A crise, a luta de classes e o governo Lula
”Ver um crime
com calma é cometê-lo".
José Martí
O
agravamento da crise econômica, social e política no Brasil e no
mundo tem exigido dos setores conseqüentes das forças sociais um
redobrado esforço de interpretação da conjuntura, da luta
de classes, no sistema imperialista e no Brasil.
O CeCAC tem desenvolvido enorme esforço juntamente com seus associados
para proporcionar aos que lêem nosso Boletim e participam de nossas atividades
elementos para que possam realizar uma análise crítica da conjuntura.
Daí o número especial do Boletim com o artigo "'As notícias
econômicas podem ficar horríveis' ou O governo Lula e a crise do
imperialismo" e a necessidade de voltarmos a analisar o desenvolvimento
da conjuntura, isto é, do estado da luta de classes hoje, no Brasil.
Indicávamos naquele artigo que a luta de classes se dá no Brasil
em meio a uma das mais sérias crises do imperialismo. Para que se perceba
a gravidade da crise estrutural que vive o imperialismo basta que se verifique
o que de capital foi queimado na Bolsa de Nova Iorque (1) entre setembro de
2002 e fevereiro de 2003: 7,225 trilhões de dólares. A queima
de capital se estendeu pelas bolsas por todo o mundo, de Londres a Tóquio,
etc. e, como aponta a crítica marxista do imperialismo, quando a economia
mundial entra em crise, e a crise começa atingindo o capital financeiro
nos países dominantes, este corre para os países dominados do
sistema a fim de arrancar os lucros que já não pode obter nos
países imperialistas.
O segundo ponto é que as classes dominadas no Brasil estão ainda
num processo, no geral, defensivo, apesar de que a eleição de
Lula expressou seu grau de insatisfação. E esta conjuntura de
defensiva da classe operária e da eleição de Lula à
presidência permite que venha à luz a disputa entre as diversas
frações da classe dominante e de que estas manobrem abertamente
para dirigir o governo Lula no rumo que melhor lhes convêm, sem o risco
de uma iminente ameaça ao poder pelas classes dominadas.
Contradição nas classes dominantes
De um lado, o capital financeiro internacional e seus principais aliados internos
- a fração da burguesia brasileira, principalmente ligada ao capital
financeiro - que ditam, através do Ministério da Fazenda e do
Banco Central, a política que representa principalmente seus interesses.
Política assegurada pelo governo Lula que assumiu a expressão
mais acabada do pensamento “único” neoliberal: acumular capital
emprestando dinheiro ao Estado ou intermediando esta operação,
e assim, garantir a colossal transferência de capital para os países
imperialistas.
De outro lado, a fração da burguesia brasileira - principalmente
aquela ligada ao grande capital produtivo, sócio menor do capital financeiro
internacional - que tem contradições com a exacerbação
da política do imperialismo, levada a cabo pelo governo, e que busca
introduzir mudanças nesta política que permitam uma retomada da
produção na indústria. O melhor exemplo da disputa está
estampado no editorial, publicado na primeira página da Folha de São
Paulo, no dia 18 de maio de 2003, sob o titulo “Sem medo de crescer”,
expondo claramente a contradição nas classes dominantes.
"Esquartejar a inflação" ?
A política de manter uma altíssima taxa de juros e um colossal
superávit primário em nome de “esquartejar a inflação”
pode parecer algo estranho no momento em que a crise estrutural do imperialismo
se manifesta na tendência nítida à queda da taxa de lucro
por toda a economia mundial, levando o FMI a alertar para as possibilidades
de uma deflação nos principais países imperialistas: EUA,
Alemanha e Japão.
É no mínimo estranho que, contra qualquer justificativa razoável,
o governo Lula produza um superávit fiscal de cerca de 6% do PIB para
pagar em torno da metade dos juros, mantidos altos artificialmente através
da taxa básica de juros de 26,5 % e de uma taxa de juros privados que
chega a 12% ao mês.
