Lula, o metalúrgico como o gringo gosta!
Um
conjunto articulado de entrevistas e pronunciamentos de Lula – entrevista
“exclusiva” ao “Fantástico”, entrevista à
“Veja”, “pronunciamento” em cadeia nacional de rádio
e televisão, há alguns dias, nos chamou a atenção.
Lula tornou-se o queridinho da “mídia”, ou, traduzindo, o
queridinho dos aparelhos ideológicos de Estado de informação
e difusão. Esses fatos nos levaram a escrever este artigo para o Boletim
do CeCAC e nele tentar “captar a mensagem” do presidente.
Como se pôde comprovar pelas entrevistas, consolidou-se o trabalho destes
aparelhos ideológicos em “amarrar” Lula às posições
das classes dominantes, processo que analisamos em nosso último Boletim.
Estes aparelhos passaram a pautar Lula. Pautar Lula pelas posições
ideológicas e políticas das classes dominantes e aos interesses,
principalmente, do grande capital financeiro internacional e nacional que, integrados
às demais classes dominantes nacionais, determinam as políticas
de governo.
Neste processo é importante denunciar a fabricação da “Crise
Social” (anunciada na “Folha de S. Paulo”) por estes aparelhos
ideológicos, a armação, o ardil dos aparelhos ideológicos
com o propósito de criar uma imagem dos “movimentos sociais”
de violência e ilegalidade, especialmente do MST. Caracterizar como ilegal,
violenta e incontrolável as ações dos “movimentos
sociais”, ao forjar notícias, maquiar fatos, para que se crie na
“opinião pública” - as classes dominantes e as camadas
médias, principalmente - a convicção de que se vive uma
situação de instabilidade social, de “Crise Social”.
O objetivo desta artimanha não é só e principalmente “criminalizar”
o MST, porém “criminalizá-lo” para produzir fatos
e situações que levem Lula a romper e reprimir o MST e os “movimentos
sociais” ou intimidá-los, enquadrá-los e, assim, consumar
seu casamento, de papel passado, com as classes dominantes.
É importante ler o artigo de Antonio Costa sobre a fabricação
da “Crise Social” na revista Carta Capital, aliás, um dos
raros meios de imprensa a denunciar o trabalho dos aparelhos ideológicos
de Estado de informação e difusão. Depois de demonstrar
que “O MST, na defensiva desde 2001,...” na melhor das hipóteses
realizará neste ano 70% menos ocupações do que quatro anos
atrás. Diz Costa em seu artigo: “Quem acompanha as primeiras páginas
e os editoriais dos grandes jornais, rádio e telejornais terá,
porém, a impressão de que os sem-terra, sem-teto e demais excluídos
estão a realizar a maior ofensiva de todos os tempos e a um passo de
marchar sobre o Palácio de Inverno, digo, do Planalto”. Aponta
a crise financeira dos “meios de comunicação” no Brasil
e conclui denunciando a “... decisão do governo Bush de reforçar
sua aliança com os ramos mais conservadores da mídia e tentar
facilitar a concentração do setor”. (Antonio Costa, "Dize-me
com quem andas e...", Carta Capital, no. 254, pg. 26).
Contudo, se hoje a filiação da nomenklatura petista às
classes dominantes se torna evidente, mesmo que se tentasse encobrir, já
de há muito a política praticada pelo PT, no fundamental, sempre
serviu a estes interesses. As classes dominantes por toda a história
da luta de classes, desde o início do século passado quando não
foi mais possível impedir a organização da classe operária,
trabalham com a tática de sua divisão. Divisão na luta
política e sindical, estimulando a criação para isto dos
“partidos” social-democratas, tática através da qual
a burguesia tenta anular a construção e atuação
das organizações proletárias, pregando uma ideologia simples,
subproduto da ideologia burguesa destinada às classes dominadas, uma
ideologia pequeno-burguesa reformista apresentada no caso do Brasil sob tintura
radical.
