A COLUNA PRESTES - UMA EPOPÉIA BRASILEIRA

Anita Leocádia Prestes [*]

28 de outubro de 1924: começa o levante tenentista no estado do Rio Grande do Sul. Logo a seguir tem início a marcha rebelde que, mais tarde, entraria para a História como a Coluna Prestes (ou a Coluna Invicta) – o episódio culminante do movimento tenentista.

A insatisfação no país era geral, mas foi a jovem oficialidade do Exército e da Marinha (os chamados “tenentes”) que assumiu a liderança das oposições. Por quê?

O movimento operário havia crescido e revelado um alto grau de combatividade no final dos anos 10. Entretanto, devido à repressão policial desencadeada contra os trabalhadores e à ausência de um projeto político consistente de parte das lideranças anarco-sindicalistas que dirigiam suas lutas, o movimento operário encontrava-se em declínio no início da década de 20, carecendo de condições para assumir papel de liderança na luta política que começava a sacudir o país.

As oligarquias dissidentes, cujos representantes ocupavam o poder nos estados que, pela sua importância, seriam caracterizados como de segunda grandeza - Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco (os chamados de primeira grandeza eram São Paulo e Minas Gerais) - com o lançamento da chapa denominada Reação Republicana, para concorrer às eleições presidenciais de março de 1922, chegaram a entusiasmar as populações das grandes cidades. Mas, uma vez derrotadas no pleito marcado pela fraude, temiam qualquer tipo de radicalismo. Preferiam o caminho dos entendimentos e das manobras políticas, métodos tradicionalmente empregados pelas classes dominantes no Brasil.

A esmagadora maioria da nação era composta pelas populações rurais, submetidas ao domínio dos “coronéis”, que mantinham seu poder graças ao sistema de troca de favores estabelecido entre os chefes municipais, os governadores dos estados e o próprio presidente da República. Não havia como esperar que viesse a surgir dos setores rurais um movimento capaz de pôr em questão o poder das oligarquias dominantes.

O empresariado industrial vinha crescendo e adquirindo feição própria. Mas continuava, pelas suas origens, profundamente ligado aos setores oligárquicos e aos seus interesses.

As camadas médias urbanas haviam aumentado numericamente e se tornado mais diversificadas, mas tendiam a adotar um comportamento caudatário em relação às oligarquias, revelando-se incapazes de formular uma proposta independente de transformações para o país.

Diante da grave crise estrutural (econômica, social, política, ideológica e cultural), que abalava a República no início dos anos 20 - crise do “pacto oligárquico” estabelecido entre os grupos oligárquicos dominantes -, os setores médios mostravam-se insatisfeitos com a falta de liberdade e as limitadas possibilidades de influir na vida política. Predispunham-se à revolta e a apoiar ações radicais contra o poder oligárquico. Faltavam-lhes, contudo, organização e capacidade de arregimentação para assumir a direção do movimento de rebeldia contra o poder oligárquico estabelecido.

Foi nesse contexto de ausência de forças sociais e políticas capazes de capitalizar o clima de rebeldia existente - principalmente por parte das populações urbanas em todo o país -, transformando o descontentamento generalizado em ação política contra os grupos dominantes, que os “tenentes” assumiram papel de destaque. Como observou o historiador Caio Prado Júnior:

“Se são militares que formam na vanguarda do movimento de regeneração política do Brasil, é que suas armas lhes davam a possibilidade de agir; e não estava ainda em condições de substituí-los a ação das massas populares, desorganizadas e politicamente inativas. Os ‘tenentes’ assumirão por isso a liderança da revolução brasileira.” (Prefácio, in MOREIRA LIMA, Lourenço. A Coluna Prestes – marchas e combates. 3ª ed., S.P., Alfa-Omega, 1979, p. 14.)

O tenentismo veio preencher um espaço: o vazio deixado pela falta de lideranças civis aptas a conduzirem o processo de lutas que começava a sacudir as já caducas instituições políticas da Primeira República. Os “tenentes” assumiram as bandeiras de conteúdo liberal que, há algum tempo, já vinham sendo agitadas pelos setores oligárquicos dissidentes, dentre as quais se destacava a demanda do voto secreto, refletindo o anseio generalizado de liquidação da fraude eleitoral então em vigor. O que distinguia os “tenentes” das oligarquias dissidentes e dava ao seu liberalismo um caráter radical era a disposição de recorrer às armas na luta por tais objetivos.

