Violência dispara em áreas dominadas pelo agronegócio - 16/4/2004

CPT Nacional

Todas as esperanças depositadas no governo Lula vão se transformando em dúvidas, quando não em decepção. Ninguém ignora as dificuldades imensas, as cercas e empecilhos colocados pelas elites a esse governo.

O ano de 2003 começou com a euforia da "esperança que vence o medo". Os trabalhadores e trabalhadoras do campo acreditaram que havia chegado a hora de uma mudança profunda, que a Reforma Agrária finalmente iria acontecer.

Por isso multiplicaram suas ações que bateram um recorde histórico.

Ocupações e acampamentos somados atingiram o número de 676 ações, envolvendo um número de 124.634 famílias, 623.170 pessoas. O número de pessoas que participaram de manifestações também foi o maior, 481.023 pessoas. O total dos conflitos atingiu um patamar nunca antes atingido:
1.690 conflitos, com 1.190.578 pessoas envolvidas.

Se o governo federal adotou uma nova postura diante dos movimentos do campo, não os tratando como movimentos criminosos, fora da lei, como vinha acontecendo nos últimos anos, também não realizou nenhuma ação concreta que mostrasse sua vontade de fazer uma verdadeira Reforma Agrária.

O número de famílias assentadas durante o ano foi irrisório. Somente no final do ano, depois que o Fórum Nacional pela Reforma Agrária e Justiça no Campo, que envolve os maiores movimentos do campo do País organizou uma Marcha para Brasília, é que o governo lançou seu Plano Nacional de Reforma Agrária, bastante tímido diante do que os movimentos reivindicavam.

O poder privado, porém, e o Poder Judiciário, buscaram de toda forma barrar a ação dos movimentos do campo. O crescimento de sua atuação foi avassalador. O Poder Judiciário emitiu ordens de despejo contra 35.297 famílias, envolvendo 176.485 pessoas, um número recorde desde que a CPT começou a fazer o registro destes dados e possivelmente um recorde histórico em toda a história brasileira. Um aumento de 263,2% sobre os números do ano de 2002. O número de prisões também foi 140,5% maior que 2002.

A ação do poder privado do latifúndio foi muito intensa. O numero de assassinatos cresceu 69.8% em relação a 2002. Foram assassinados 73 trabalhadores em conflitos no campo. Número mais elevado só foi registrado no ano de 1990 e na década de 80.

O número de famílias expulsas foi de 151,4% maior que em 2002. Também com relação ao trabalho escravo, o número de situações denunciadas foi de 240, tendo sido fiscalizadas pelo Ministério do Trabalho 154 situações, que libertou um total de 5.010 trabalhadores submetidos a condições análogas a de trabalho escravo. Este número representa 52,5% do total de trabalhadores libertados, desde que foi criado o Grup o Móvel de Combate ao Trabalho Escravo do Ministério do Trabalho, em 1995.

Mas o que os números revelam é muito mais grave do que pode parecer à primeira vista. Uma análise profunda e iluminadora do prof. Carlos Walter Porto Gonçalves, lança uma luz nova sobre o que se esconde por trás dos dados que a CPT vem religiosamente registrando.

Em 2003, o Centro-Oeste assume a liderança quanto ao maior número de pessoas envolvidas em conflitos: 310.592, 26,09% do total; e em número de pessoas despejadas pelo poder judiciário, 62.995, 35,7% do total. Comparando, porém, estes números com a população rural de cada Estado chega-se a uma faceta da realidade que teimava em não vir à tona.

No Mato Grosso, por exemplo, esses dados mostram um estonteante 40,8% de sua população rural envolvida em conflitos, 210.795 pessoas e um número equivalente a 6,2% da população rural do Estado tendo sofrido alguma ação de despejo, 32.275 pessoas. Uma verdadeira operação de guerra!

Com relação à violência do poder privado, apesar de, em números absolutos, o Pará ser de longe o mais violento, 33 dos 73 assassinatos registrados, 45,2% do total, também é o Mato Grosso, com 9 pessoas assassinadas, que apresenta o maior índice de violência relativa, 7,6. O Pará fica com o índice de 6,9.

Assim, o Centro-Oeste, paraíso do agronegócio, torna-se também o paraíso da violência contra os trabalhadores. Os Estados onde se dá a expansão da moderna agricultura empresarial, o agronegócio, são os que apresentam maior conflitividade, maior violência privada e maior ação do poder judiciário.

Isto mostra que a tão decantada modernidade do agronegócio, nada tem de moderno. Ele reproduz as mesmas velhas e enferrujadas relações sociais e de trabalho que desde o tempo do Brasil Colônia aqui se estabeleceram. Em nome do progresso e do crescimento econômico, se mantêm as mesmas relações sociais de sempre, excluindo um número cada vez maior de pessoas da participação dos bens.
o se alicerça sobre o mesmo modelo, velho e violento, que escravizou índios e negros, no Brasil Colônia, que reduziu imigrantes europeus a condições análogas ao trabalho escravo nas plantações de café, após a abolição da escravidão, no final do século XIX, e que, à época da ditadura militar, expulsou e dizimou nações indígenas, quilombolas, ribeirinhos e posseiros e reduziu à condição de escravos milhares de trabalhadores braçais, para o "desenvolvimento" da Amazônia.

Hoje, em nome do agronegócio e do "progresso" que ele traz, como diz o professor Carlos Walter, "se mata e desmata nos Cerrados e na Amazônia".

O que a CPT pretende, com a divulgação dos dados, é provocar uma reflexão séria de toda a Nação brasileira sobre o modelo de desenvolvimento no campo aqui implantado e mantido a ferro e fogo. Um outro modelo alicerçado na produção camponesa, voltado para o abastecimento do mercado interno e para a segurança alimentar de todos os brasileiros e buscando a soberania alimentar da Nação. Isso afirmam os movimentos sociais do campo com os quais a CPT se identifica.

O ano de 2004 não começou melhor. O "abril vermelho" do MST foi uma exigência da realidade. Infelizmente, o governo Lula também dá razão aqueles que só vêem a Reforma Agrária como resultado de luta, não como iniciativa de governos.

fonte: http://www.mst.org.br/setores/dhumanos/violacoes/violencia43.htm

Esta página encontra-se em www.cecac.org.br