E aqui um parêntese: o que não quer dizer que o grande destaque
que a imprensa tem dado à crítica aos juros altos e ao próprio
José de Alencar – expressão das contradições
entre as frações da classe dominante – não seja parte
de uma estratégia da classe dominante de colocar o problema exclusivamente
nas taxas de juros que, com a queda da inflação, tiveram um aumento
real brutal - mesmo mantendo a taxa juros nominal em 26,5%. Portanto, há
margem para que, provavelmente e em breve, Meirelles possa baixar em alguma
coisa a taxa selic, e mesmo assim, manter os estratosféricos níveis
dos juros reais, queda essa que vai dar um fôlego por mais algum tempo
à demagogia de que está chegando a época da “colheita”,
da “transição”.
É muito estranha esta política econômica no momento em que
a economia mundial apresenta uma queda no valor de todos seus ativos (moedas,
commodities, títulos das dívidas públicas, etc.). E se
manifesta no mercado mundial uma nítida tendência à queda
dos preços das mercadorias, levando a que os principais países
imperialistas rebaixem suas taxas de juros (taxas de juros que nos EUA já
vêm caindo e Greenspan vai reduzi-las ainda mais; na União Européia
e no Japão há muito a taxa de juros é negativa) e aumentem
os gastos do Estado na esperança de retomar o crescimento de suas economias.
O retrocesso representado pela política do governo que significa estagnação
econômica, desemprego e perda de renda para a maioria da população
brasileira é apresentado por Lula e por dirigentes petistas como necessário
para conter a inflação e restabelecer o equilíbrio fiscal.
Porém, todos sabem que o saque das riquezas do país com o pagamento
de juros colossais não estabelece o equilíbrio fiscal.
Não estamos dizendo que a contradição entre as duas frações
da classe dominante, o setor financeiro e a fração principalmente
ligada ao setor produtivo represente uma contradição entre o imperialismo
e uma burguesia nacional, mas sim que frações das classes dominantes
com diferentes relações de associação com o imperialismo
defendem políticas diferentes em aspectos secundários e se acordam
no principal.
É este quadro de defensiva das classes dominadas na luta de classes,
para o que, como já dissemos, contribui o fato de o PT estar no governo
e Lula ser o presidente da República, que torna possível às
frações da classe dominante trazer à tona suas disputas
em torno da política do governo e desenvolver um conjunto de ações
no objetivo de assegurar seus interesses.
"Mídia"
Por exemplo, o comportamento dos aparelhos ideológicos de informação
e de difusão (jornais, revistas, rádios, televisão, etc.)
com relação ao PT, antes marcado pelo enfrentamento ideológico
e político, mudou.
Podemos dizer que localizamos a primeira alteração significativa
no comportamento da “mídia” no ano passado, já durante
o processo da candidatura de Lula à presidência. Naquele momento,
as classes dominantes, percebendo a inviabilidade da candidatura oficial, iniciam
um deslocamento que significou centrar seu ataque em Ciro Gomes, principalmente,
e Garotinho e apresentar/construir um “novo” Lula, o “Lulinha
paz e amor”.
O segundo momento, mais complexo, se dá após a eleição
e compreende vários movimentos.
Primeiro, os aparelhos ideológicos trabalham para amarrar Lula às
posições políticas e da política econômica
que interessam principalmente ao capital financeiro internacional e às
classes dominantes nacionais que, associados, controlam o Brasil. Digo amarrar
porque Lula já vem caminhando, pelo menos desde o ano passado, de forma
mais definida para essas posições. E, no processo de consolidar
Lula nesta posição, os aparelhos ideológicos realizam um
trabalho em conjunto com políticos, economistas e entidades representativas
do imperialismo (FMI, Banco Mundial, Davos, etc.), apresentando declarações
de apoio, reforço, aprovação à política levada
à prática pelo governo Lula em encontros, reuniões, diretamente
à imprensa, etc. “Lulinha paz e amor” se tornou o discípulo
predileto de dona Anne Krueger, do FMI.