No Brasil foi o PT, concretamente, o instrumento da burguesia para alcançar
este objetivo. Dividir a classe operária, afastá-la de sua teoria
e de seu partido, não só levando o principal do movimento sindical
para uma política de colaboração de classes, como obstaculizando
a construção do partido que expresse os reais interesses do proletariado.
Toda esta conjuntura cobra dos setores progressistas e democráticos do
país redobrar sua atenção na análise da situação
concreta.
Da discussão que vimos realizando, aqui, no CeCAC, em torno dos rumos
do governo Lula, ressaltam algumas questões do debate nacional sobre
a política do governo (questões sistematizadas pelo companheiro
Pedro Castro em seu artigo “Sobre as faces da moeda”, Inverta, 18
a 24/07/2003) que merecem ser retomadas. Segundo o companheiro Castro, a primeira
delas é a de “que, logo mais, tanto a necessidade de maior clareza
do significado de conceitos e expressões (...) quanto a ampliação
da discussão das diferentes formas de luta estarão também
na ordem do dia”. “(...) Nesse sentido, a precisão de idéias
é uma das demandas cruciais que se impõem”.
Aclarar posições teóricas e políticas
Na verdade, é necessário que na tomada de posição
em torno da política levada a cabo por Lula - porque no debate é
disto que se trata - que se explicitem as posições teóricas
e políticas de quem fala, porque só assim poderemos ter claro
não só “conceitos e expressões”, como também
as diferentes formas de luta com que as massas poderão enfrentar esta
conjuntura.
Do nosso ponto de vista, podemos circunscrever, resumidamente, os críticos
do governo Lula vindos do campo que se autodenomina de esquerda a dois grupos.
O primeiro grupo, o dos que se acusam de marxistas, mas na verdade esquerdistas
ou reformistas, resultam da pressão com que a ideologia dominante empurra
incessantemente, como sabemos desde Lênin, o movimento operário,
as classes dominadas, em direção a dois desvios: por um lado,
o desvio economicista e por outro o esquerdismo, o desvio revolucionarista,
sobretudo nesta conjuntura em que a agonia do imperialismo em sua crise coloca
em primeiro plano as tarefas da luta antiimperialista.
Como expressão dos desvios desta luta, temos de um lado um conjunto de
partidos e organizações que fazem sua crítica a partir
do ponto de vista de um esquerdismo delirante - crítica que, no geral,
se resume a uma verborragia radical sem ponto de contato com a realidade; de
outro, temos a posição das diversas correntes e partidos reformistas,
posições que vão daqueles que usam a terminologia marxista
para uma crítica cosmética, assegurando seus cargos no governo,
até as que propõem abertamente que de pequenas reformas em pequenas
reformas faremos a revolução.
A segunda vertente de oposição à política do governo
Lula - e esta tem grande repercussão entre os setores mais mobilizados
das massas - parte de um grupo de intelectuais e militantes, grande parte deles
filiados ao PT ou muito próximos deste, que defendem de forma séria
a possibilidade e a necessidade que o governo Lula implemente uma outra política
econômica, diversa, pois “Assim, o país retomaria o desenvolvimento,
enfrentando o gravíssimo problema do desemprego e da péssima distribuição
de renda”.
Entre outros - Celso Furtado, Maria da Conceição Tavares, Francisco
Oliveira, Fiori, etc.- temos neste grupo de críticos, Leda Maria Paulani,
que teve publicado na Revista Reportagem, no. 44, de maio deste ano, artigo
sob o título “Brasil Delivery”.
Em seu artigo, Leda Paulani demonstra de forma cabal e competente que a política
do governo Lula não passa de uma reedição piorada da política
do governo Fernando Henrique; que Lula, como diríamos nós, se
porta como um leal administrador do capitalismo. Paulani desmonta item por item
a argumentação dos mentores imediatos da política do governo
(Palocci, Meireles, Dirceu, Genuíno, etc, e do mentor-mor desta política,
Lula) de que: primeiro, esta é a única política possível;
segundo, é pré-requisito para o crescimento econômico e
o aumento do emprego. (Lula - pronunciamento nacional em rede de rádio
e televisão, 14/08/2003).
