Entrevista Coletiva da CPT na sede da CNBB em Brasília (DF) - 16/02/2005


Hoje, dia 16 de fevereiro, o presidente da Comissão Pastoral da Terra, Dom Tomás Balduíno, concedeu entrevista à Imprensa, na sede da CNBB, em Brasília (DF). Na ocasião, distribuiu Nota da CPT sobre o assassinato de Irmã Dorothy Stang, e o Relatório dos ameaçados de morte, em 2004.

Na entrevista, o presidente da CPT também falou sobre outros assuntos.
Agronegócio

Nós temos a convicção, com leitura científica, que onde o agronegócio é mais notado, mais forte, mais forte também é a violência. Mesmo por aqui, no Centro-Oeste. Pelo Caderno de Conflitos que é feito sem nenhuma outra intenção a não ser levantar a realidade. Ou emprestar a voz e a vez dos que sãos as vítimas. Dos que nunca falam que são os lavradores.. Por ali, está notado que o agronegócio é violento. É violento. E, além da violência contra a mãe-Terra. Na destruição da floresta, do Cerrado. 80% dos nosso lindo Cerrado está falecendo para o plantio de soja. O que fica atrás disso? É o deserto, a morte da biodiversidade.

Declaração de Nilmário Miranda que afirma não ter protegido a irmã Dorothy Stang porque ela não quis

O governo deve ter suas razões de agir ou não. No caso da irmã Dorothy, o que sobra de todo esse relacionamento é de ela não ter sido ouvida. Ela não vinha atrás da proteção à sua pessoa. Isso talvez seja um álibi. Uma escusa. Ela vinha reclamar solução para os problemas daquela terra em conflito. Terra em disputa. Um avanço sobre aquela área pelas forças do poder econômico que se vale da conivência inócua do Estado e até da Polícia Civil. Ela não foi ouvida pelo governo. Não é dizer só que ela não quis. Ela queria proteção daquele povo, o que é muito mais do que à pessoa dela. Eu admiro muito isso na irmã Dorothy. Ela acreditava que velha, setenta e tantos anos, e religiosa, com aquela aura de religião, seria respeitada pelos pistoleiros. Olha, o que deu.

Envio de tropas federais

O envio das tropas federais para mim é paliativo. As tropas não podem ficar o tempo todo. Não é normal na estrutura de um lugar, uma tropa, um quartel do Exército. No dia em que eles forem embora, volta à mesma situação. Virou uma espécie de cataplasma. A ferida está lá. Tem que ir à raiz dessa ferida que é a falta de estrutura governamental, oficial. Incra, Ibama. Não tem fiscal e quando tem, falta recurso, não tem veículos. Fala-se que o homem da Polícia Federal tem que usar a garupa de uma motocicleta. Daqui a pouco usa o carro do fazendeiro. E, fica devendo favor.
Eu não sou contra a ida do Exército. Pode ser útil, e, sobretudo, levando outros equipamentos; e isso deveria ser uma espécie de modelo para toda a região. Para toda aquela área conflitiva que vai longe.

O governo fracassou nas questões sociais

É fracasso. Pode ser que do lado do agronegócio, do superativ primário, da diminuição do risco Brasil, o Governo seja um sucesso. O pessoal está até eufórico. Mas, está aí a morte de Dorothy que é uma severa profecia de anúncio e de denúncia do fracasso.

Julgamento

Isso é uma questão que põe a nu, a falência do Judiciário. Quando se trata de julgamento dos assassinos de pobres, de lavradores. Aí a tabela mostra que de 1,5 mil casos, tivemos apenas 70 processos e destes, somente 14 condenados. Então é um Judiciário que não está a fim de superar a impunidade. Que colabora com a sua inércia e com o que está por trás, com a impunidade. Mas o grave, também, são os casos de despejos. Em 2004, foram 25 mil famílias despejadas. Muitas delas já estavam havia sete anos, como o pessoal do Prado, abastecendo o pessoal do entorno. Então, por uma sentença fulminada pelo juiz, lá vem a tropa-de-choque, lá vem a destruição dos barracos, da lavoura. Gente que abastecia todas as feiras, ali, no entorno. De repente vai para a favela, vai para a fome.

É caso de crime organizado?

Há o crime organizado. Isso é muito patente. Outras mortes estão econtecendo.

fonte: http://www.cnbb.org.br/ddview.php?notid=7049&dataid=2005-02-16

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