É neste quadro que se reflete na “mídia” a disputa
entre frações da classe dominante, a burguesia industrial, representada
por José de Alencar, Delfim e outros, e a fração do capital
financeiro internacional, representada por seus técnicos e funcionários
incrustados nos aparelhos de Estado, capitaneados por Meireles, Palocci, etc.
Segundo, a mídia desenvolve um trabalho de fortalecer a política
de Lula e seu governo junto aos setores mais conseqüentes e as parcelas
mais combativas das classes dominadas, enquadrando, intimidando, paralisando-os
e, ao mesmo tempo, procura deslocar os que, no mínimo, não se
paralisam para uma alternativa inócua, colocando-os debaixo dos “radicais
do PT”, do PSTU, do PCO.
Nunca os aparelhos ideológicos deram tanto espaço aos chamados
“radicais”. Jogam habilmente com estes, dando-lhes todo o espaço
na mídia. Isolam Lula da vanguarda mais consciente e mais conseqüente
das massas, dos setores que não se paralisam. Criam condições
subjetivas para que esses setores não tomem o caminho mais justo na condução
da luta de classes, trabalhando no sentido de que os "radicais" apareçam
como sua liderança, seu porta-voz, como representantes dos setores mais
conscientes das massas.
Agravamento da luta de classes
Com o aguçamento da luta de classes em nível internacional, da profunda crise do sistema imperialista, com o aprofundamento, no Brasil, da política do imperialismo praticada pelo governo federal (taxa de juros alta, superávit primário de 4,25% do PIB de 2003 a 2006 e câmbio flutuante, incluindo as reformas neoliberais da previdência, trabalhista, lei das falências e autonomia institucional do Banco Central), que aumenta o desemprego, a fome, a miséria, com queda do PIB no segundo trimestre, recessão, etc sustentar um personagem com a origem e a trajetória de Lula na presidência é a melhor alternativa para as classes dominantes enfrentarem a intensificação da luta de classes no Brasil.
A luta do povo
Contudo, a tragédia imposta pela política do imperialismo ao povo
brasileiro, hoje conduzida de forma ainda mais radical pelo governo Lula, leva
a luta de classes no Brasil a um momento decisivo: a luta de classes assume
formas mais claras e definidas sem o obstáculo representado pelo PT.
PT que se apresentava como uma alternativa intermediária, uma via imaginária
para uma situação imaginária, inexistente nas condições
históricas concretas, que já não seria o capitalismo “real”
nem o socialismo. Socialismo, aliás, pouco a pouco abandonado à
beira do caminho pela "nomemklatura" petista.
E como dizíamos em nossa edição especial. “Se tudo
isto estiver correto, é mais uma razão para que os militantes
socialistas assumam a tarefa de desenvolver a teoria marxista - no estudo dos
textos e da experiência revolucionária do século XX - e
sua prática política na nova situação histórica
que aponta para mudanças radicais em nossa conjuntura. Temos de fazer
em todos os lugares nos quais atuamos a denúncia concreta da política
levada à prática pela nomemklatura petista no governo Lula e desmascarar,
para a vanguarda das massas, o PT enquanto representante de qualquer esquerda,
apontando, não só as contradições concretas que
determinam a exploração de nosso povo, como o caminho para superá-las.
Só assim será possível abrir caminho para a reconstrução
de uma vanguarda capaz de representar os interesses da classe operária
e de nosso povo e dirigi-lo no processo de sua libertação.”
A opção revolucionária é colocada pela situação
concreta em que vive o Brasil e o mundo, ou o socialismo ou a barbárie
na qual já estamos vivendo, e que o capitalismo promete agravar. A luta
do povo brasileiro está a exigir ações concretas e a constituição
de uma vanguarda política e ideológica capaz de dirigir o povo
brasileiro em sua luta. O tempo é curto e exige de todos os companheiros
comprometidos com esta perspectiva que construam esta vanguarda.
Marco
Antonio Villela dos Santos