A primeira revolta tenentista, rapidamente sufocada tanto no Rio de Janeiro como em Mato Grosso – os únicos lugares em que chegou a ser deflagrada -, imortalizou-se pelo episódio do levante dos 18 de Forte de Copacabana, no dia 5/07/1922. Liderados pelo tenente Antônio de Siqueira Campos, um pequeno grupo de jovens militares marchou pela praia de Copacabana, de peito a descoberto, disposto a enfrentar os disparos das tropas governistas. Manchando de sangue as areias de Copacabana, os jovens foram trucidados. Apenas dois conseguiram sobreviver: os tenentes Siqueira Campos e Eduardo Gomes. O episódio repercutiu por todo o Brasil, apesar do estado de sítio e da censura à imprensa, decretados pelo Congresso Nacional. E os nomes dos heróis do Forte tornaram-se símbolo do clima de revolta então existente contra os governos das oligarquias dominantes – os governos de Epitácio Pessoa e do seu sucessor Artur Bernardes.

Ambos representavam, no fundamental, os interesses das oligarquias cafeicultoras de São Paulo e Minas Gerais e, dada a grave crise que abalava as estruturas do regime republicano, adotavam políticas econômicas cada vez mais excludentes em relação aos grupos oligárquicos dos demais estados da União e aos diversos setores da sociedade brasileira da época. O monolitismo das práticas políticas desenvolvidas pelos grupos dominantes provocavam descontentamento crescente no país todo.

Em 5/07/1924, dois anos após o levante de 1922, estourava a Rebelião de São Paulo, inaugurando uma nova onda de revoltas tenentistas. Era o “segundo 5 de julho”. Levantaram-se vários grupamentos policiais e unidades do Exército sediados nesse estado. O comando geral do movimento fora entregue pelos jovens rebeldes ao general reformado do Exército Isidoro Dias Lopes, que contava com a colaboração do major Miguel Costa, comandante da Força Pública de São Paulo (a polícia militar do estado).

O objetivo do movimento era depor o presidente Artur Bernardes, cujo governo transcorria, desde o início, sob estado de sítio permanente e sob vigência da censura à imprensa. Os rebeldes pretendiam substituir Bernardes por um político honesto, capaz de “moralizar os costumes políticos”. Lutava-se pelas mesmas demandas de caráter liberal já levantadas em 1922: além do voto secreto, “representação e justiça”, moralização dos costumes políticos e, de uma maneira geral, o cumprimento dos preceitos liberais da Constituição de 1891.

Durante 3 semanas, os rebeldes resistiram ao cerco das tropas governistas à capital de São Paulo. Ante o dilema de serem derrotados pela superioridade militar das tropas governistas ou se retirarem para outra região, onde fosse possível rearticular o movimento, o general Isidoro optou pela segunda alternativa. Sempre perseguidos pelos adversários mais numerosos e bem-armados, os rebeldes conseguiram chegar ao oeste do estado do Paraná, onde se estabeleceram. Logo enfrentariam as tropas comandadas pelo general Cândido Mariano Rondon, que se havia oferecido a Artur Bernardes para dar combate aos militares rebelados.

A conspiração tenentista prosseguiu durante todo o ano de 1924. Após o levante paulista, ela atingiu um ritmo mais acelerado no Rio Grande do Sul, estado em que viria a contar com o apoio dos maragatos (os libertadores) liderados pelo rico fazendeiro Joaquim Francisco de Assis Brasil. As condições precárias dos rebeldes paulistas, cercados no oeste do Paraná, contribuíram para aguçar o espírito de luta da jovem oficialidade comprometida com a chamada “revolução”, levando-a a mobilizar-se em solidariedade aos companheiros de São Paulo.