Não há a menor dúvida quanto às constatações
da análise de Paulani de que Lula é um FHC radicalizado, que a
política de Lula visa – principalmente – atender a política
do imperialismo o que, aliás, de outro ponto de vista, vimos tentando
demonstrar em nossos últimos boletins. Primeiro, que só o pior
cego, aquele que não quer ver por cegueira ideológica, pode negar
de que a política de Lula é uma continuação agravada,
exacerbada, da política de FHC. Segundo, que esta política não
leva a nada a não ser “ (...) a valorização dos capitais
especulativos que hoje dominam o processo de acumulação, ...”
(Leda Paulani, "Brasil Delivery") na economia capitalista mundial,
aquela que, depois de Lênin, passamos a chamar de imperialismo.
Contudo, a crítica que este grupo de intelectuais e militantes fazem
à política de Lula não sai do terreno da economia política
burguesa, dos limites do capitalismo em um país dominado. O crescimento
econômico que defendem é o crescimento econômico capitalista,
o que provavelmente reduziria o desemprego, e, quando falam em dependência
é para defender a diminuição da dependência externa
e não o seu fim. Portanto, sua visão é insuficiente, insatisfatória,
para depreender, conhecer, tanto as possibilidades de alternativas políticas
para o país no terreno da economia capitalista mundial, da qual o Brasil
faz parte, se isto fosse possível, quanto para pensar os caminhos para
superar a exploração e a opressão a que esta dominação
sujeita o povo brasileiro.
Por outro lado, as classes dominantes nacionais, desde os tempos de Collor,
vêm abraçando com entusiasmo esta política. É só
ver as declarações de Horácio Lafer Piva, presidente da
Fiesp, a principal organização de classe da classe dominante nacional.
O máximo que reivindica é uma “redução mais
agressiva da taxa Selic” e a “reversão da desaceleração
da economia com mais apoio do governo a setores que têm condições
de crescimento” (Reuters Investor, 13/08/03) e, portanto, não só
ele, como os demais empresários que se manifestaram sobre a redução
de 2,5% da Selic na reunião do Copom do dia 19 e 20, se mostraram exultantes
com a política econômica de Lula.
Um outro ponto de vista
O que queremos dizer é que só assumindo o ponto de vista da classe
operária podemos fazer com a radicalidade necessária a crítica
à política de Lula. Só analisando nossa conjuntura do ponto
de vista da classe operária podemos tirar todas as conseqüências
para o proletariado do fato de que o Brasil é um país dominado,
dominação esta que determina a forma em que aqui se dá
o capitalismo e sua peculiar inserção no sistema imperialista,
nos limites de sua formação econômico-social específica.
Não para dizer que nos limites de sua inserção, da dominação,
a luta por uma outra política não seja do interesse da classe
operária.
Muito pelo contrário, é do interesse da classe operária
e seus aliados lutar por empregos e salários. Portanto, a favor de medidas
econômicas concretas que permitam o desenvolvimento da economia, do mercado
interno, que abram espaço para um novo processo de “substituição
de importações”. É do interesse das massas lutar
por melhores condições de vida, saúde, educação,
moradia, etc. Portanto, a favor de que o governo realize investimentos na “área
social”, que realize investimentos na infra-estrutura. É do interesse
das massas do campo lutar pelo assentamento dos trabalhadores rurais, por melhores
condições de trabalho no campo, mesmo sabendo que estas medidas
econômicas e sociais não ultrapassam os marcos do capitalismo e
da política ditada pelo imperialismo. Como é do interesse da classe
operária e de seus aliados saber dos limites desta luta e como ultrapassá-los.
E que o decisivo no empenho por uma outra política dentro dos marcos
da dominação imperialista é a luta, a prática, a
experiência das massas (que se dá em cima da conquista de seus
interesses concretos), o crescimento do nível de consciência e
organização da classe operária e seus aliados, com o objetivo
de romper com a dominação imperialista, de acordo com estágio
atual da luta de classes, da correlação de forças.
