite essas notícias. Treinamos pessoas para dizerem certas coisas de certas formas.” (declaração de Karen Kwiatkowski, tenente-coronel reformada, trabalhou 20 anos no Pentágono)Hoje o orçamento para a defesa dos EUA é maior que todas as outras áreas somadas. Só para ilustrar: o dinheiro empregado para construir apenas um destróier é suficiente para criar moradias para 8.000 pessoas. Com um preço de um avião bombardeiro pode-se construir 30 escolas.
O vice de Bush, Dick Cheney sempre esteve ligado a uma megacorporação - a Halliburton - que inclui a manufatura de produtos bélicos, mas opera principalmente na área que vem sendo chamada de “terceirização da guerra”. Uma espécie de “parceria público-privada” bastante lucrativa: o patrimônio de Cheney era de US$ 1 milhão quando tomou posse. Em cinco anos passou para US$ 60 milhões.
A esse respeito, é interessante ouvir a seguinte declaração:
“Temos um momento na história, depois de 11 de setembro, em que pelo menos 71 empresas que não pudemos identificar estavam começando a receber contratos para ir para o Afeganistão e para o Iraque. As dez primeiras dessas empresas tinham ex-funcionários públicos que trabalharam no Pentágono ou em outras partes do governo dos EUA em seus conselhos de diretores ou como seus executivos. É conhecido como a porta giratória e a pessoa leva vantagem o tempo todo. Os funcionários vão para as empresas e recebem o triplo, o quádruplo, às vezes, dez vezes mais dinheiro do que recebiam no serviço público.” (declaração de Charles Lewis, Center for Public Integrity)Num determinado ponto do documentário, Richard Peerle, Conselheiro do Departamento de Defesa dos EUA e entusiasta da chamada “doutrina Bush”, afirma que a acusação de que o vice-presidente Cheney estaria se beneficiando de sua conexão com a Halliburton “não passa de um esforço escandaloso para associar o vice-presidente com as atividades de uma empresa com a qual ele não tem conexão, nenhuma conexão.”
Essas, as principais as razões para a guerra...
Razões para a guerra
(Why we fight)
EUA, 2005
Direção de Eugene Jarecki
99 minutos, legendado.
Nesta quinta-feira, dia 24 de julho, a partir das 18h30 no CeCAC: exibição de Razões para a guerra, seguido de debate
O Complexo industrial-militar também é acadêmico:De acordo com dados do pesquisador Nick Turse, autor do livro O Complexo, desde a Segunda Guerra Mundial o sistema universitário dos EUA depende do financiamento do Pentágono para pesquisa e desenvolvimento, uma relação que tem “o dinheiro e a força para alterar o panorama da educação superior, para manipular agendas de pesquisa, para mudar o curso de currículos, e para forçar as escolas a cumprirem as regras.”
Em seu livro Turse mostra que uma instituição, o MIT (Massaschussets Institute of Technology) e sua fundação “sem fins lucrativos” a MITRE Corporation, receberam um total de US$883.832.277 do Pentágono para pesquisa e desenvolvimento.
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20/julho/2008