O principal coordenador da conspiração militar no Rio Grande do Sul foi o tenente Aníbal Benévolo, jovem oficial da Brigada de Cavalaria de São Borja. Também desempenharam papel importante na deflagração do levante gaúcho o capitão Luiz Carlos Prestes e o tenente Mário Portela Fagundes; ambos haviam servido no 1º Batalhão Ferroviário (1ºBF) de Santo Ângelo, mantendo contato estreito e permanente com a tropa.

Na noite de 28 de outubro, levantou-se o 1º BF, sob o comando de Prestes e Portela, e, na madrugada do dia 29, algumas outras unidades militares nesse mesmo estado. Ao mesmo tempo, vários caudilhos ligados a Assis Brasil aderiram ao levante. As tropas dos maragatos, de lenço vermelho no pescoço, incorporaram-se às diversas unidades rebeladas, constituindo um reforço para a “revolução” tenentista.

As forças governistas foram rapidamente mobilizadas e lançadas contra os rebeldes. Devido à falta de coordenação entre as unidades rebeladas e à espontaneidade de suas ações, em poucos dias os “revolucionários” do sul do estado estavam desbaratados. A “revolução” conseguiu sobreviver apenas na região de São Luís Gonzaga, graças a duas razões principais. A primeira decorria do fato de a cidade se encontrar distante de qualquer linha férrea, o que, naquela época, dificultava o acesso das tropas governistas, retardando sua investida contra os rebeldes. A segunda razão prendia-se ao papel decisivo do capitão Prestes na reorganização das tropas rebeldes que se reuniram em torno de São Luís Gonzaga. Na prática, Prestes passou a comandar não só o 1º BF, que viera com ele de Santo Ângelo, como também os elementos militares e civis remanescentes dos diversos levantes ocorridos no estado.

A atuação prévia de Prestes no 1º BF, durante quase 2 anos, levara-o a introduzir nessa unidade não só um novo tipo de instrução militar como também um novo tipo de relacionamento, até então desconhecido no Exército brasileiro, entre os soldados e o seu comandante. Assim, o jovem capitão, preocupado em garantir uma boa alimentação para a tropa, adotou uma série de medidas, por exemplo, a contratação de um padeiro e um cozinheiro. Organizou as atividades e o tempo dos seus subordinados de maneira que todos pudessem estudar, receber educação física e instrução militar, além de trabalharem na construção da linha férrea que ligaria Santo Ângelo a Giruá (RS). O próprio Prestes tornou-se professor e criou três escolas: uma para alfabetização e as outras duas de primeiro e segundo graus. Em 3 meses, não havia analfabetos na companhia. Prestes não só comandou seus soldados como, ao mesmo tempo, trabalhou junto com eles, levando a mesma vida de seus subordinados.

Como resultado desse novo tipo de instrução militar, inédito nas Forças Armadas do país, “a disciplina e o entusiasmo dos soldados eram imensos”, nas palavras do próprio Prestes. O jovem capitão conseguia estimular a iniciativa dos soldados, sem desprezar a disciplina, que era obtida com o exemplo do próprio comportamento e excluía a prática de qualquer tipo de violência. Em conseqüência, o prestígio de Prestes se tornou enorme, garantindo a fidelidade do 1º BF na hora do levante.

Em São Luís Gonzaga, Prestes enfrentou a necessidade de organizar a resistência ao ataque inimigo em preparação. Apoiado num grupo de militares de grande audácia, coragem, desprendimento e de excepcional competência militar – como os tenentes Mário Portela, Siqueira Campos, João Alberto Lins de Barros, Osvaldo Cordeiro de Farias -, Prestes deu início à organização do que viria a ser a Coluna Invicta. O 1º BF transformou-se na espinha dorsal da tropa rebelde, que ficaria conhecida como a Coluna Prestes.

