Nesses tempos em que o “exército mais poderoso do mundo” ataca covardemente cidades no Iraque e no Afeganistão, assassinando dezenas de milhares de pessoas inocentes, seja com o uso de “armas convencionais” ou de armas “não-convencionais” (leia-se armas químicas de destruição em massa), é importante relembrar os crimes horrendos cometidos há 60 anos contra duas cidades indefesas – Hiroshima e Nagasaki – que foram riscadas do mapa pelos ataques com as primeiras bombas atômicas. Em comum com Faluja, Kirkut, Cabul e tantas outras cidades do Oriente Médio, as duas cidades japonesas eram densamente povoadas e não constituíam objetivos militares, como mostrado pelo artigo que reproduzimos a seguir. A triste lembrança da bestialidade imperialista perpetrada contra Hiroshima e Nagasaki deve servir de estímulo à indignação contra os crimes cometidos nos dias de hoje contra o povo do Iraque, do Afeganistão e demais povos agredidos pelas tropas de ocupação imperialistas. E de estímulo à luta dos povos para varrer da história a barbárie imperialista, com a certeza de que a resistência popular, a guerra de todo o povo derrota (e já de derrotou) os “exércitos mais poderosos do mundo”.

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Não foi a bomba atômica lançada sobre o Japão
que fez terminar a Segunda Guerra Mundial

Anatoly Koshkin [*]

Entre os historiadores ocidentais, em particular os norte-americanos, está difundida a opinião de que “as bombas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki puseram fim a Segunda Guerra Mundial”. Sem negar o importante efeito psicológico que tiveram os bombardeios atômicos, que precipitaram a capitulação do Japão, ao mesmo tempo não se pode aceitar que eles tenham sido os responsáveis pelo final da guerra. Eminentes políticos do ocidente também reconheciam isso. Por exemplo, Churchill dizia: “Seria errado supor que o destino do Japão tenha sido determinado pela bomba atômica”.

Os fatos provam que o bombardeio atômico não levou à capitulação do Japão. O governo e o alto comando japoneses ocultaram do povo a notícia do uso da nova arma, atômica, pelos norte-americanos e continuaram preparando a batalha decisiva em seu território. O bombardeio de Hiroshima não foi debatido na reunião do Conselho Supremo do Comando de Guerra.

A advertência do presidente dos EUA, Truman, sobre sua disposição de assestar novos golpes nucleares contra o Japão, transmitida em 7 de agosto [de 1945] pelo rádio norte-americano, foi avaliada pelo alto comando japonês como “propaganda dos aliados”.

Ainda depois de Hiroshima ter sido reduzida a cinzas pelo fogo atômico, os militares japoneses continuaram afirmando que o Exército e a Marinha de Guerra imperiais eram capazes de continuar combatendo e, ao infligirem um sério dano ao adversário, poderiam assegurar ao Japão condições decentes de capitulação.

Segundo cálculos do Estado Maior norte-americano, para garantir a cobertura dos desembarques nas ilhas nipônicas seria preciso lançar nove bombas atômicas, no mínimo. Mas segundo se soube mais tarde, depois de destruídas Hiroshima e Nagasaki, os Estados Unidos não tinha outras bombas atômicas disponíveis, e sua fabricação levaria muito tempo.

“As bombas que lançamos eram as únicas de que dispúnhamos, e a velocidade de sua fabricação era muito lenta naquele tempo”, escreveria o Secretário de Defesa dos Estados Unidos, Stimson.

É evidente que com os bombardeios atômicos de cidades japonesas não se perseguiu nenhum objetivo militar importante. O general Mac Arthur, que durante a guerra teve sob seu comando as tropas aliadas no oceano Pacífico, reconheceria em 1960: “Não havia nenhuma necessidade militar de empregar a bomba atômica em 1945”. Tentando encobrir as reais finalidades do bombardeio atômico, Truman declarou em 9 de agosto de 1945 que o golpe atômico foi assestado “contra a base militar de Hiroshima” com a finalidade de “evitar vítimas entre a população civil”.

Mas, na verdade, ao tomar a decisão de realizar o bombardeio, os dirigentes norte-americanos visavam exatamente a população civil do Japão. Encontramos uma prova irrefutável disso em documentos.

