Filme & Debate:

Quando Tudo Começa

Dia 16 de abril, quinta-feira, às 18:30h, no CeCAC

Av. 13 de maio, 13 - salas 1901 e 1903 - Rio/RJ

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Atividade dirigida para professores da educação básica: A exibição do filme tem como objetivo reunir professores que atuam nas escolas de ensino fundamental e médio para trocar experiências, refletir sobre as condições de trabalho e as perspectivas de mudanças na educação.

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Título Original: Ça Commence Aujourd'Hui
Direção: Bertrand Tavernier
França, 1999
Duração: 117 min.
Elenco: Philippe Torreton (Daniel Lefebvre),
Maria Pitarresi (Valeria),
Nadia Kaci (Samia Damouni),
Véronique Ataly (Mrs. Lienard),
Nathalie Bécue (Cathy)

O filme traz a história de Daniel Lefebvre, professor e diretor de uma escola pública da pequena cidade de Hernaing, na França, em 1998. A cidade sofre com o fechamento das minas de carvão e enfrenta uma taxa alarmante de 34% de desemprego. Os professores são aconselhados a não se envolver com os problemas crônicos da comunidade, mas é impossível para Daniel permanecer imune à miséria, à falta de assistentes sociais, à indiferença do governo e aos sérios problemas domésticos que suas crianças enfrentam.

Defronta-se com situações dramáticas vividas pelas famílias das crianças que estudam na escola, como no caso de uma mãe que, de tão bêbada, acha melhor não levar os filhos para casa. Daniel entra em contato com assistentes sociais e, ao ser ignorado, no fim do dia decide levar as duas crianças à casa. Lá percebe que o chefe da família está fora da cidade, em busca de trabalho na Bélgica, e a casa está às escuras, sem aquecimento no inverno, por falta de pagamento da conta de luz.

Resistindo a todo o tipo de dificuldades da burocracia do sistema de ensino e das tentativas de manipulação das autoridades educacionais, o professor Daniel decide se contrapor ao governo local, reivindicando condições mínimas de vida e dignidade para a população.

O diretor de Quando Tudo Começa, Bertrand Tavernier (1941), faz parte da leva de cineastas europeus comprometidos em realizar filmes políticos e sociais, que denuncia com sensibilidade e estimula a reflexão sobre os problemas impostos pelo sistema capitalista na atualidade. No filme, o diretor focaliza os efeitos das chamadas políticas neoliberais implantadas na Europa a partir da década de 1980 sobre a população pobre que frequenta a escola daquela cidade francesa.

O filme foi eleito o melhor na votação do público no Festival de San Sebastian de 1999. De dentro da escola se move entre documentário e ficção, fazendo o público vivenciar os problemas enfrentados pelos professores que a todo o momento se indagam sobre o papel da escola em um contexto de perdas dos direitos sociais, assim como se vêem cada vez mais tensionados ao desempenhar a profissão de professor. É o que se depreende de um diálogo entre uma professora mais antiga na escola e Daniel, reproduzido por Paixão (2003) :

“Há vinte anos eu tinha 45 alunos. Não nos queixávamos. Tinha 45 alunos, heim! Havia disciplina. As crianças eram pontuais e estavam sempre limpas. O que não significa que não houvesse pobreza. Hoje em dia é diferente. Tenho 30 alunos e não dou conta. Eles não só chegam atrasados, como vêm sujos. Os pais estão frequentemente em situação de desespero. São poucos os que trabalham. As crianças nem sabem mais o que é uma profissão. E pode-se dizer que só tem a mim com quem falar. [...] Se eu lhes mostrasse as crianças, o estado em que se encontram! Tão pequenas e tão frágeis. As mães não cuidam mais dos seus filhos como antes. É como se elas quisessem se livrar delas. Elas levam as crianças à escola mesmo com 40 graus de febre. Passam o dia diante da TV. À noite fazem o mesmo com eles para ficarem tranquilos. Até durante o jantar. Resultado: temos de lhes ensinar tudo! Até a dar bom-dia. Tem mais. Alguns nem sabem que podemos conversar com alguém. As palavras servem para dizer: tenho fome, tenho frio, tenho sede. É a sobrevivência.”(1)

Mesmo se passando em um contexto diferenciado do Brasil, não se pode deixar de identificar nesse depoimento da professora semelhanças com o cenário em que se encontra hoje a escola pública no Brasil e com as dificuldades do trabalho do professor. Mas, muito além da denúncia, o filme também conclama à ação quando, pela indignação do professor Daniel, se apresenta como um vigoroso protesto contra as políticas sociais implantadas na França, em plena vigência do “neoliberalismo”. Tal como naquela época, faz-se necessário hoje a ação política em torno dos problemas da escola pública, agravados pela profunda crise econômica e social do capitalismo, do sistema imperialista.

(1) PAIXÃO, Léa Pinheiro. Quando tudo começa. In: TEIXEIRA, Inês Assunção de Castro e LOPES, José de Souza Miguel (orgs). A escola vai ao cinema. Minas Gerais: Autêntica Editora, 2003

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14/abril/2009