Em dezembro de 1924, 14 mil homens, sob o comando do Estado-Maior governista, marchavam sobre São Luís Gonzaga. Formavam o chamado “anel de ferro”, com o qual se pretendia estrangular os rebeldes - cerca de 1,5 mil homens, armados precariamente e quase desprovidos de munição -, acampados em torno da cidade. O governo adotava a “guerra de posição” – a única tática que os militares brasileiros conheciam e que, de acordo com o modelo dos combates travados durante a Primeira Guerra Mundial, consistia em ocupar posições, abrindo trincheiras e permanecendo na defensiva, à espera do inimigo. Ou, então, quando as posições inimigas estavam localizadas, definia-se o “objetivo geográfico” para onde se deveria marchar, com a meta de cercar o adversário, tendo como paradigma o famoso sítio de Verdun, que durara meses, no ano de 1916, quando se defrontaram os exércitos da Alemanha e da França.

É o momento quando Prestes, assessorado por Portela, imagina e põe em prática a “guerra de movimento” – uma espécie de luta de guerrilhas, então uma novidade para o Exército brasileiro. O rompimento do cerco de S. Luís pelos rebeldes e a marcha vitoriosa da Coluna comandada por Prestes em direção ao norte, visando socorrer os companheiros de São Paulo, cercados pelas tropas do general Rondon, constituiu a primeira grande vitória da nova tática militar imaginada por Prestes. Pouco tempo depois, em fevereiro de 1925, Prestes expôs, em carta ao general Isidoro, a sua concepção da “guerra de movimento”, que deixaria os generais do governo desnorteados e perplexos:

“A guerra no Brasil, qualquer que seja o terreno, é a ‘guerra de movimento’. Para nós revolucionários o movimento é a vitória. A ‘guerra de reserva’ é a que mais convém ao governo que tem fábricas de munição, fábricas de dinheiro e bastantes analfabetos para jogar contra as nossas metralhadoras.” (PRESTES, Anita Leocádia. A Coluna Prestes. 3ª ed. São Paulo, Brasiliense, 1991, p. 421.)


Em 12/04/1925, na cidade paranaense de Foz do Iguaçu, deu-se o encontro histórico das tropas gaúchas com os rebeldes paulistas. A proposta de Prestes de prosseguir na luta, dando continuidade à Marcha rebelde acabou prevalecendo. O principal objetivo era manter acesa a chama da rebeldia tenentista e, com isso, atrair as forças inimigas para o interior do país – o que poderia contribuir para o êxito dos “tenentes”, que conspiravam no Rio de Janeiro e em outras capitais, preparando novos levantes.

Após a junção das colunas paulista e gaúcha, as tropas rebeldes foram reorganizadas, criando-se a 1ª Divisão Revolucionária, constituída pelas brigadas “São Paulo” e “Rio Grande”, sob o comando do major Miguel Costa, o oficial de maior patente, promovido a general-de-brigada pelo general Isidoro. Ao todo, a divisão contava com menos de 1,5 mil combatentes, sendo oitocentos da coluna gaúcha e os restantes da coluna paulista. Havia cerca de 50 mulheres, entre gaúchas e paulistas, que, na maioria dos casos, acompanhavam seus maridos e companheiros.

A formação da 1ª Divisão Revolucionária representou a vitória da perspectiva aberta por Prestes de os rebeldes atravessarem o rio Paraná e marcharem para Mato Grosso (clique aqui para ver o mapa), dando continuidade à “revolução” tenentista. Enquanto as tropas paulistas haviam sofrido uma séria derrota em Catanduvas (PR), a Coluna Prestes vinha do sul coberta de glórias. Nessas circunstâncias, Prestes teria um papel destacado à frente da 1ª Divisão Revolucionária. O general Miguel Costa tornara-se o comandante-geral, mas, reconhecendo a competência e o prestígio de Prestes, entregou-lhe, na prática, o comando da Coluna. A Coluna Prestes, que nascera no Rio Grande do Sul, partiu do Paraná revigorada pela junção com os rebeldes que se haviam levantado em São Paulo, a 5/07/1924.

A Coluna, além de mal-armada (não dispondo de fábricas de armamento e munição), não contava com uma retaguarda que assegurasse o abastecimento da tropa. Baseado na experiência do 1º BF, Prestes transformou a tropa rebelde num exército, em que vigorava a disciplina militar e, ao mesmo tempo, era estimulada a iniciativa dos soldados. Sem uma disciplina rigorosa e um comando único e centralizado, as forças rebeldes seriam desbaratadas. Mas, sem a participação ativa de cada soldado, sem a compreensão, de parte de cada um deles, de que a luta era pela libertação do Brasil do governo despótico de Artur Bernardes, seria impossível garantir a sobrevivência de uma força armada tão diferente: não havia soldo, nem pagamento de qualquer espécie, ou vantagens de qualquer tipo, e se exigia, para permanecer em suas fileiras, um grande espírito de sacrifício e muita disposição de luta.