Por exemplo, a ordem número 13 dada em 2 de agosto pelo comando norte-americano dizia: “Data do ataque: 6 de agosto. Objetivo do ataque: a parte histórica e a zona industrial da cidade de Hiroshima. Segundo objetivo de reserva: os arsenais e a parte central da cidade de Kokura. Terceiro objetivo de reserva: a parte central da cidade de Nagasaki”.

Ao assestar golpes atômicos contra os distritos densamente povoados de Hiroshima e Nagasaki, os norte-americanos queriam antes de tudo produzir um efeito psicológico com o extermínio de um grande número de pessoas. Truman em pessoa aprovou a proposta de seu assessor mais próximo, Beerns, de que “se deve lançar uma bomba contra o Japão o mais rapidamente possível, de preferência contra uma empresa militar rodeada de bairros em que vivem operários, e sem aviso prévio”. Como se sabe, essas recomendações foram cumpridas.

Com o bombardeio atômico ao Japão também se perseguia outro objetivo: intimidar a União Soviética e outros Estados e, ao possuir o monopólio nuclear, impor o domínio dos Estados Unidos no mundo pós-guerra. Ao preparar o emprego de bombas, os dirigentes norte-americanos esperavam “conseguir com isso uma Rússia mais dócil”.

É amplamente conhecida a declaração de Truman a esse respeito: “Se a bomba explodir, no que confio, terei, sem sombra de dúvidas, um garrote para esses rapazes”.

Em relação a isso, se pode compartilhar da opinião do cientista inglês Blackett (prêmio Nobel de física em 1948 e militante socialista) de que os bombardeios atômicos “não eram em último lugar um ato dirigido contra a Rússia”.[1]

Realmente, as explosões atômicas em Hiroshima e Nagasaki não foram o acorde final da Segunda Guerra Mundial, mas sim as primeiras salvas do começo da “Guerra Fria”.

Há a versão de que Stalin, ao inteirar-se do bombardeio atômico de Hiroshima, acelerou a entrada da União Soviética na guerra contra o Japão, com a finalidade de obter o direito de participar das discussões pós-guerra na Ásia Oriental.

Talvez tenha sido assim. Mas também é muito provável o contrário. Parece que Truman se apressava deste modo a adiantar-se à União Soviética, para atribuir aos Estados Unidos todas as láureas de vencedor e obter o monopólio para ocupar e dirigir o Japão vencido. Quanto a Stalin, seu procedimento foi impecável: a URSS entrou na guerra em 8 de agosto, ou seja em estrita correspondência com o acordado em Yalta: três meses depois da capitulação da Alemanha.

Ao tomar a decisão de bombardear Hiroshima, os norte-americanos estavam seguros de que Stalin cumpriria sua promessa de prestar-lhes ajuda militar no Extremo Oriente. Em 28 de maio de 1945, o representante pessoal do presidente dos Estados Unidos, Hopkins, ao encontrar-se em Moscou informou a Washington de que Stalin lhes prometeu em pessoa a ele e ao embaixador dos EUA, Harriman, o seguinte: “O exército soviético posicionará plenamente suas unidades na Manchúria até 8 de agosto”.

Os aliados estavam certos de que precisamente a entrada da União Soviética na guerra convenceria definitivamente ao Japão de que sua total derrota era inevitável. Os acontecimentos posteriores confirmaram a justeza dessa avaliação.

Ao intervir na reunião urgente do Conselho Supremo do Comando de Guerra, o primeiro-ministro Suzuki declarou ainda em 9 de agosto: “Que nesta manhã a União Soviética tenha entrado na guerra coloca-nos definitivamente numa situação sem saída e nos torna impossível continuar a guerra”.

Também são conhecidas as palavras do comandante-em-chefe do Japão, o imperador Hirohito, quem em sua mensagem “Aos soldados e aos marinheiros”, dizia: “Agora que a União Soviética entrou na guerra contra o Japão, continuar opondo resistência significaria colocar em perigo as bases mesmas da existência de nosso império”.


[*] Anatoly Koshkin é doutor em História

[1] A conclusão de Blackett é, textualmente (p. 127 do referido livro): “Chegamos à conclusão que a utilização das bombas atômicas (contra o Japão) não foi de fato, o último ato militar da Segunda Guerra Mundial, mas o primeiro ato de Guerra Diplomática que começava contra a Rússia”.

O original encontra-se em http://www.redvoltaire.net

Traduzido do espanhol por MH.

Este artigo encontra-se em www.cecac.org.br

26/agosto/2005