Katrina: a tragédia é do capitalismo

A tragédia causada pelo furacão Katrina, e a incrível demora em resgatar os milhares de desabrigados em Nova Orleans e outras cidades do golfo do México, denunciaram a falência do capitalismo, do sistema imperialista, a concentração de riqueza sem precedentes e a pobreza e barbárie 'encobertas' no país com a maior economia do planeta.

Os desabrigados que não puderam sair de Nova Orleans são todos muito pobres, e em sua maioria negros. Por exemplo, no bairro de Lower Ninth Ward, que foi inundado, mais de 98% dos moradores são negros, e mais de um terço é pobre. Daí o descaso do governo federal, isto é, do Sr. George W. Bush, com o terrível pesadelo daquelas pessoas que tiveram seus lares destruídos e estão há dias à espera de socorro, sem água, comida ou atendimento médico.

Os três estados mais afetados pelo furacão Katrina, Mississipi, Louisiania e Alabama são também os estados mais pobres dos EUA: respondem, em conjunto, por pouco mais de 3% do PIB norte-americano. São também tristemente famosos pelo racismo levado às últimas conseqüências: "Se aparece uma família negra, se trata de pilhagem. Se a família é branca, estão procurando comida." (Kanye West, rapper norte-americano, sobre a cobertura tendenciosa da imprensa, em show para arrecadar fundos para as vítimas do furacão Katrina).

Reproduzimos a seguir carta aberta do cineasta Michael Moore endereçada ao Sr. George W. Bush, Presidente dos Estados Unidos, na qual questiona, de forma contundente e mordaz, a demora em socorrer as vítimas do furacão. É importante registrar que as classes dominantes da maior potência econômica e militar do planeta (que atacou e invadiu o Afeganistão e o Iraque em nome da segurança da nação norte-americana, para ficar apenas nas hostilidades recentes contra outros países) são as mesmas classes que oprimem seu próprio povo e são incapazes de lhe prestar assistência humanitária.

Os interesses dessas classes, da oligarquia financeira norte-americana, defendidos a qualquer preço por Bush, Rice, Rumsfeld e seu bando, não podem compatibilizar-se com a solidariedade ao povo - mesmo que ao povo norte-americano. Nas palavras de Hugo Chávez: "A primeira potência do mundo, que critica o Iraque e a Venezuela, deixa a população à deriva em seu próprio território". Chávez recomendou aos EUA se espelharem em Cuba, onde "em dois dias foram evacuadas dois milhões de pessoas".

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Acabaram as férias... carta aberta a George W. Bush

Michael Moore [*]

Sexta-feira, 2 de setembro de 2005.

Caro Sr. Bush:

Alguma idéia de onde estejam nossos helicópteros? Já se passaram 5 dias desde [a passagem do furacão] Katrina e milhares estão isolados em Nova Orleans à espera de ser resgatados. Onde você poderia ter metido todos os nossos helicópteros militares? Precisa de ajuda para encontrá-los? Cara, uma vez perdi meu carro num estacionamento da Sears. Foi um `Deus nos acuda´.

E, por acaso você tem alguma idéia de onde está a Guarda Nacional? Poderíamos utilizá-la agora em atividades para as quais está destinada, por exemplo, para ajudar em caso de desastres nacionais. Como pôde acontecer de eles não estarem lá?

Na quinta-feira passada [dia 25 de agosto] eu estava na Flórida, sentado na varanda, enquanto o olho de Katrina passava sobre minha cabeça. Era somente [um furacão] de categoria 1, mas já bastante feio. Onze pessoas morreram e ainda hoje há casas sem luz. Naquela noite o `homem do tempo´ disse que o furacão rumava para Nova Orleans. Isso foi na quinta! Ninguém lhe contou? Sei que você não queria interromper suas férias e sei que você não gosta de notícias ruins. Além disso, você tinha que ir a jantares de arrecadação de fundos e tinha mães de soldados mortos que precisava ignorar e caluniar. Você mostrou a ela!

Gostei muito no dia seguinte ao furacão, quando ao invés de voar para a Louisiania, você tenha ido a San Diego para divertir-se com seus amigos de negócios. Não deixe que as pessoas o critiquem por isso - além do mais, o furacão já tinha passado e, diabos, o que você poderia fazer? Tapar o dique com o dedo?

E não dê ouvidos nos próximos dias àqueles que vão revelar que você, neste verão especificamente, reduziu o orçamento do Corpo de Engenheiros do Exército de Nova Orleans pelo terceiro ano consecutivo. Mas diga a eles que, mesmo que você não tivesse cortado o dinheiro para reforçar essas contenções contra enchentes, não haveria Engenheiros do Exército para realizar a tarefa, porque você tinha para eles um trabalho de construção muito mais importante: CONSTRUIR A DEMOCRACIA NO IRAQUE.

No dia 3, quando suas férias finalmente terminaram, deixe-me dizer-lhe: fiquei emocionado que você tenha feito o piloto do Air Force One [avião presidencial] descer abaixo das nuvens para dar uma olhadela no desastre. E veja, eu sei que você não poderia descer, pegar um megafone, ficar sobre os escombros e agir como um verdadeiro comandante-em-chefe. Ter passado por lá já foi cumprir seu dever.

Haverá agora quem vá tentar politizar a tragédia para usá-la contra você. Só faça com que seu pessoal não denuncie isso como uma manobra. Mas não responda. Nem mesmo a esses cientistas encrenqueiros que previram que isso poderia acontecer, porque as águas do Golfo do México estão cada vez mais quentes, fazendo com que uma tormenta assim fosse inevitável. Ignore-os e ignore todos os seus cacarejos sobre o aquecimento da Terra. Não há nada de anormal num furacão tão largo quanto um tornado F-4 que se estendesse de Nova Iorque até Cleveland [N.T. - aproximadamente 650 km].

Não, Sr. Bush, mantenha o rumo. Não é culpa sua se 30 % de Nova Orleans vivia na pobreza ou se dezenas de milhares não dispunham de transporte para sair da cidade. Ora vamos, são negros! Quero dizer, não é a mesma coisa como se isso tivesse acontecido em Kennebunkport [N.T. - cidade turística do Maine]. Pode-se sequer imaginar deixar pessoas brancas vivendo nos telhados por cinco dias? Não me faça rir! A questão racial não tem nada - NADA - a ver com isso.

Fique tranqüilo, Sr. Bush. No máximo tente encontrar alguns de nossos helicópteros do Exército e mande-os para lá. Faça de conta que as pessoas de Nova Orleans e da costa do Golfo estão próximas de Tikrit.

Seu,

Michael Moore (e-mail: MMFlint@aol.com)

P.S.: Aquela mãe irritante, Cindy Sheehan, já não está na porta de seu rancho. Tanto ela como dezenas de parentes de outros mortos na guerra no Iraque estão viajando agora através do país com paradas em muitas cidades do caminho. Talvez você possa se encontrar com eles antes que cheguem a Washington em 21 de setembro.

[*] Michael Moore, cineasta norte-americano, é autor do aclamado Farenheit 9/11.

Traduzido por M.H.

O original em inglês encontra-se em http://www.michaelmoore.com/words/message/

Esta tradução para o português foi originalmente realizada para o sítio do CeCAC e encontra-se em: www.cecac.org.br

04/setembro/2005