A experiência dos maragatos foi valiosa na organização das forças rebeldes. Adotou-se, por exemplo, o método gaúcho de arrebanhar animais, as “potreadas”: pequenos grupos de soldados se destacavam da tropa em busca não só de cavalos para a montaria e de gado para a alimentação, como de informações, que eram transmitidas ao comando. Esses dados constituíram elementos valiosos para a elaboração de mapas detalhados sobre cada região atravessada pelos rebeldes, permitindo que a tática da Coluna fosse traçada com precisão e profundo conhecimento do terreno. Assim, reduziam-se os riscos de que os rebeldes acabassem pegos de surpresa pelo inimigo. Na verdade, era a Coluna Prestes que, com seus lances inesperados, surpreendia as forças governistas. As potreadas consistiam num fator fundamental para desenvolver a iniciativa e o espírito de responsabilidade dos soldados. Nas palavras de Prestes, foram “os verdadeiros olhos da Coluna”.

A Coluna não se poderia transformar num exército revolucionário, movido por um ideal libertário, se não incutisse em seus combatentes uma atitude de respeito e solidariedade em relação ao povo com que mantinha contato. Qualquer arbitrariedade era punida com grande rigor; em alguns casos de maior gravidade, chegou-se ao fuzilamento dos culpados, principalmente quando houve desrespeito a famílias e, em particular, a mulheres.

Da mesma forma, não se admitiam saques ou atentados gratuitos à propriedade. Por essa razão, ficou estabelecido que as requisições de artigos indispensáveis à manutenção da tropa (feitas junto a comerciantes, fazendeiros ou particulares) exigiam a apresentação de um recibo assinado pelo próprio Prestes ou por outro comandante devidamente credenciado. No recibo, os rebeldes assumiam o compromisso de, com a vitória da “revolução”, indenizar ao interessado o valor dos bens requisitados. Com essa prática, inteiramente inusitada, a Coluna acabou conquistando a simpatia das populações que contatou em seu caminho.

A Coluna Prestes durou 2 anos e 3 meses, percorrendo cerca de 25 mil quilômetros através de treze estados do Brasil (clique aqui para ver o mapa). Jamais foi derrotada, embora tenha combatido forças muitas vezes superiores em homens, armamento e apoio logístico, tendo enfrentado ao todo 53 combates. Os principais comandantes do Exército nacional não só não puderam desbaratar a Coluna Prestes, como sofreram pesadas perdas e sérios reveses impostos pelos rebeldes durante sua marcha. A Coluna, em seu périplo pelo Brasil, derrotou 18 generais.

Ao adotar a tática da “guerra de movimento”, a Coluna Prestes garantiu a própria sobrevivência em condições que lhe eram extremamente desfavoráveis. E mais, transformou-se num exército com características populares, cuja marcha pelo Brasil foi decisiva para que a chama de “revolução” tenentista se mantivesse acesa.

Além de forjar um novo tipo de combatente, de soldado da liberdade, que se batia por um ideal, a marcha também formou líderes de envergadura – o mais destacado, Luiz Carlos Prestes -, que, com o prestígio adquirido na Coluna, vieram a influir decisivamente nos acontecimentos posteriores.

Dado o fracasso governista no combate à Coluna Prestes, ela poderia continuar percorrendo o país, tirando proveito de sua mobilidade extrema, a grande arma que a tática da “guerra de movimento” lhe conferia. Mas Prestes compreendeu que havia chegado a hora de mudar de tática. Uma nova visão do Brasil – que ele adquirira durante a marcha, ao se deparar com a miséria em que vegetava a maior parte da população do país – contribuiu para essa conclusão. Dessa forma, o comando da Coluna tomou a decisão de partir para o exílio, ingressando na Bolívia em 3/02/1927. Como assinalou o cronista da Marcha, Lourenço Moreira Lima, “não vencemos, mas não fomos vencidos”.

