O PIB se aproxima da hora da verdade


José Carlos de Assis [*]

A estatística que tanto ajudou a equipe econômica no ano passado, por apresentar como "vigoroso" um crescimento do PIB que era apenas o efeito de comparação de um resultado medíocre com a base deprimida de 2003 (0,5%), vai agora cobrar seu preço no aspecto inverso. A partir desta semana, quando começam a surgir os resultados da produção industrial deste ano, o ministro Palocci e o governor Meirelles terão que dar explicações seguidas para a inevitável desaceleração do crescimento, aliás já sinalizada em janeiro pela indústria automobilística, e já reconhecida timidamente pelo IPEA.

O jornal "Valor" fez um exercício tecnicamente duvidoso, mas impressionista. Ele tomou o crescimento do PIB do trimestre, sobre o trimestre anterior, nos últimos dois anos, anualizando-o. O significado é: se o crescimento no trimestre em relação ao trimestre anterior se repetir nos trimestres seguintes, o crescimento do ano será a taxa trimestral anualizada. A vantagem desse truque é que ele mostra a força da aceleração ou da desaceleração do PIB. No caso, a desaceleração é clara: 7,3% no último trimestre de 2003 e no primeiro trimestre de 2004, seguida de 6,0% e 4,4%, e 1,7% no último.

Isso significa que a economia no último trimestre do ano passado estava num ritmo de crescimento de apenas 1,7% ao ano, embora a taxa acumulada no ano, devida aos trimestres anteriores, tenha sido os celebrados 5,2%. Sem a anualização, e sem influências sazonais, o crescimento do PIB no quarto trimestre em relação ao terceiro foi de apenas 0,4%. Nos três primeiros trimestres, com a mesma base de comparação, havia sido de 1,8%, 1,5% e 1,1%. A tendência para baixo é óbvia. Estamos sendo empurrados para a média histórica de 2% de crescimento do PIB dos últimos dez anos.

O resultado do PIB de 2004 deveu-se principalmente às exportações, ao comportamento excepcional do agronegócio e de uma certa recuperação do crédito para as famílias, favorecendo a venda de automóveis e outros bens duráveis. A demanda dos ricos também foi favorecida pela alta taxa de juros no over que incide sobre as contas remuneradas da classe média. Isso não costuma ser levado em conta pelos analistas, mas é um fator importante, conhecido como efeito renda sobre o consumo. É o que explica o aumento mais que proporcional da venda de bens duráveis mais caros em comparação com a virtual estagnação da venda dos semiduráveis e não duráveis durante o ano.

Todos já sabem que o PIB deste ano não repetirá a taxa do ano passado, mesmo que, para muitas pessoas, como este articulista, a taxa do ano passado, quando comparada ao crescimento da América Latina e da Ásia, é apenas medíocre. Claro que foi melhor que nada. Claro que foi melhor que o meio por cento de crescimento em 2003. A despeito disso, o governor Meirelles já menciona uma expectativa de 3,5% este ano, referendada agora pelo IPEA, dizendo para Lula que este é o potencial de nossa economia. Isso é falso. Pode ser o potencial dessa macroeconomia que está aí, mas não o potencial real da economia, que poderia crescer à chinesa se tivéssemos outras políticas monetária, fiscal e cambial.

O nível extravagante da taxa básica de juros contrai a economia por dois lados. Diretamente, pelo desvio do investimento para aplicações financeiras improdutivas, assim como pelo encarecimento geral do custo de capital. Indiretamente, por justificar a realização de elevados superávits primários, que exercem um efeito contracionista brutal na economia, já que significa a retirada de recursos do circuito produtivo para serem entregues aos rentistas improdutivos. A única contribuição dessa política macroeconômica ao crescimento é o referido efeito renda dos juros, exclusivo para os ricos. Até quando? Lembra aquele filme em que um obeso compulsivo é obrigado a comer até explodir!

Nenhum dos fatores responsáveis pelo crescimento de 5,2% no ano passado terá necessariamente um comportamento ruim neste ano. Mas as indicações são de que todos se expandirão a um ritmo menor. É o caso das exportações (inclusive por efeito da política cambial "liberal"), do agronegócio, dos bens de capital, dos bens de consumo duráveis, do crédito. Num cenário de marcha lenta, a macroeconomia de Palocci e Meirelles terá terreno livre para fazer o seu estrago. Provavelmente não chegaremos aos 3%. Se ficarmos parados no ano no nível de dezembro de 2004, por razões estatísticas teremos crescido 2,5% em 2005. É tudo o que a macroeconomia promete!

[*] Economista e Editor-chefe do sítio www.desempregozero.org.br

Reproduzido de www.desempregozero.org.br

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16/03/2005