Já afirmamos em número anterior deste Boletim, “(...) que
as classes dominadas no Brasil estão ainda num processo, no geral, defensivo,
apesar de que a eleição de Lula expressou seu grau de insatisfação”
e sabemos que é na luta de classes que a classe operária constrói
suas organizações de luta sindical e política e sua teoria.
E nesta conjuntura de defensiva das classes dominadas, em que temos um metalúrgico
como presidente, temos de levar em consideração que as classes
dominadas se vêem na necessidade de encaminhar suas lutas sem contar com
sua organização sindical e política de luta.
O que diz o marxismo-leninismo é que a história é a história
das lutas de classes, que são as massas exploradas que fazem a história
e a fazem na luta de classes sob a direção da organização
política da vanguarda do proletariado. E que o partido não poderá
assumir esse papel de direção, que pressupõe a educação
das massas, sua mobilização e organização, se não
estiver profundamente ligado a ela, se não fizer corpo com a classe operária
e com as massas exploradas nos desafios de suas reivindicações
objetivas econômicas e políticas. Porque, quando as massas se põem
em movimento, só aceitam a direção política do partido
se este já há muito tempo faz corpo com elas em seu dia a dia,
se já esta há muito tempo unido a elas na longa, difícil,
heróica, tenaz, e no mais das vezes silenciosa, luta contra a exploração
econômica do regime capitalista, seguindo uma linha justa.
São as massas exploradas que fazem a história
Se o partido se afasta, desaparece das massas enquanto partido revolucionário,
é prova de que não tem uma linha e uma prática justas em
relação a sua própria função política
e a sua própria função diante do proletariado e das massas.
O partido deve preocupar-se, até mesmo nos detalhes, com as reivindicações
das massas, fazendo o trabalho que lhe é específico, o trabalho
de esclarecimento, educação, propaganda, agitação
e organização políticas. Isto pressupõe a condição
absoluta de que o partido exista na classe operária e nas massas manifestando-se
aí enquanto tal. Seja conhecido e apreciado pelas massas, pela sua linha
política e ideológica e pela prática de seus militantes
e dirigentes. Só através de um largo período junto às
massas, aprendendo com elas e educando-as, mobilizando e organizando sua luta
de acordo com uma linha justa é que as massas reconhecerão o partido
como seu, como sua vanguarda.
Portanto, a tarefa que cabe neste momento, no qual o proletariado está
na defensiva, é a de estimular a ação da classe operária
e seus aliados naturais - não as pseudovanguardas com quem tanto gosta
de se distrair os esquerdismos - mas o proletariado, e não só
o proletariado, mas também os trabalhadores assalariados das cidades
e do campo, os camponeses em vias de proletarização, os camponeses
pobres, os funcionários públicos, as camadas médias, e
todos os que são objetivamente vítimas da exploração
capitalista, mobilizando-os, organizando-os, educando-os para os engajar na
luta a partir de uma linha justa.
E a linha justa hoje, não pode ser outra que não seja a de mobilizar,
organizar, educar e dirigir a classe operária e seus aliados no cotidiano
da luta de classes, nas suas reivindicações materiais, econômicas,
das mais simples às mais elevadas. Luta que se trava sem interrupção,
de maneira surda ou visível, e se irradia da prática da produção
para todas as esferas da sociedade, reconstruindo suas organizações
de luta, tendo a consciência que a batalha pelas reivindicações
da massa – a luta econômica – é uma luta política
e que a luta política só se dá sobre o terreno objetivo
da luta econômica.
Luta pelas reivindicações concretas das massas, contra o desemprego,
por melhores salários, melhor condição de trabalho e de
vida, pela terra, por melhor condição de trabalho na terra. Lutas
que as massas já estão travando em sua condição
concreta, sem deixar de lhes apontar os limites destas e de lhes esclarecer
sobre seus interesses.
Consideramos que o objetivo prioritário do trabalho político e
organizativo é o de realizar a fusão real da luta econômica
e política da classe operária e de seus aliados nas cidades e
no campo, reconstruindo suas organizações de luta sindical e seu
partido político.