O ano de 2004 marca o bicentenário da maior revolta de escravos da história, que conseguiu de forma genial derrotar os mais poderosos exércitos da época: francês, inglês e espanhol. Genial porque aproveitou a experiência militar dos negros trazidos da África para trabalharem até a morte como escravos na “Pérola das Antilhas”, a mais lucrativa colônia da época. Usando técnicas de guerrilha, entre 1791 e 1804 o exército de libertação liderado por Toussaint e Dessalines fustigou incessantemente as forças regulares das potências colonialistas até obter a vitória, na maior epopéia de libertação jamais vista pela Europa. A Revolução Haitiana foi feita pelos haitianos, mas sua vitória pertence a todos os povos, por demonstrar, no alvorecer do século XIX, a possibilidade real de derrotar um inimigo várias vezes mais poderoso. Dessa forma, os haitianos destruíram o mito da invencibilidade da Europa, e deram o exemplo para as lutas de libertação nas colônias da América Latina.
O exemplo de liberdade não poderia sobreviver impunemente: por mais de 60 anos os Estados Unidos impuseram bloqueio econômico ao Haiti, e a França impôs pesadas compensações pela perda da lucrativa colônia, estrangulando a economia do pequeno e recém-criado país.
200 anos de lutas e de resistência popular
O Haiti foi a primeira nação americana livre da escravidão. Nesses dois séculos desde a independência, a ilha foi alvo dos interesses colonialistas e imperialistas, sendo ocupada pelos Estados Unidos entre 1915 e 1934, levando à morte milhares de haitianos.
Entre 1957 e 1986 as ditaduras de Papa Doc e Baby Doc, com o apoio dos Estados Unidos, espalharam o terror e resultaram em revolta popular. Em 1990, defendendo um programa de governo popular, o ex-padre Jean-Bertrand Aristide foi eleito com 70 % dos votos, para ser deposto por golpe militar apoiado pelos Estados Unidos em 1991.
De volta em 1994, agora com o apoio dos EUA, e com posições políticas pró-imperialistas, Aristide governou com o apoio de milícias armadas. Porém, devido à forte oposição popular, a situação tornou-se insustentável. No início deste ano, com a situação fora de controle, tropas norte-americanas e francesas ocuparam novamente o país, depuseram e deportaram Aristide, e implantaram o governo provisório fantoche de Gerard Latortue.
Os interesses dos Estados Unidos e o papel das tropas brasileiras de ocupação
A ofensiva imperialista e neocolonial norte-americana parece não conhecer limites. Com a deposição golpista de Aristide, ou seu seqüestro, como qualificou o presidente da Venezuela Hugo Chavez em recente visita ao Brasil, os EUA querem a total submissão do país ao capital norte-americano, sob a administração de governos títeres, "eleitos" a partir de 2005. Com esse passo, e devido à localização privilegiada do Haiti no Caribe, pretendem estabelecer uma base militar para possíveis operações contra Cuba, Venezuela e quaisquer outros países "rebeldes" na região.
Todavia, por causa do desgaste dos EUA perante a opinião pública mundial, pela invasão e ocupação do Iraque, e também por causa dos altos custos dessa ocupação, a manobra no Haiti assumiu um novo aspecto: primeiro com a participação da França, sob a bandeira da ONU, e depois, ainda sob essa bandeira, com a "terceirização" da ocupação do Haiti por tropas de países latino-americanos subordinados ao imperialismo ianque, como Brasil, Argentina e Chile.
O aceite incondicional e imediato do governo brasileiro em comandar a missão militar da ONU enviando 1200 soldados para ocupar o Haiti é apresentado pela imprensa como ajuda humanitária, ou quando muito como manobra em prol de uma eventual presença no conselho de segurança da ONU. Mas o envio das tropas pelo governo brasileiro sem a aprovação expressa do povo brasileiro ou do parlamento serve, de fato, para reafirmar o compromisso do governo brasileiro com os ditames do imperialismo norte-americano.
Ao invés de ajudar efetivamente ao povo e na reconstrução do país arrasado pela crise e por desastres naturais, o governo brasileiro abusou do marketing e da simpatia do povo haitiano ao futebol brasileiro, e com a visita da seleção ofereceu um deprimente espetáculo circense.
A ofensiva pelo desarmamento de populações de bairros populares, com denúncias de violações aos direitos humanos, além da recente inação das tropas brasileiras de ocupação frente ao ataque a uma manifestação pacífica pró-Aristide por pistoleiros fiéis ao "governo" haitiano demonstram o real papel dessas tropas naquele país.
fonte: Boletim do CeCAC, ano X, no 4, nov/dez 2004 - versão impressa
este artigo encontra-se em www.cecac.org.br
10/fevereiro/2005