O assassinato de Irmã Dorothy desnuda a questão da terra no Brasil
O brutal assassinato de Irmã Dorothy, executada por pistoleiros de aluguel com 6 tiros à queima-roupa no último dia 12 de fevereiro, em Anapu, sul do Pará, causou comoção no Brasil e no mundo entre todos os que lutam por uma sociedade mais justa e igualitária. Sua morte veio somar-se aos mais de 1300 assassinatos no campo registrados pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), vítimas da barbárie que há séculos caracteriza as relações agrárias no Brasil. Irmã Dorothy atuava desde 1982 na região da Transamazônica Leste, uma das mais miseráveis regiões da Amazônia.
De acordo com o depoimento de um morador da região, Irmã Dorothy era "suave e firme, dedicada como poucos, apaixonada pelo Brasil e pela gente da Amazônia, deixou sua terra, os Estados Unidos, e veio para a nossa. Morava em casa simples, usava sandálias de dedo como o povo pobre daquela região. Falava um português da roça com sotaque americano. Mas era só o sotaque. Pois tinha deixado a ideologia do norte e tinha assumido o compromisso com a gente de nosso sofrido continente".
Em nota divulgada à imprensa, a CPT atribui a morte da missionária ao “latifúndio, mascarado de agronegócio e modernidade”, que quer manter intocada a “absurda estrutura rural de concentração da terra em grandes propriedades, ao lado de milhões de famílias que, teimosamente, buscam, sem conseguí-lo, um pequeno pedaço de chão que lhes sirva de abrigo e que providencie seu sustento.” No mesmo documento, a CPT é enfática ao denunciar a prática abertamente tendenciosa do Judiciário: em 2003 foram despejadas da terra 35.292 famílias, mediante expedição de “liminares de reintegração de posse contra lavradores, sobre áreas com titularidade muitas vezes duvidosa...” e “...dados parciais de 2004 indicam o despejo de outras 34.850 famílias camponesas.” Ao mesmo tempo “das 1379 mortes no campo, registradas pela CPT, de 1985 a 2004, somente 75 casos foram julgados, tendo sido condenados apenas 15 mandantes e 64 executores.”
Por outro lado, segundo relatório da CPT de 2003, “as ocupações e acampamentos somados atingiram o número de 676 ações, envolvendo um número de 124.634 famílias, 623.170 pessoas. O número de pessoas que participaram de manifestações também foi o maior, 481.023 pessoas. O total dos conflitos atingiu um patamar nunca antes atingido: 1.690 conflitos, com 1.190.578 pessoas envolvidas.” Os números levantados pelo relatório revelam, dessa forma, o acirramento dos conflitos no campo, em função da estrutura fundiária que gera concentração de riqueza, por um lado, e, em contrapartida, arrasta milhões de pessoas à miséria e à fome. Os dados revelam também a omissão do governo ao tratar a violência no campo no Brasil.
De fato, foi a grande repercussão que o assassinato de Irmã Dorothy teve na imprensa nacional e internacional que obrigou o governo federal a se pronunciar sobre a situação insustentável de tensão no campo. Entre as ‘medidas’ anunciadas pelo governo estão o envio de 2000 soldados do exército, e a criação de reservas de extrativismo destinadas às populações desalojadas pelo avanço desenfreado do agronegócio sobre a floresta e sobre áreas tradicionalmente ocupadas por índios, pequenos agricultores, seringueiros, e ribeirinhos.
Não faltou pronunciamento ministerial afirmando que o assassinato da missionária teria sido motivado por represália às ‘ações’ que o governo federal vem implementando (ou estaria planejando...) na região, como o Programa de Desenvolvimento Sustentável – PDS, que, ao deixar intocada a grande propriedade rural voltada ao agronegócio de exportação, menina dos olhos do governo Lula, apenas por milagre permitirá a coexistência pacifica dos camponeses com o agronegócio, com o latifúndio e com os madeireiros.
Do lado do latifúndio, um digno porta-voz do setor declarou em entrevista à Folha de São Paulo de 18 de fevereiro que a missionária é culpada pelo conflito na área rural que resultou no assassinato dela. “Era uma agitadora, uma mulher que só criou problema e agora é endeusada de maneira que está prejudicando a região, porque o governo está mandando tropas e criando uma confusão”, afirmou.
Em contundente entrevista à imprensa, o presidente da Comissão Pastoral da Terra, Dom Tomás Balduíno, declarou que “o governo fracassou nas questões sociais.” E continua: “É fracasso. Pode ser que do lado do agronegócio, do superávit primário, da diminuição do risco Brasil, o Governo seja um sucesso. O pessoal está até eufórico. Mas, está aí a morte de Dorothy que é uma severa profecia de anúncio e de denúncia do fracasso.”
Enquanto a política econômica do governo federal reforçar o agronegócio e a concentração de terra, expulsando milhões de famílias de trabalhadores rurais, fomentando, portanto, a violência no campo, as ações governamentais pautadas meramente pela repercussão dos assassinatos de lideranças, a exemplo de Chico Mendes, ou das chacinas, como a de Corumbiara (1995), Eldorado dos Carajás (1996), e mais recentemente no acampamento da Fazenda Primavera (2003), resultarão inócuas, e a tensão no campo tende a aumentar. A situação de violência no campo será solucionada somente com a realização de uma verdadeira reforma agrária - inserida num projeto popular e soberano para o Brasil - que garanta terra para quem nela trabalha.
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22/02/2005