“Revolução Laranja” na Ucrânia: avança a dominação imperialista no leste europeu

Desde o desmantelamento da União Soviética, com a restauração do capitalismo, a situação econômica na Ucrânia tem piorado: cerca de 25% da população vive abaixo da linha da pobreza, com cerca de $33 por mês. Nas áreas mais pobres do país, a pobreza alcança mais de 50% da população. Hoje a Ucrânia é um dos 65 países mais pobres do mundo e a fuga de trabalhadores em busca de melhores condições de vida já levou 5.000.000 de pessoas – 10% da população – a emigrar. Recentemente a Ucrânia foi palco de mais um espetáculo bancado pelo imperialismo norte-americano, com a participação ativa da nova burguesia local. Trata-se da "revolução laranja", cujo nome parece-nos bastante adequado.

Em 21 de novembro de 2004, houve uma eleição para presidente e a Comissão Eleitoral Central declarou vencedor o então primeiro-ministro Viktor Yanukovich, apoiado pelo presidente Leonid Kuchma. Porém, houve sérias acusações de fraude eleitoral, vindas tanto de partidários de Yushchenko como de observadores internacionais.

Depois de grandes protestos, amplamente financiados e orquestrados pelo imperialismo norte-americano, o Parlamento Ucraniano declarou nula a eleição e a Suprema Corte Ucraniana decidiu em favor de uma nova eleição. Em 26 de dezembro de 2004, a "revolução laranja" cantou vitória na Ucrânia, uma vez que o candidato pró-ocidente (isto é, pró-União Européia e pró-Estados Unidos), Viktor Yushchenko, venceu as eleições com 52% dos votos, contra 44% de votos para o candidato pró-Rússia, Viktor Yanukovich.

Mas, o que esta eleição representou para os trabalhadores da Ucrânia? O texto que reproduzimos a seguir “Causas e conseqüências da ‘Revolução Laranja’ na Ucrânia” apresenta uma análise da situação, desmascarando os interesses das classes dominantes da Ucrânia na luta política. E aponta a alternativa, do ponto de vista do proletariado, para a saída da crise neste país que já foi uma das mais importantes repúblicas da antiga URSS: a organização dos trabalhadores e das massas populares, dirigida pelos “bolcheviques”, dentro de uma perspectiva revolucionária de derrota do capitalismo e a construção do socialismo.

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Causas e conseqüências da “Revolução Laranja” na Ucrânia

A. Maevskij [*]

A “Revolução Laranja” vinha sendo organizada há vários anos. Ela vinha sendo planejada à perfeição pelos altos escalões [top brains] nos Estados Unidos e em outros Estados do ocidente, e o mesmo cenário foi usado nas “revoluções” que eclodiram na Sérvia e na Georgia.

Ainda em 2001 houve uma ação organizada, chamada de “Ucrânia sem Kuchma!”. Esta ação foi realizada pelo Partido Socialista, dirigido por A. Moroz e pelo Bloco Yushchenko-Timoshenko (BYT), liderado por Timoshenko. Nesta ação participaram uma coalizão de forças de direita e nacionalistas, mas ela não foi bem-sucedida. Apesar disso, no outono de 2001 A. Moroz foi aprovado com grande sucesso numa pesquisa feita pelos nacionalistas de direita sobre sua lealdade à causa de livrar-se de Kuchma.

No outono de 2002 teve lugar outra ação, chamada de “Levanta, Ucrânia!” da qual fizeram parte quatro forças da oposição – Partido Comunista da Ucrânia, Partido Socialista da Ucrânia, BYT e Nossa Ucrânia. Esses quatro grupos, enquanto uma coalizão, encheram as ruas com quase um milhão de manifestantes, o que não foi difícil de fazer. Ao contrário da situação da nova classe rica, as pessoas pobres, vivendo em situação terrível, se manifestaram contra Kuchma, pensando que, se elas conseguissem livrar-se de Kuchma, as coisas poderiam tornar-se mais fáceis para a maioria do povo. A situação se desenvolveu a ponto de ameaçar tornar-se uma sublevação social.

A idéia era livrar-se de Kuchma e dessa forma resguardar o Estado burguês da ira popular. Este foi o sinal para Yushchenko dirigir este imenso ódio contra as privações econômicas – mas ele ficou nos bastidores, esperando sua chance de aparecer. Esta ação foi o ‘ensaio-geral’ da “Revolução Laranja”, que viria depois. As mãos do Pentágono e da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) foram claramente vistas, utilizando seu know-how e sucesso na Sérvia e na Geórgia.

Nessa “Revolução Laranja” houve motivações objetivas que não foram possíveis de controlar. O ponto chave consistiu em que o povo estava descontente com sua terrível situação econômica e dirigiu sua hostilidade contra o regime de Kuchma, enlameado pela corrupção e que vinha roubando o povo ucraniano. Esses “revolucionários laranjas”, inspirados e apoiados a partir de fora, canalizaram toda animosidade contra o próprio Kuchma e contra seu candidato, que fazia parte do gabinete da presidência de Kuchma, Viktor Yanukovich, mas esconderam o fato principal: as forças de Yushchenko eram e são parte e parcela do Estado burguês, e que a calamidade que se abateu sobre o povo ucraniano é devida ao desmembramento da União Soviética.

Este cenário era acompanhado pelas forças dos EUA/CIA, e mais centenas de milhões de dólares foram enviados, de forma que o governo que havia na Ucrânia e seu regime capitalista continuam. A nova liderança é pró-estadunidense e está roubando seu próprio povo em todas as suas repulsivas políticas.

O fator objetivo dessa situação revolucionária: crise por cima, crise na base e o início da atividade revolucionária. O fato é que agora os partidos revolucionários sinceros devem tirar proveito da situação e organizar a luta contra o regime capitalista atual. A crise ao nível dos trabalhadores mostrou que eles não querem mais viver nestas condições, e a atividade e a disposição para se organizar e se manifestar foi demonstrada ali – um começo para uma possibilidade de levante revolucionário – [a ser] canalizado para a derrubada do regime capitalista atual.

O atual regime da Ucrânia é sustentado apenas pelas burguesias interna e externa, mas a animosidade [popular] foi canalizada para a promessa de que a “Revolução Laranja” trará as mudanças necessárias. Mas, como na Sérvia e na Geórgia, a idéia principal era colocar uma liderança mais próxima aos Estados Unidos no poder. As massas fizeram uma coisa apenas – elas mudaram o laço ao redor de seu pescoço.

Nós sabemos que os trabalhadores entenderão em breve o que realmente aconteceu, que foram iludidos e manipulados pelos dedos da burguesia.

Nossa tarefa, a tarefa dos Bolcheviques, é acelerar o processo revolucionário e dirigir toda energia das massas contra seu inimigo de classe, a burguesia. Isso significa que nós devemos ajudar a classe trabalhadora a limpar suas fileiras dos oportunistas, anticomunistas e anti-stalinistas, ajudá-la a crescer como uma força que seja capaz de impulsionar a revolução proletária, a revolução socialista, a única revolução capaz de libertar a classe trabalhadora da exploração e da opressão.

[*] Secretário do Comitê Central do Partido Comunista dos Bolcheviques de toda União.

Traduzido de Northstar Compass, vol.13, n.7, feb. 2005 – www.northstarcompass.org (Ukraine in the Plans for U.S. Globalization)

Este artigo encontra-se em www.cecac.org.br

24/03/2005