Apesar das dificuldades, os rebeldes chegaram à Bolívia com o moral elevado, cônscios de que haviam cumprido o seu dever, sem nada receber em troca. Os comandantes e soldados da Coluna partiram para o exílio num estado de absoluta pobreza, enquanto os generais governistas tinham enchido os bolsos às custas do erário público, que lhes oferecera verbas generosas para liquidar os revoltosos. A Coluna, praticamente desarmada, contando apenas 620 homens, havia vencido todos os embates com as forças governistas.

Os soldados rebeldes foram os desbravadores do caminho que levou ao solapamento dos alicerces da Primeira República. A sobrevivência da Coluna Prestes constituiu um fator decisivo para que, em diversos pontos do país, eclodissem levantes tenentistas. Embora essas revoltas militares – que sempre contaram com a colaboração de civis – tivessem sido esmagadas, a Coluna Prestes contribuiu para que, durante vários anos, fosse mantido um clima “revolucionário” no país, favorável à germinação das condições que levaram ao colapso da República Velha e à vitória da chamada Revolução de 30, propiciando o início de uma nova etapa no desenvolvimento capitalista no Brasil.

Uma vez no exílio, Prestes começaria a estudar o marxismo, após ter estabelecido contato com a direção do PCB (Partido Comunista do Brasil). A situação de miséria da maioria do povo brasileiro, verificada durante a marcha da Coluna, causara grande impacto no já então Cavaleiro da Esperança, levando-o a buscar no estudo da teoria a explicação para as causas dessa situação e a solução para a mesma. Ao cabo de um duro processo de revisão de suas concepções ideológicas e políticas, Prestes chegou à conclusão de que apenas no marxismo seria possível achar respostas racionais para os problemas que o preocupavam; e a resposta, em última instância, se resumia na necessidade de encontrar o caminho para a revolução socialista no Brasil.

As conseqüências da nova postura ideológica de Prestes foram a sua adesão ao programa dos comunistas e, após infrutíferas tentativas de conquistar para suas novas posições alguns de seus ex-companheiros do movimento tenentista, a decisão de romper publicamente com eles, o que se concretizou com o lançamento do seu Manifesto de Maio de 1930. A Marcha da Coluna e o impacto causado em Prestes pela situação deplorável em que viviam as populações do interior do Brasil levaram o Cavaleiro da Esperança a se transformar, anos mais tarde, na principal liderança do movimento comunista no país. A Coluna Prestes gerara o líder mais destacado da revolução social no Brasil.

 

[*] Anita Leocádia Prestes é doutora em História Social pela UFF e professora adjunta de História do Brasil no Departamento de História da UFRJ e autora de A Coluna Prestes. 4ª ed. São Paulo: Ed. Paz e Terra, 1997; Uma epopéia brasileira: a Coluna Prestes. São Paulo: Ed. Moderna, 1995; Os militares e a Reação Republicana; as origens de tenentismo. Petrópolis: Ed. Vozes, 1994; Luiz Carlos Prestes e a Aliança Nacional Libertadora; os caminhos da luta antifascista no Brasil (1934/35). Petrópolis: Ed. Vozes, 1997; Tenentismo pós-30: continuidade ou ruptura? São Paulo: Ed. Paz e Terra, 1999; Da insurreição armada (1935) à “União Nacional” (1938-1945): a virada tática na política do PCB. São Paulo: Paz e Terra, 2001.

 

PARA SABER MAIS

CARONE, Edgard. O tenentismo. São Paulo: Ed. Difel, 1975.

MOREIRA LIMA, Lourenço. A Coluna Prestes – marchas e combates. 3ª ed. São Paulo: Ed. Alfa-Omega, 1979.

PRESTES, Anita Leocádia. Uma epopéia brasileira: a Coluna Prestes. São Paulo:Ed.Moderna, 1995.

PRESTES, Anita Leocádia. A Coluna Prestes. 4ª ed. São Paulo: Ed. Paz e Terra, 1997.

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