70 ANOS DA ALIANÇA NACIONAL LIBERTADORA (ANL)* - parte 4Anita Leocadia Prestes [**]
Algumas conclusões
Num período de intensa polarização política no cenário mundial, diante do avanço do fascismo em nível internacional e do integralismo em âmbito nacional, a ANL desempenhou um papel decisivo na mobilização de amplos segmentos da sociedade e da opinião pública brasileira em defesa das liberdades públicas, gravemente ameaçadas pelos adeptos da Ação Integralista Brasileira, liderados por Plínio Salgado. A ANL promoveu grandes atos e manifestações contra o integralismo, contribuindo tanto para o desmascaramento do seu caráter antinacional e antidemocrático como para o seu crescente isolamento.A ANL ajudou a formar, no Brasil, uma consciência antifascista, antiimperialista e antilatifundista, que a derrota de novembro de 35 não seria capaz de apagar. Consciência que viria a renascer no início dos anos quarenta, com o movimento pela entrada do Brasil na guerra contra o nazifascismo, ao lado da URSS e das potências aliadas.
A conjugação da luta contra o fascismo e o integralismo com o combate ao imperialismo e ao latifundismo era justa, uma vez que o fascismo e o seu congênere nacional podem ser caracterizados como fenômenos associados, em determinadas circunstâncias, ao capital monopolista e financeiro (Gramsci, 1970, p. 101; Dimitrov, 1969, p. 117). Ao mesmo tempo, o capital estrangeiro, no Brasil, sempre se mostrou solidário com a manutenção do monopólio da terra, tendo seus interesses entrelaçados com os das oligarquias agrárias.
Os comunistas cometeram, entretanto, um erro de avaliação ao caracterizarem a situação do país como “revolucionária”, considerando que o desgaste do Governo Vargas seria tal que as suas condições de governabilidade estariam esgotadas. Confundindo os desejos com a realidade, os comunistas e muitos dos seus aliados superestimaram as possibilidades reais de organização e mobilização das massas populares. Consideraram que havia chegado a hora de levantar a questão do poder, lançando a diretiva de um Governo Popular Nacional Revolucionário, formado pela ANL, através de uma insurreição popular. A proposta dos comunistas, assumida pela ANL, mostrou-se fantasiosa e, portanto, inexeqüível, resultando na derrota do movimento.
A inviabilidade de promover uma insurreição das massas trabalhadoras no Brasil, em 1935, induziu os comunistas e seus aliados da ANL a sucumbirem à influência das concepções golpistas, fortemente arraigadas no imaginário nacional. Tal fenômeno sobreveio, apesar dos esforços desenvolvidos para organizar e mobilizar as massas, assim como das repetidas e insistentes declarações do PCB, de Prestes e da ANL condenando o golpismo. A conjuntura de intensa agitação e efervescência política então presente nas Forças Armadas foi um fator de grande importância para que esse novo surto de golpismo viesse a contagiar as “esquerdas” brasileiras.
O revés sofrido pelo movimento antifascista no Brasil, em 1935, não se explica, contudo, apenas pela influência das concepções golpistas. O Governo Vargas, não obstante o desgaste que vinha sofrendo junto a diferentes setores sociais, pôde tirar partido de uma conjuntura internacional favorável ao avanço do fascismo e ao estabelecimento de regimes autoritários para, com o apoio da direita e brandindo as bandeiras do anticomunismo, impor uma grave derrota às forças democráticas e progressistas do país.
[*] Publicado originalmente em Estudos Ibero-Americanos, PUCRS, v. XXXI, n. 1, p.101-120, junho 2005. Publicado neste sítio em quatro partes. Todas as referências são publicadas na primeira parte.
[**] Anita Leocádia Prestes é doutora em História Social pela UFF e professora de História do Brasil no Departamento de História da UFRJ. Endereço eletrônico: anitaprestes@ifcs.ufrj.br
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parte 3 - A ANL na ilegalidade
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19/agosto/05